Tempos de Cólera

Sebastião Alba: A Guerrilheira

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Eis a ocasião em forma de mulher
com a ponte do lábio galgando
a voz Seus cabelos ondulam
por dentro das estrofes

Na mesma noite dividida ao meio
como se um lado reflectisse no outro
a sombra que na folha me adelgaça os dedos
verte ainda alguns versos e pára


                                                            Para quê


Pergunta a sucessão dos meus perfis iluminados


pelo volteio das luzes contrárias


E desatam-se das luzes os seus reflexos


a noite desdobar-se em metades imperfeitas


 


*


 


Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.


 


*


 


Na sua primordial inocência
a poesia deixar-me-á da ternura
só o que é defensável

e à margem do papel em que escrevi
as cidades e os campos
através dos quais me acenou

apartará do meu paladar
o sabor do sagrado
com que ainda a nomeie

já não buscarei nos ensaios que cerco lhe moviam!
e nos ideais por que alheada
roçagou


que da janela eu não deslinde
de um cão em paz
a visagem ancestral
e a minha emoção seja enfim sedentária

e recém-chegada a noite finde
sem dar acordo de si.


 


*


 


[Lendo Álvaro de Campos]


A lua dissolve no azul o pigmento de estrelas

Se há em mim alguma correlação
entre as qualidades e os defeitos
não a acho Se há que se anulem
que é como quem diz: que se lixe

Mas a poesia ainda vive

esquimó das minhas esperas árcticas

alvo da curiosidade à minha volta
                                                              dêem-lhe na giba

Oh Álvaro
na concha da minha paciência oceânica.

Sebastião Alba, Uma Pedra ao Lado da Evidência.
Campo das Letras, 2000

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