
Eis a ocasião em forma de mulher
com a ponte do lábio galgando
a voz Seus cabelos ondulam
por dentro das estrofes
Na mesma noite dividida ao meio
como se um lado reflectisse no outro
a sombra que na folha me adelgaça os dedos
verte ainda alguns versos e pára
Para quê
Pergunta a sucessão dos meus perfis iluminados
pelo volteio das luzes contrárias
E desatam-se das luzes os seus reflexos
a noite desdobar-se em metades imperfeitas
*
Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.
*
Na sua primordial inocência
a poesia deixar-me-á da ternura
só o que é defensável
e à margem do papel em que escrevi
as cidades e os campos
através dos quais me acenou
apartará do meu paladar
o sabor do sagrado
com que ainda a nomeie
já não buscarei nos ensaios que cerco lhe moviam!
e nos ideais por que alheada
roçagou
que da janela eu não deslinde
de um cão em paz
a visagem ancestral
e a minha emoção seja enfim sedentária
e recém-chegada a noite finde
sem dar acordo de si.
*
[Lendo Álvaro de Campos]
A lua dissolve no azul o pigmento de estrelas
Se há em mim alguma correlação
entre as qualidades e os defeitos
não a acho Se há que se anulem
que é como quem diz: que se lixe
Mas a poesia ainda vive
esquimó das minhas esperas árcticas
alvo da curiosidade à minha volta
dêem-lhe na giba
Oh Álvaro
na concha da minha paciência oceânica.
Sebastião Alba, Uma Pedra ao Lado da Evidência.
Campo das Letras, 2000