
O POETA
I
Ninguém contempla as cousas, admirado.
Dir-se-á que tudo é simples e vulgar...
E se olho a flor, a estrela, o céu doirado,
Que infinda comoção me faz sonhar!
É tudo para mim extraordinário!
Uma pedra é fantástica! Alto monte
Terra viva, a sangrar, como um Calvário
E branco espectro, ao luar, a minha fonte!
É tudo luz e voz! Tudo me fala!
Ouço lamúrias de almas, no arvoredo,
Quando a tarde, tão lívida, se cala,
Porque adivinha a noite e lhe tem medo.
Não posso abrir os olhos sem abrir
Meu coração à dor e à alegria.
Cada cousa nos sabe transmitir
Uma estranha e quimérica harmonia!
É bem certo que tu, meu coração,
Participas de toda a Natureza.
Tens montanhas, na tua solidão,
E crepúsculos negros de tristeza!
As cousas que me cercam, silenciosas,
São almas, a chorar, que me procuram.
Quantas vagas palavras misteriosas,
Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!
Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos,
Beijam meus olhos sombras de mistério.
Sinto que perco, às vezes, os sentidos
E que vou a flutuar num rio aéreo...
Sinto-me sonho, aspiração, saudade,
E lágrima voando e alada cruz...
E rasteirinha sombra de humildade,
Que é, para Deus, a verdadeira luz.
(...)
*
UMA TRAGÉDIA
Que grande multidão, além, naquela praça!
As carruagens não conseguem transitar...
E, num pressentimento enorme de desgraça,
Trémulo aproximei-me então desse lugar.
Nas pedras dum passeio, eu encontrei deitado,
Os olhos já sem luz, com o crânio partido,
O peito todo em sangue, um homem desgraçado
Que dum terceiro andar havia ali caído…
E uns murmúrios banais de tristeza e piedade
Pairavam sobre mim, como uma sombra fútil.
E eu vi toda a irrisão e toda a crueldade,
Inconsciente talvez, daquela dor inútil!
A escura multidão chorava aquela morte,
Nesse triste prazer que produzem os dramas,
Onde há lagos de sangue e maldições da sorte
E mártires a arder entre vermelhas chamas!
Porque é que vós chorais o magro proletário,
Que num perigo enorme a trabalhar andava,
Um Cristo que subira, enfim, o seu calvário
E que entre os Fariseus, colérico, expirava,
Se fostes vós, irmãos, os únicos autores
Desse drama que tanto assim vos comoveu?...
Uma injúria saiu daqueles estertores
E, ao ouvi-la, vossa alma inquieta estremeceu!
Era uma injúria de revolta e indignação
Contra a injustiça humana e contra a crueldade
Que obrigam a perder a vida por um pão
Um justo que merece o amor e a piedade...
E o povo dispersou num remorso sombrio...
E na sua sombra negra a noite amortalhou
Esse cadáver hirto, ensanguentado e frio
Que aos homens sem amor a Paz arrebatou!...
*
A FÁBRICA
As negras chaminés, quais bocas tenebrosas,
Cospem no azul negros escarros pestilentos
Dum fumo que envenena as paisagens nervosas
E que os lúcidos céus nos torna nevoentos...
A fábrica trabalha, e silvos estridentes
Cortam, como uma espada, a trágica atmosfera.
Há rodas a girar, grandes fornos ardentes,
Terríveis como o olhar sangrento da Quimera!
Lívidos rostos, como lágrimas, orvalham
Os vapores que vão mover as engrenagens.
Há negros vultos revoltados que trabalham,
Enquanto o sol fecunda o ventre das paisagens!
Vem visitar, ó Dante, este medonho inferno,
Os negros antros do Trabalho e da Miséria...
Cavernas onde geme o sofrimento eterno
Que tem no rosto magro a palidez funérea!
Anda ver, ó Poeta, os antros do Martírio,
Os modernos Titãs que hão-de escalar os céus...
E nas forjas, a arder, as chamas em delírio,
Que, porventura, anima a cólera de Deus!...
E a bigorna onde forja a Dor o raio ardente
Que há-de o mundo imperfeito e injusto fulminar!
Mas nesta escuridão eu vejo claramente
O brando alvorecer dum místico luar...
E da Fábrica cruel, cheia de fumo e treva,
De grandes corações amargos, sofredores,
Um grande sonho, ó Deus, fantástico se eleva,
E envolvem a oficina estranhos esplendores!...
*
A MORTE
O nosso corpo é estrela,
Que vai arrefecendo
E escurecendo,
Para que nele surja uma outra luz mais bela,
A luz espiritual.
É preciso baixar à negra sepultura,
Para que a humana e pobre criatura
Alcance o eterno amor.
É preciso sofrer o último estertor,
Chorar a lágrima final...
*
O DOIDO E A MORTE
Era uma noite fria de Natal.
Sobre os campos, a lua derramava
Sinistra palidez misteriosa...
Nos montanhosos longes denegridos
Pairavam alvas formas indecisas,
Asas de anjos desfeitas em brancura...
A translúcida aragem, perpassando,
Arripiava os ermos viandantes
E retocava o brilho das estrelas.
Os pinheiros gemiam surdamente;
E, na face das pedras espelhado,
O luar abria num sorriso triste...
Vultos negros, opacos de penedos,
Erguiam-se, sonâmbulos e mudos,
E olhavam o Infinito, como Esfinges...
O silêncio reinava: era o Senhor
Do mundo e da paisagem, e o seu Reino
Além das Nebulosas se estendia...
Por um longo caminho esbranquiçado,
Entre pinhais, sombrios e confusos,
A Morte cavalgava, a largo trote.
As patas espectrais do seu cavalo
Ouviam-se calcar a terra dura
E sonora que o gelo trespassava.
E aquele ruído escuro, difundindo-se
No indefinido e lívido ambiente,
O ensombrava de lágrimas e medos...
Figurava no espaço a feia Morte,
Como pintada a negro, numa tela,
De infinita e brumosa irrealidade...
Envolta numa túnica de sombra,
Segurava na mão, só feita de ossos,
A Fouce reluzente que ao luar,
Tão fria; cintilava! Nos seus olhos,
Dois profundos buracos tenebrosos,
As funéreas corujas, os morcegos,
As estrelas, as árvores, as nuvens,
Iam ver a sua imagem reflectida.
E as aves agoireiras esvoaçavam
De encontro àquelas órbitas vazias
Como fontes de pedra que secaram.
E a Morte cavalgava, a largo trote,
Por um longo caminho esbranquiçado,
No arrepio da noite e do mistério...
Um frio, agreste e fino, magoava
As árvores, fazendo flutuar
A túnica da Morte que vestia
Seu corpo ressequido e as largas ancas
Do seu cavalo, cuja sombra inquieta
E nervosa manchava a estrada clara.
E atravessava agora um indeciso
Planalto, em formas tristes, emergindo
Da cerração gemente dos pinhais.
Nesta altitude, o vento, embrandecendo,
Era um suspiro de alma... E a lua, aprumo,
Fulgia sobre a Morte, que alongava
Os olhos pelos montes solitários,
Mais delidos no céu, mais afastados,
Duma matéria feita de quimera...
E vinham, na asa múrmura da aragem,
Palmas, gritos, risadas de cristal,
Rasgando 'agudas fendas no silêncio.
Eram bruxas malditas, pobres ninfas,
Amantes do Dem6nio, o velho Pã...
Amam a escuridade e os sítios maus,
Esses bocos profundos e cismáticos,
Os silveirais espessos e águas lívidas
Onde as cousas nocturnas se reflectem,
Desmaterializadas, reduzidas
Ao seu simples e anímico esqueleto...
E outras bruxas, em bandos luarentos,
Passavam no ar, fantásticas, dançando
Com alados demónios coruscantes...
E o Medo, avô de espectros e de deuses,
Condensava o luar em frias lágrimas,
Marmorizava os fluidos longes vagos...
As figuras da Noite, as criaturas
Do nosso pensamento, despertavam
Mal ouviam trotar a Morte... E a lâmina
Da sua Fouce ia, em curva, pelo céu,
De horizonte a horizonte; e a sua túnica
Parecia manchar toda a paisagem...
(…)
Obras Completas de Teixeira de Pascoaes. Livraria Bertrand.