Tempos de Cólera

Sebastião Alba, O Poeta Sem-abrigo

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A Poesia foi, para mim, corso: de quando em vez, fazia abordagens. Claro que trago comigo, como qualquer pirata que se preza, o mapa desse tesouro, onde ninguém o encontrará: na pala do olho direito – com o esquerdo, vi sempre melhor.


Dinis Albano Carneiro Gonçalves (Sebastião Alba)


Braga, 11 de Março de 1940 – Braga, 14 de Outubro de 2000


A 14 de Outubro (e poucos dias depois de ter revisto as primeiras provas desta antologia – Uma Pedra ao Lado da Evidência) morre, vítima de atropelamento (por condutor que se pôs em fuga): permanece sem identificar na morgue do Hospital de São Marcos durante três dias; vai enterrar em Torre de Dona Chama (Trás-os-Montes), pedido há muito dirigido à filha mais nova; a 7 de Outubro, deixa ao antologiador o seguinte bilhete: “Se um dia encontrarem morto ‘o teu irmão Dinis’, o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá.” (Selecção, apresentação e notas de Vergílio Alberto Vieira)


[os poetas]


Com as polidas cintilações


das ondas eles enredam o mar


e aspam de brancura o voo das gaivotas


 


Sua íntima atitude


é a das estátuas por fora


como elas amam sem noções que lhe doam


 


O céu foi o seu fundo das pupilas


orto da Estrela da Manhã


Mas volvidos são das paisagens rumorosas


onde nem o corpo do vento se suprime.


[a Guerrilheira]


Eis a ocasião em forma de mulher
com a ponte do lábio galgando
a voz Seus cabelos ondulam
por dentro das estrofes

Na mesma noite dividida ao meio
como se um lado reflectisse no outro
a sombra que na folha me adelgaça os dedos
verte ainda alguns versos e pára


                                                            Para quê


Pergunta a sucessão dos meus perfis iluminados


pelo volteio das luzes contrárias


E desatam-se das luzes os seus reflexos


a noite desdobar-se em metades imperfeitas


 


*


Ninguém meu amor


Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.


O Ritmo do Presságio


* 


Na sua primordial inocência
a poesia deixar-me-á da ternura
só o que é defensável

e à margem do papel em que escrevi
as cidades e os campos
através dos quais me acenou

apartará do meu paladar
o sabor do sagrado
com que ainda a nomeie

já não buscarei nos ensaios que cerco lhe moviam!
e nos ideais por que alheada
roçagou


que da janela eu não deslinde
de um cão em paz
a visagem ancestral
e a minha emoção seja enfim sedentária

e recém-chegada a noite finde
sem dar acordo de si.


*


[Lendo Álvaro de Campos]


A lua dissolve no azul o pigmento de estrelas

Se há em mim alguma correlação
entre as qualidades e os defeitos
não a acho Se há que se anulem
que é como quem diz: que se lixe

Mas a poesia ainda vive

esquimó das minhas esperas árcticas

alvo da curiosidade à minha volta
                                                              dêem-lhe na giba

Oh Álvaro
na concha da minha paciência oceânica.

(“Sebastião Alba, Uma Pedra ao Lado da Evidência”. Campo das Letras, 2000)

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