
Por José Luis Lanao*
Trump está na moda, mal. Ele é a personagem do ano. Combina bombardeamentos com dribles. É um homem que mata bem. Muito bom. Mata por atacado, sem estabelecer grandes distinções morais entre um abate ou outro. Suas guerras acontecem como alguém jogando caroços de azeitona, um após o outro. Ele os cospe como se fossem reality shows, sem muito conteúdo, algum consumo rápido, para passar para o próximo conflito. Uma maneira macabra de fazer política. Quanto tempo demoramos a reconhecer quem vai lixar as nossas vidas? Parece-te familiar?
Há uma tropa de ultraliberais alienados que construíram um sistema de normalização do horror tão eficaz que nem ordens nem censura são mais necessárias. A barbárie não está mais escondida, está diluída em milhares de conteúdos banais e no sempre generoso cartão de crédito para fumar. Queremos vidas fofas, leves e mescladas, para nos distrairmos, com pouco peso. Abriu-se assim uma nova frente, mais dura e difícil de derrubar: a constituída pelo indiferente. Sujeitos que se excluíram da realidade, que carecem de ideais ou deixaram de buscá-los. A ordem mundial muda, mas a tranquilidade com que renunciamos à defesa das nossas convicções é inquietante.
Nesta mania de pensar e pensar, devemos reconhecer que pensamos pouco de nós mesmos. Neste mundo de espelhos irreconhecíveis e distorcidos, de realidades inimagináveis, com que critérios éticos e morais podemos aceitar que um parceiro genocida entregue o maior prémio do futebol internacional no próximo Campeonato do Mundo, e os nossos rostos não caiam na vergonha? Imagem miserável nos espera: Trump entregando a Copa do Mundo e o mesmo homem e ao mesmo tempo assassinando civis inocentes do outro lado do mundo. Que sequência da infâmia mais abjeta. Como é que isto é julgado? Não sei como é que os nossos descendentes o julgarão, mas o cinismo terá de ser-lhes deixado bem fundamentado; se não, acreditarão.
Quem hoje fecha os olhos deve lembrar que quem normaliza o comportamento de um genocidaire aumenta sua impunidade, e quanto mais seus excessos são tolerados, mais seu poder aumenta. Enquanto nos comprometemos a cada silêncio ou gesto de indulgência, a cada crítica adiada, contribuímos para ampliar o seu espaço de manobra. Na realidade, não nos atrasámos para reconhecer o genocídio de Gaza, mas para admitir que sempre soubemos que era um.
Aqueles de nós que pensam assim não são contra a Copa do Mundo, questionamos se é moralmente ético jogar em um país que atualmente bombardeia cidades e mata crianças inocentes. É pelo menos aberrante que um genocidaire seja um dos protagonistas do maior espetáculo popular do planeta, quando, no mínimo, deveria assistir ao evento esportivo no Tribunal de Haia.
(*) Jornalista, ex-jogador do Vélez, clubes espanhóis e Campeão Mundial da Juventude 79.