Tempos de Cólera

ZECA AFONSO

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QUANDO OS INCÊNDIOS ALASTRAM


Quando os incêndios alastram
Está próximo o castigo
Por vezes a ilusão
Por vezes a morte.
adormecem os corpos junto à doca
Punhos cerrados
Em direcção à terra.
Irmãos de caqui outros virão
Mineiros, estivadores, seareiros da fome
Através dos mares da nafta.
Sinistras fortalezas da morte
Delicadas lianas da abastança
Impérios da agiotagem. Ó, lembrai-vos
Do ano de 29 e sobretudo,
Cagai, amontoai, engoli, triplicai
O ouro que atravanca as vossas streets triunfais.
Debaixo da terra
Olhos mortos aguardam
Um cavalo que afronta a madrugada.


*


EM VENDO A CORJA TOMAR O FREIO


Em vendo a corja tomar o freio
Vender o jogo, coitadinha
Sinto vontade de ir em passeio
Ir à vidinha
Não é cordato ser pessimista
Quem não se lembra dos galarós?
Esta tendência para ser fadista
Vem d'outros tempos, d'outros avós
Tu Nicolau Tolentino sabes
Quantos peraltas são já ministros?
Quantos mendigos chegam a frades?
Quantos são Cristos?
Isto do tempo de antena é moda
Que vem do fundo da tradição
Quando o tirano de Santa Comba
Fazia tudo pela Nação
E as calinadas do Pai Tomás
Dignificando o Pátrio idioma?
Meus rapazinhos, quem é capaz?
Quem faz a soma?
Este chulismo de quintarola
Esta viagem p'rà CÊÉÉ
E o populacho todo pachola
Olarilolé
Muitos mais chulos nos vão rondando
Vai sendo tempo qu'rido zarolho
Pega no arrocho de quando em quando
Prepara o molho


(Poesias retiradas de "José Afonso, Textos e Canções" de Elfriede Engelmayer, Lisboa 2000, Relógio D'Água Editores)


 


ZECA AFONSO, “Um homem de palavra e das palavras livres”


Era um homem de coragem. Mas também terno, frágil, de uma infinita tristeza. Falava da esperança, lutava pela liberdade e cantava tudo isto, falando em lealdade, em amizade e em amor.
Sempre.
Acreditava na solidariedade, no sonho e na poesia, como armas de paz. Porque Zeca Afonso era sobretudo isso: um homem de paz, que se insurgia contra a violência, contra a prepotência, contra as desigualdades e as hipocrisias, através daquilo que compunha, que criava.
Encarou o fascismo com uma firmeza e uma rebeldia muito própria, muito pessoal: com aque­le seu olhar distraído e espantado de criança; com aquela sua tranquilidade silenciosa, com aquela sua timidez-bonita, que todos testemunhámos.
Zeca Afonso deixou atrás de si uma obra importante na música portuguesa, mas para mim ele foi, sobreudo, um amigo especial, diferente, que recordo com saudade.
Um homem de palavra e das palavras livres.

Maria Teresa Horta, 2009

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