
Diz o actual dirigente do PSD que o governo do PS/Costa está a “desfazer-se aos bocados”, então, será bom relembrar quando o governo do PSD/PP/Coelho/Portas estava igualmente a desfazer-se. Crónica de Novembro de 2014 perfeitamente actual.
O ministro das polícias demitiu-se, ou foi obrigado a demitir-se, para defender o governo, serviu de escudo ao chefe, e, eventualmente, para não ser preso juntamente com os outros onze elementos do gangue, um deles chefe de uma das polícias do regime. Não foi a demissão do governo, como se imponha pela política que tem aplicado contra o povo português porque o único apoio sólido que ainda desfruta é o que lhe é oferecido pelo Silva de Boliqueime. Foi, então, a 11ª remodelação. Um governo mais que remendado que ainda vai contando, como oxigénio que se dá a doente em respiração assistida, com a benevolência dos partidos da dita “oposição”.
A política deste governo de coligação fascista PSD/CDS-PP encontra-se isolado perante os trabalhadores, a sua base de apoio mesmo entre a classe média nunca esteve tão estreita como agora, como a confiança entre as elites jamais esteve tão em baixo, basta ouvir um dos caciques da partido, o advogado Miguel Veiga (um dos que nos bastidores, como o “especialista” em segurança Ângelo Correia, decide sobre quem é quem dentro do partido) dá como certo e conveniente a “entrega” da vitória das eleições ao PS, como comissão para os próximos 4 anos (de preferência) para gestão dos negócios dos capitalistas nacionais.
A falência da política do governo é evidente, se os mais ricos de Portugal estão mais ricos e os compromissos para com a banca internacional estão a ser respeitados, ninguém assegura que no futuro, e num futuro próximo, haja garantia de que a dívida será paga e as taxas de acumulação capitalista estejam acautelados. E os números estão aí, entre outros: Portugal teve o 5º maior défice comercial da União Europeia até o mês de Agosto, ou seja, um saldo negativo de 6,8 mil milhões de euros, mais 900 milhões de anos em relação ao mesmo período do ano de 2013, segundo o Eurostat.
Enquanto a economia vai estagnando, os sacrifícios impostos continuam, mostrando que por muito que o povo se sacrifique a economia capitalista não desloca, por força das suas contradições internas, e as “gorduras” do estado longe de diminuírem têm vindo constantemente a aumentar: desde 2007 até 2015, as tais ditas “gorduras” aumentaram 11%, isto é, cerca de mil milhões de euros. O combate do governo ao “despesismo” faz-se sentir essencialmente na redução das despesas do estado com o pessoal (-3,3 mil milhões de euros), devido não só aos cortes dos salários como também à enorme redução do número de trabalhadores, só nos últimos três anos foram mais de 40 mil funcionários que foram enfiados na reforma antecipada, não contando com os da dita “requalificação profissional”, dos quais 27 mil professores.
E, embora não sendo dinheiro do estado, o combate às “gorduras” foi a retirada do abono de família a mais de 52 mil e 500 crianças, em apenas dois meses (Agosto a Outubro), e do rendimento social de inserção a quase 5 mil pessoas, no mesmo período de tempo. Contudo, as rendas orçamentadas para as PPP no OE-2015 atingem os 1 400 milhões de euros e o recurso a serviços privados por parte do Estado é cada vez mais frequente e oneroso – diz o estudo apresentado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra há poucos dias; o governo justifica com os 75% da despesa pública com rubricas rígidas, resultantes do “elevado endividamento e da dinâmica demográfica negativa” (!?), como se estas duas realidades não fossem consequência directa de toda a política seguida pelos governos dos partidos do bloco central.
Enquanto o povo português se encontra mergulhado em miséria cada vez mais negra, dois deputados dos tais partidos “responsáveis” (Couto dos Santos e José Lello) entenderam apresentar a proposta de levantamento da suspensão do pagamento das pensões vitalícias aos antigos políticos, ao que parece, em número de cerca de meio milhar; os chulos do regime estão em perigo de falência! Só o BE fez um “bonito” repudiando a medida e até exigindo o fim de todas as pensões vitalícias para os políticos, até o PCP teve uma posição cautelosa, porque também mama na mesma teta e aprovou a medida em tempos idos, e os partidos da coligação até puderam dar uma “de esquerda” inviabilizando a proposta, na medida em que o momento nem é oportuno, a caça ao voto já começou. É com esta e com outras que os partidos do regime o vão desacreditando, e foi uma dita “independente” do PS, completamente histriónica, que mais protestou pela tentativa frustrada de se aumentar os rendimentos dos políticos aposentados, uma tal que fez umas “flores” em defender a adopção por casais homossexuais.
Este regime de democracia de opereta não vai lá com desculpas nem com medidas regeneradoras. Paulo Morais, o homem da “Associação Integridade e Transparência”, defende que Passos C oelho deveria pedir desculpa ao país pelo escândalo que levou à detenção de 11 pessoas, entre as quais altos quadros do Estado, por suspeitas de corrupção no âmbito da atribuição dos vistos gold e que o programa de atribuição é “pernicioso”, escamoteando que para o capitalismo não existe ética, a única ética, o único código de conduta para qualquer capitalista é aquele que lhe permite maior e mais rápida acumulação de capital.
O capitalismo não tem ética ou moral, é o que é em termos objectivos, todas as regras que se lhe queiram impor irão ser removidas porque a dinâmica do capitalismo assim o exige, caso contrário implode. A lavagem de dinheiro faz parte do sistema, faz parte da sua alimentação, embora neste caso só para uma pequena parte, a especulação imobiliária, o que faltará saber neste esquema, agora sob investigação policial, quais as comissões recebidas por cada interveniente.
Não constitui motivo de espanto que um secretário de estado (Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações) venha perorar que o que interessa não é a “origem” do dinheiro mas o “projecto”, ao referir-se à solução salvífica da PT. E se a polícia interveio é porque alguém, descontente com o quinhão que lhe calhou, botou a boca no trombone, porque é sempre assim, não foram as autoridades judiciais, o tal poder “independente”, que actuaram de motu proprio.
O governo português é considerado um dos mais corruptos do mundo, só ultrapassado por uma República Checa ou uma Lituânia, onde os índices de corrupção são maiores. A corrupção está fortemente instalada nos partidos, no aparelho do estado, desde policias e autoridades judiciais a autarcas, quase que fazendo parte da “cultura nacional”. Mas, vendo bem, esta cultura não é a do povo apesar de fortemente contaminado, basta ver que a “cunha” é quase uma instituição nacional, mas a da classe dominante, consolidada ao longo dos tempos e dos sucessivos regimes políticos, e que constrange os próprios trabalhadores por falta de uma forte consciência de classe e espírito reivindicativo.
É considerado “normal” que políticos passem para as administrações das grandes empresas que tiveram negócios com o Estado depois de se retirarem da vida política activa, ou façam o percurso inverso para os facilitar, e que a Assembleia da República, a dita “casa da democracia”, seja um «escritório de representação» de interesses económicos e de que o «lóbi é feito dentro do parlamento pelos próprios deputados», não sendo por acaso que, na atual legislatura, metade dos deputados - «117 dos 230» - tenham optado pelo regime de acumulação, que «lhes permite manterem a atividade profissional pública e privada». A isto chama-se corrupção .
Não é preciso o estudo da TIAC (Transparência e Integridade - Associação Cívica) "Lóbi a Descoberto: O Mercado de Influências em Portugal", mostrar que os políticos portugueses (do sistema) “são permeáveis a influências de grupos de interesses”, com os sectores financeiro, da energia e da construção civil "os mais envolvidos em práticas de lóbi pouco transparentes". De entre estes sectores, "a banca, em particular, tem-se destacado na criação de empregos para responsáveis públicos: 230 pessoas ocuparam um total de 382 cargos em instituições financeiras antes ou depois de terem desempenhado funções no Governo". Ao todo, 54% dos membros dos Governos desde o 25 de Abril desempenharam funções na banca; além disso, desde 1986, todos os governantes do Banco de Portugal tinham anteriormente ocupado posições na banca", revela o relatório.
Quando dirigentes do BE e do PCP, e outras boas almas, vêm denunciar que se torna imperioso a regeneração do regime, que urge separar a economia da política, que esta não pode continuar refém do poder económico, é razão para sorrir, ou são idiotas ou querem fazer o povo estúpido. Ora, o regime da democracia burguesa é o regime da ditadura do capital sobre o trabalho em moldes humanizados e civilizados, utilizando o engodo de se enfiar um papel dobrado de 4 em 4 anos, com a condição de se dar a vitória aos mesmos partidos da ordem. Ora, o Estado, com a sua máquina administrativa, aparelhos repressivos, policial e judicial, e demais órgãos de propaganda e controlo das massas, é uma Estado de classe, é uma máquina de exploração e de repressão das elites económicas sobre as demais classes sociais. Ora, é isto que os partidos reformistas e social-democratas, mesmo que agitando a bandeira do comunismo, escondem aos olhos dos trabalhadores e do povo.
21 de Novembro de 2014 in www.osbarbraos.org