
Crónica escrita em 2010 sobre o tema da tradição nacional da “cunha” e a estória dos submarinos
A corrupção e a luta política
Acaba de ser publicado um estudo sobre a corrupção e que apenas viu a pequena corrupção, que, ao que parece, se concentra mais nas autarquias e envolve, para além dos ditos autarcas e funcionários locais, e mais estes do que aqueles, os agentes de autoridade, que se deixam aliciar por pequenas quantias de dinheiro. As causas são atribuídas ao excesso de burocracia e a uma certa cultura, e as luvas que se dão são uma espécie de óleo que faz funcionar a máquina administrativa local. Sobre a grande corrupção, a que envolve os responsáveis pela máquina perra nada se diz, contudo, o caso dos submarinos, entre outros, está aí a dizer quem são, afinal, os verdadeiros corruptos.
Não custa nada apontar o dedo à pequena corrupção, à “cunha” que se mete para que o processo ande mais depressa em qualquer departamento do estado emperrado pela burocracia, esta também intencional, ao pequeno funcionário público, que recebe o cabrito ou o garrafão de azeite, mas não ao dirigente político nacional ou regional, e à corrupção no mundo dos negócios, essa até parece que é lícita, já que não há qualquer legislação que a enquadre. O sucateiro de Ovar foi preso porque estão envolvidas figuras públicas e empresas com participação do estado, e talvez seja condenado porque a burguesia não gosta dos novos ricos feitos à pressão, os ditos emergentes, e porque há um sector da imprensa que tem os olhos postos nos homens de Sócrates, e no próprio, a fim de o derrotar pessoalmente, já que o não consegue fazer no campo da política.
O caso dos submarinos
O denominado caso dos submarinos pode ser o caso paradigmático da corrupção dentro do estado, pelas pessoas envolvidas, pela natureza do negócio, pelo montante elevado de dinheiro que irá sair dos cofres públicos e pela inutilidade dos objectos adquiridos. São dois submarinos que não irão servir para nada, excepto para as brincadeiras de guerra dos senhores almirantes (foi patético ouvir os argumentados do almirante, chefe do estado-maior da Armada, no jornal do canal 2), não é com submarinos que se fiscaliza a nossa zona marítima (ZEE), mas irão custar muitas centenas de milhões de euros.
O negócio das contrapartidas, a intermediação por empresas (empresários) muito pouco idóneas, as luvas eventualmente distribuídas por altos funcionários do estado e políticos, com comportamentos e honestidade mais que dúbios, com especial relevo para quem protagonizou o negócio, o ex-ministro da Defesa Paulo Portas, que terá ido para ministro possivelmente para fugir ao escândalo do caso da Universidade Moderna, mostra o que é, na realidade, a corrupção dentro do estado, que se deve caracterizar como burguês e capitalista – o estado não é neutro nem está acima das classes –, também ele agente corruptor.
Os falsos nacionalismos
Outro aspecto a considerar é os grandes países capitalistas da UE e produtores de material de guerra quererem impor estes produtos inúteis a países mais pobres e, paradoxalmente, em crise financeira e económica grave. A compra dos submarinos a uma Alemanha, que saiu derrotada da Segunda Guerra Mundial, mas que já é um dos maiores produtores de armamento do mundo, pode ser entendida como uma imposição vexatória a Portugal, como a que aconteceu com a Grécia que, com a corda ao pescoço do endividamento público, foi obrigada a adquirir submarinos e fragatas à Alemanha e à França, ao mesmo tempo que os juros da dívida eram aumentados.
O nacionalismo de um Paulo Portas, e do sector mais ultramontano da burguesia portuguesa que representa, cai por terra facilmente, porque a compra dos submarinos torna ainda maior a subordinação de Portugal à grande potência que é a Alemanha, a renascer das cinzas e a mostrar as garras.
O mundo do capitalismo é um mundo da corrupção, e não há volta a dar-lhe, por muito boa vontade que tenham os Cravinhos da nossa terra.
10 de Abril de 2010