Tempos de Cólera

Yannis Ritsos

thnoh8.jpg


 O ESPAÇO DO POETA


A escrivaninha negra com entalhes, os dois candelabros de prata,
o cachimbo vermelho. Está sentado, quase invisível, na poltrona,
com a janela sempre às suas costas. Por detrás dos óculos,
enormes e cautos, observa o interlocutor
luz intensa, ele próprio oculto dentro de suas palavras,
dentro da História, com personagens seus, distantes,
[invulneráveis,
capturando a atenção dos outros nos delicados revérberos
da safira que traz num dedo, e alerta sempre para saborear-lhes as expressões, nos momentos em que os tolos efebos
emudecem os lábios com a língua, admiravelmente. E ele,
astuto, sôfrego, sensual, o grande inocente,
entre o sim e o não, entre o desejo e o remorso,
qual balança na mão de um deus, ele oscila por inteiro,
enquanto a luz da janela atrás lhe põe na cabeça
uma coroa de absolvição e santidade.
"Se a poesia não for a remissão — murmura a sós consigo, —
não esperemos então misericórdia de ninguém".


*
PANELA SUJA DE FULIGEM (fragmento)


Perto de ti o aleijado antes de se ir deitar retira a perna.
Deixa-a num canto – uma perna oca de madeira
– É preciso que a enchas como se enche de terra um vaso para plantar flores
Como a escuridão se enche das estrelas
Como pouco a pouco enche-se a pobreza de pensamentos e de amor.

Decidimos que um dia os homens hão de ter as duas pernas
Uma ponte ditosa de um olhar a outro
De um coração a outro. Por isso onde estejas sentado
Entre os sacos no passadiço de partida para o exílio
Por trás das grades da seção de trânsito
Perto da morte que não diz “amanhã”

Entre milhares de muletas de anos amargamente aleijados
Dizes “amanhã” e ficas sentado tranquilo e seguro
Como um homem justo diante de outros homens.

Estas marcas rubras nas paredes podem ser de sangue
– tudo quanto seja rubro hoje e dia é sangue
pode ser também o sol batendo na parede fronteira.

A cada crepúsculo as coisas ficam rubras antes de apagar-se
e a morte mais perto. Do lado de fora da cerca
estão as vozes das crianças e o apito do trem.

(...)

Nessas horas apertas a mão do companheiro teu,
o silêncio se enche de árvores
o cigarro partido ao meio corre de boca em boca
como lanterna a perscrutar o bosque.
– Encontramos a veia
que leva ao coração da primavera. E sorrimos.
Então as celas se tornam mais estreitas
e é mister que sorriem às janelas
para achares um lugarzinho onde esticar as pernas.

Sorrimos para dentro. Este sorriso o escondemos agora.
Um sorriso ilegal – como ilegal tornou-se o sol
ilegal a verdade. Escondemos o sorriso
como se esconde no bolso a foto da mulher amada
como se esconde a idéia de liberdade nos refolhos do coração.
Aqui todos temos um céu e o mesmo sorriso.

Amanhã poderão matar-nos. Mas este sorriso
e este céu não nos poderão tomar.


(1966)


*


TRANSPARÊNCIA


Vidraças lavadas. Sol de inverno. Uma grande transparência.
Um cigarro aceso — fumega;


Ítaca, não; não mais aventura, mas um vazio bem ordenado


— e nenhuma recusa, nenhuma obediência, nenhuma pergunta.


Lá fora, passa o velho com a sacola às costas. Por entre as casas
vê-se a colina em frente com seus ciprestes, o pequeno pastor
por entre as cadeiras da casa (pois as casas são transparentes)


e a mulher que procura a vassoura que tem nas mãos.
Dentro do espelho uma janela virada ao contrário, somente céu.


*


SUÍTE PEQUENA EM VERMELHO MAIOR


Os dedos da mão
os dedos do pé
falos
entre os cinco dedos
quatro vulvas
- vinte e dezesseis -
antes de conseguires
fazer a soma
teu esperma jorra
nos lábios da estátua.


(Poemas eróticos, 1981)


*


Talvez o maior poeta grego do século XX:


Nasceu em Monemvassia, Grécia, no 1º dia de Maio de 1909, filho mais novo de família da pequena nobreza latifundiária, a sua juventude foi marcada por tragédias familiares: ruína económica, morte precoce da mãe e do irmão mais velho e internamento do pai por doença do foro mental. Ele próprio esteve quatro anos internado num sanatório para tratamento de tuberculose.


Estes funestos acontecimentos marcaram-no profundamente e estão presentes na sua obra, contribuíram também para se tornar poeta e revolucionário. A partir de 1933 torna-se membro do Partido Comunista Grego e adere ao círculo literário inspirado no futurismo de Maiakovski, publica Tractor (1934) e Pirâmides (1935). Em 1936 explora a poesia tradicional grega e, numa simples e clara linguagem, escreve o longo poema Epitáfio, uma mensagem de fraternidade que, musicado por Míkos Theodorákis, acabou por converter-se numa espécie de hino da esquerda grega e no detonador da revolução cultural na Grécia (1960). Entre seus livros, destaca-se o belíssimo Monovassiá (1983). Graças à sua obra poética que se torna alvo da repressão do regime ditatorial de Metaxas.


Durante a guerra civil grega, Ritsos envolve-se na luta contra os fascistas e passa alguns anos da sua vida na prisão e em campos tidos como de “reabilitação”. O seu livro Epitaphios foi queimado publicamente pela ditadura de Ioannis Metaxas. Em 1948, com o início de outra ditadura militar na Grécia, Yiannis Ritsos é preso, passando pelos campos de Limnos e o terrível Makronisos, onde escreve seus Diarios do Exílio. Em 1967, é preso novamente, desta vez pelo regime da Junta Militar de George Papadopoulos e Nikolaos Makarezos, e enviado para o campo de Gyaros. É proibido de publicar até 1972.


Apesar destas contrariedades, consegue uma extensa produção poética coligida em Vigil (1941-1953) e uma volumosa crónica dessa terrível década, Distritos do Mundo (1949-1951), tema para outra composição de Theodorákis. Está entre os grandes poetas gregos modernos, ao lado de Konstantinos Kavafis, Kostas Kariotakis, Giorgos Seferis e Odysseus Elytis. Morreu em Atenas, a 11 de novembro de 1990.


(Não conhecemos nenhum livro seu traduzido em português.)

0