
Por Fernando Buen Abad
Não há escapatória "digna". Não deveria haver. Qualquer atalho retórico que busque amenizar o horror do genocídio é cumplicidade ativa. Não há linguagem inocente quando se fala em crimes de extermínio, nem há espaço filosófico "neutro" quando o horror é perpetrado abertamente com o apoio midiático, financeiro e diplomático de impérios. Denunciar o genocídio não é uma "opção" moral filantrópica: é um imperativo político e semiótico. É um dever histórico de todo pensamento que se autodenomina humanista.
Hoje, Gaza. Palestina. Mais uma vez. Mas também, mais do que nunca. Hoje, a semiose — o processo pelo qual produzimos significado — foi sequestrada, colonizada e cúmplice do extermínio quando o poder hegemônico decide que certos povos, culturas ou memórias devem ser apagados do mapa. Contra isso se ergue nossa filosofia da semiose, que exige uma práxis simbólica militante para combater o genocídio não apenas com armas legais, mas com signos que reconstruam a humanidade no contexto do desastre civilizacional perpetrado pelo genocídio contra o povo palestino e todas as outras orgias de guerra do capitalismo que comercializam a morte.
Definição internacional “legal” (Artigo II): Convenção para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio (1948) – ONU “Genocídio significa qualquer um dos seguintes atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso como tal: a) Matar membros do grupo; b) Lesões corporais ou mentais graves aos membros do grupo; c) Infligir intencionalmente ao grupo condições de vida que possam causar sua destruição física, no todo ou em parte; d) Medidas destinadas a impedir nascimentos dentro do grupo; e) Transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo.” Esta definição é a base legal usada por tribunais internacionais como o Tribunal Penal Internacional para Ruanda e o Tribunal Penal Internacional (TPI).
No Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (1998), o Artigo 6 reafirma essencialmente a definição da Convenção da ONU de 1948: Genocídio inclui atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Todo genocídio é também um crime semiótico. Não basta que eles simplesmente assassinem corpos; eles pretendem assassinar suas histórias, suas línguas, seus deuses, sua música, suas danças, suas palavras.
O colonialismo compreendeu isso desde cedo. É por isso que seus massacres são sempre acompanhados por catecismos, bandeiras, livros didáticos, séries de televisão e algoritmos que reescrevem a história. Mas onde tentam apagar a memória, renasce a semiose rebelde: o grafite de bairro, a canção indígena, a língua que sobrevive em sussurros. Cada sinal que resiste ao esquecimento é um ato de justiça.
É por isso que um humanismo não domesticado, uma semiose insurgente, é urgentemente necessário. Mas o humanismo de que precisamos não é o de livros empoeirados que choram por uma humanidade abstrata, mas um que escava fundo nas trincheiras da história concreta. Um humanismo do povo, do bairro, de mães que clamam por seus filhos desaparecidos, de comunidades que reivindicam sua língua como alguém que levanta uma bandeira. Uma semiose humanista deve ser subversiva, revolucionária, porque se opõe ao signo único do capital, que transforma tudo em mercadoria — até mesmo a vida. Dizemos: chega de signos a serviço do extermínio. Queremos signos que acolham, que curem, que denunciem, que gritem.
Seus genocídios não são acidentes. São semióticas macabras planejadas, desenhadas por ministérios, por laboratórios ideológicos, por think tanks de ódio. O ódio não age sozinho: semeia-se com palavras, com noticiários, com eufemismos. “Danos colaterais”, “pacificação”, “conflito”, “guerra preventiva”, “sacrifício necessário”. Cada uma dessas palavras é um míssil semiótico. Diante disso, é urgente uma semiose humanista da verdade, que chame as coisas pelo nome, que desmascare a propaganda do extermínio e recupere a voz das vítimas como sujeitos históricos, não como números de um relatório. E não há verborragia “legalista”, nem filantropia constitucionalista, nem trincheiras de legalidade oligárquica que possam medir a necessária sanção e a reparação obrigatória dos danos causados pelas fúrias genocidas burguesas.
Não há semiose neutra em tempos de genocídio. Ou se está do lado do exterminador ou se está do lado das vítimas. E estar do lado de quem sofre implica produzir sinais de memória, sinais de justiça, sinais de unidade entre os povos que foram alvos da barbárie capitalista, neoliberal, colonial, racista, patriarcal. Esses sinais são nossas armas simbólicas, nossas pontes entre gerações, nossa forma de resistir à morte organizada. Genocídios não devem ser estudados a partir de uma confortável torre de marfim legalista. Devem ser combatidos de baixo, com cada mural, cada palavra livre, cada criança que aprende sua língua ancestral, cada arquivo recuperado, cada mãe que não se cansa de buscar.
Eles não nos enganam:a luta contra o genocídio não é apenas uma questão de juízes e tribunais. É obra de povos que não querem o extermínio. É obra de educadores, artistas, comunicadores, filósofos, trabalhadores, camponeses e estudantes. Cada um com suas ferramentas, seus signos, suas memórias, mas de forma organizada. Se o genocídio é a negação absoluta do outro, nossa resposta é a afirmação radical de todos, em sua diversidade, de pé e em pé de igualdade. Em cada signo que diz "presente", em cada história resgatada, em cada abraço, vive uma semiose humanista que diz: a vida não se rende.
Nossa espécie humana é atravessada pela história monstruosa dos dispositivos de dominação que articularam o poder de classe desde suas formas mais primitivas até suas expressões contemporâneas. É uma história de aniquilação, que se torna ainda mais amarga quando um povo é assassinado, e não apenas seus corpos são destruídos. Suas línguas, seus símbolos, seus mitos, suas memórias também são destruídos. Seu direito à autonarrativa é destruído. Portanto, todo genocídio é também um crime semiótico. E não é por acidente, mas por desígnio.
O planejamento do extermínio também requer o planejamento de sua justificativa simbólica: o outro é criminalizado, desumanizado, e constroem-se discursos legitimadores que transformam a vítima em ameaça. A propaganda genocida é tão antiga quanto o colonialismo e tão moderna quanto o algoritmo. Cúmplices dessa imundície estão muitos meios de comunicação de massa, muitos livros didáticos, boa parte das "redes sociais", relatórios oficiais e a demagogia: colaboram para o genocídio semiótico. É lá que se decidem quais vidas são valiosas, quais importam, quais são dispensáveis. O genocídio exacerba a disputa por sentido, que é uma disputa por poder.
O poder de inventar e exterminar o "inimigo", de renomear os desaparecidos, de apagar evidências. O poder de construir uma história sem os vencidos. No campo de batalha semiótico, nossa luta não pode ser meramente uma estrutura para análise teórica; deve ser uma estratégia de combate: ressemantizar, ressignificar, descolonizar a linguagem. Tornar transparentes as narrativas de genocídio para melhor combatê-las com os signos revolucionários da memória coletiva transformadora.
Isso implica consolidar a semiótica não como uma disciplina técnica nem como uma especulação abstrata, mas como um campo de luta . Cada palavra escolhida, cada imagem reproduzida, cada silêncio midiático é uma escolha política . Quem é nomeado? Quem é invisibilizado? O que fica por dizer? A semiótica humanista contra o genocídio deve ser, antes de tudo, uma ética do signo. Radicalmente oposta à banalização, à estetização vazia do espetáculo do sofrimento que transforma a tragédia em mercadoria. Diante do genocídio, não há neutralidade possível. E a tarefa, então, é múltipla: recuperar signos perdidos, proteger signos ameaçados, produzir novos signos para a vida. Este não é apenas o trabalho de intelectuais ou artistas: é um ativismo cotidiano.
Não há genocídio sem uma narrativa que o sustente. E essa narrativa se estabelece pela repetição, pela normalização, pela hegemonia. Ela é moldada pelo senso comum. Portanto, não basta denunciar os crimes: é preciso desmantelar os discursos que os tornam possíveis. A semiose humanista não é apenas um ato de denúncia, mas uma proposta de sentido. Não se trata apenas de dizer "não ao genocídio", mas de construir uma narrativa do "nós", uma memória viva que transcende os marcos institucionais. Da América Latina, onde povos enfrentaram séculos de extermínio físico e simbólico, essa semiose assume uma forma concreta: a memória como arma, a palavra como trincheira, a imagem como punho erguido. Diante da narrativa oficial que reduz o genocídio a números, datas ou tecnicismos jurídicos, a semiose humanista defende uma narrativa corporificada, insurgente e combativa.
Na base econômica do genocídio reside uma raiz material. Não há extermínio em massa que não responda, em última análise, a uma lógica de acumulação econômica e controle territorial. Por trás de cada massacre, por trás de cada política de extermínio, há uma luta por recursos, por mão de obra, por mercados, pela disciplina de populações inteiras. O genocídio não é meramente uma expressão de ódio: é um ato planejado pela economia política do capital. Do colonialismo ao neoliberalismo, a história está repleta de casos em que a destruição de povos foi uma ferramenta para consolidar o poder econômico das elites. O genocídio não é uma "irracionalidade"; é uma estratégia de classe, necessária para o desenvolvimento do sistema capitalista em sua forma mais predatória. O extermínio do povo Mapuche na Argentina, o genocídio indígena na Guatemala, o Holocausto como parte da engenharia nazista do espaço vital, ou a limpeza étnica de povos africanos em benefício das corporações mineradoras: todos esses são capítulos do mesmo processo de desapropriação sistemática.
Na fase atual do capitalismo, o genocídio assume novas formas. Não é mais apenas extermínio físico, mas também genocídio cultural e midiático. Pessoas não são mortas apenas com balas; elas também são mortas com pobreza planejada, com alienação, com a privação de significado. Uma língua, uma história, uma identidade são exterminadas. A palavra "vida" é esvaziada de significado para preenchê-la com mercadorias. O mercado impõe uma semiótica totalitária: quem é humano e quem não é, quem merece viver, quem é descartável. Essa classificação tem uma função econômica: o capital precisa decidir quais corpos são úteis e quais são descartáveis. Os pobres do sul global, as comunidades indígenas, as classes trabalhadoras, são descartáveis quando deixam de ser funcionais à lógica do capital. E é aí que o genocídio entra como a solução final.
Não lhes basta assassinar: é preciso narrar o crime como "defesa", "limpeza", "guerra", "pacificação". Os conceitos de dignidade, justiça e vida devem ser esvaziados de conteúdo. A luta, portanto, não é apenas armada ou legal: é também uma luta semiótica pela hegemonia cultural. Sem anticapitalismo, não há antigenocídio. Denunciar o genocídio sem apontar sua base econômica é cair em uma ética abstrata, inofensiva, moralista. Um humanismo sem materialism é um humanismo impotente. Se quisermos combater o genocídio, devemos atacar sua raiz: o sistema econômico que o produz, o requer e o reproduz. A semiose humanista marxista propõe uma articulação: desmantelar os dispositivos ideológicos que normalizam o extermínio e construir uma consciência de classe que o enfrente de baixo, a partir do "nós".
Não há como escondê-lo com sinônimos tecnocráticos. O que Israel está perpetrando na Palestina — particularmente em Gaza — é um genocídio no século XXI. Atende a todos os critérios estabelecidos pelo direito internacional e os intensifica com uma crueldade sistemática que lembra, e até supera em sua brutalidade comunicacional, os piores momentos do nazismo.
Genocídio não é apenas matar. É planejar, organizar, legalizar e naturalizar a eliminação sistemática de um povo, de sua memória, de sua cultura, de sua língua, de sua infância. É aniquilar a humanidade dos outros como forma de blindar o privilégio colonial. É também usar a linguagem, a mídia, a academia e a diplomacia para justificar ou encobrir crimes. Que filosofia pode se autodenominar "humanista" se permanece em silêncio diante do massacre de milhares de crianças? Que ética pode sobreviver se permanece em silêncio diante de bombas lançadas sobre hospitais, escolas, campos de refugiados? Que discurso ainda pode se dar ao luxo da nuance quando a destruição é total? Todo genocídio é também uma guerra semiótica. Não basta exterminar fisicamente um povo: ele deve ser simbolicamente apagado. Transformá-lo em uma "ameaça". Animalizá-lo. Demonizá-lo. Negar-lhe a história. Pintá-lo com as cores do terrorismo. Isolado, mutilado, negado. Não apenas matar corpos: matar significados.
É assim que funcionam as fábricas ideológicas do sionismo colonial . É assim que funcionam a CNN, a BBC, o El País e a Fox News. É assim que se constrói cotidianamente a ficção de uma "guerra simétrica", onde se esconde que um lado possui armas nucleares, apoio da OTAN, satélites, drones, bancos e controle das principais redes de notícias, enquanto o outro tem rochas, túneis e um grito desesperado: "somos humanos". E, no entanto, cada bomba é precedida por uma justificativa. Cada massacre, por um infográfico. Cada cratera, por uma narrativa. Essa é a semiótica do genocídio: naturalizar o extermínio com discursos de segurança, autodefesa, progresso e democracia. É a forma mais sofisticada de fascismo: aquela que se anuncia em nome da civilização.
Durante séculos, fomos ensinados a uma filosofia que manipula valores para evitar enfrentar o crime estrutural. Kant pode falar de dignidade humana enquanto permanece em silêncio sobre o colonialismo. Habermas pode defender o discurso racional enquanto relativiza o terrorismo de Estado. Este humanismo de manual — europeu, esclarecido, domesticado — é absolutamente incapaz de nomear o genocídio quando este é perpetrado por seus aliados. Fomos treinados a duvidar. A "analisar" tudo a partir da suposta objetividade da academia, como se a neutralidade fosse possível entre opressor e oprimido. Fomos ensinados a uma lógica de equilíbrio discursivo que, na prática, sempre acaba pendendo para o império. Onde estão os filósofos quando crianças morrem sufocadas em hospitais sem eletricidade? Onde está a ética quando todo o sistema universitário em Gaza é destruído ? Onde está a hermenêutica quando 75 anos de memória palestina são apagados a cada míssil?
Um pensamento verdadeiramente humanista deve ser militante em relação à dor alheia. Deve ser radical. Não radical porque seja violento, mas porque vai à raiz: denunciar o colonialismo, o capitalismo, o imperialismo e o sionismo como forças genocidas e sistêmicas, não como desvios isolados. Qualquer forma de eufemismo é traição. Chamar uma ocupação de "conflito". Chamar um massacre de "resposta militar". Chamar o genocídio de "dano colateral". Isso não é jornalismo nem filosofia: é covardia institucionalizada. A tarefa não é apenas denunciar. É também construir. Toda filosofia verdadeiramente humanista hoje deve ser uma filosofia de resistência popular, do direito à vida, à terra, ao retorno, à autodeterminação.
E qualquer semiótica comprometida deve assumir que a linguagem é um campo de batalha. Que cada palavra é uma trincheira. Que cada conceito, cada metáfora, pode ser um instrumento de libertação ou dominação. Portanto, é urgente: hoje, o campo de batalha não são apenas as ruas devastadas de Rafah ou os campos de refugiados. Está também nas salas de aula, nas redes sociais, nas mentes de milhões. Genocídio não é apenas um ato militar: é um ato filosófico, político e simbólico.
Não podemos nos dar ao luxo de mais silêncio. Cada palavra que não dizemos é uma bala de aprovação. Cada conceito ambíguo é uma trincheira abandonada. É por isso que dizemos: não há escapatória discursiva. Qualquer humanismo que não condene inequivocamente o genocídio em Gaza é falso. Qualquer linguagem que não nomeie o criminoso faz parte do crime. Qualquer semiótica que não se envolva com a vida é cúmplice da morte. A Palestina não está sozinha. E não seremos cúmplices.
O humanismo deve questionar as brechas discursivas — aquelas formulações retóricas, jurídicas ou burocráticas que permitem naturalizar ou encobrir crimes atrozes, transformando vítimas em números e a violência em operações "necessárias". Não basta invocar os direitos humanos: é crucial ancorar essa invocação na realidade, situá-la em lutas concretas e conectá-la à organização e mobilização social. De nada adianta denunciar o que se condena no nazismo se não se confronta a raiz do poder que o torna possível — o capitalismo em crise, segundo sua interpretação. Ou seja: na frase de Brecht, ele evoca: "Qual o sentido de condenar o fascismo se não se combate o capitalismo que o origina?"