Tempos de Cólera

Ruben A. – 100 anos

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Ruben A.  (26 de Maio de 1920 – 23 de Setembro de 1975)


“Foi das pessoas mais originais que conheci na vida”, disse Eduardo Lourenço sobre Ruben A. “Chamou-me ao Hotel Astória, em Coimbra, e fui encontrar o meu futuro amigo, que me recebeu como um príncipe no seu quarto, fazendo a toilette como Luís XIV, diante do seu amigo provinciano que acabara de conhecer da maneira mais divertida possível”.


Diria que esta postura de Ruben era, de muitos modos, uma teimosa resposta à vida das trivialidades míopes e das jogadas de similitudes efémeras. Era um modo de convivência cultural, generoso e aberto à sã e criativa interpretação.


Escritor e ensaísta, sob o pseudónimo Ruben A., Ruben Alfredo Andresen Leitão nasceu em Lisboa em 1920. A sua infância foi vivida no Porto e partilhada com sua prima Sophia de Mello Breyner Andresen, na Quinta do Campo Alegre. Considerado um autor essencial para a literatura do século XX português, não fora ele e a sua viagem, e todos seríamos mais sós.


Convive com Agostinho da Silva, seu professor que admirou pela invulgar capacidade intelectual. Foi Leitor e professor no King’s College de Londres. Em Portugal foi muito publicamente criticado pelo regime de Salazar. O silêncio sobre a sua obra abateu-se num significante peso, mas edita obras memoráveis como “Caranguejo” (1954), narrativamente escrito de trás para a frente e sem numeração de página, “Cartas de D. Pedro V aos seus Contemporâneos”, “A Torre da Barbela” (prémio Ricardo Malheiros), ou a autobiografia “O Mundo à Minha Procura”. Privou com o escultor Henry Moore e o escritor T.S. Eliot, entre outros. Era admirador de Henry Miller. Foi também autor de vários verbetes no Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão.


Diria que no termos de viver também aquilo que fomos, levou Ruben A. a escrever no texto introdutório à sua autobiografia «O Mundo à Minha Procura I»:


«Voltar ao Campo Alegre foi para mim qualquer coisa de enorme na vida, mais importante do que ir à Lua, ou andar em órbita à volta da Terra», evocando assim os tempos de infância na companhia da sua prima Sophia de Mello Breyner Andresen. Este sentir de forte afeto e os detalhes da paisagem que o envolveram, irão marcar para sempre o seu imaginário na escrita.


Para nós em Ruben, a verdade é que tudo pode ser ao mesmo tempo tanto e tão pouco, vertido nas escolhas que fazemos, e, estas suscetíveis de uma crítica irónica, salutar, corajosa e arguta ao modo de estar do que nos rodeia, e envoltos nós num sério com sorriso, encontraremos a tão recôndita sabedoria interior e o relevo do meio em nós. Esta uma das características da palavra de Ruben A.


 


Cremos também que a ditadura do antigo regime há de ter tido uma influência no angulo de leitura da escrita de Ruben A., ao não deixar que surgisse claro, o quanto escritores como ele são, acima de tudo, um modo coletivo de pensarmos e de vivermos a liberdade. As falsas acalmias nunca promoveram ou promoverão a capacidade de resposta viva ao que naturalmente se levantou em Ruben A.


Nos anos 50, Óscar Lopes, júri de um concurso literário, recusara o romance “A Torre de Barbela”, que considerava um embuste, e publicou um artigo negando-lhe qualquer qualidade literária. Mais tarde reconhecera o erro. Todavia Ruben ficou acantonado e esquecido, e esta realidade carece de esclarecimento.


Julgamos poder afirmar que Ruben conhece a existência através do ato da escrita e da arquitetura que lhe deu através da sua vida, da sua quantidade e qualidade de energia, daquela mesma que foi capaz de tirar do subsolo da alma.


A pandemia alterou os planos da festa dos 100 anos de Ruben A, a 26 de Maio passado. Contudo há que estar atento à mudança de datas, já que:


Na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, realizar-se-á o colóquio O Incrível Ruben A., numa organização da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a participação de autores, investigadores e professores como Clara Rocha, Dália Dias, Fernando Pinto do Amaral, Gustavo Rubim, Joana Matos Frias, Joana Meirim, Pedro Mexia e Sílvia Chicó. A comissão das celebrações do centenário é constituída entre outros pelos professores António Feijó, Miguel Tamen e Sílvia Chicó, da Universidade de Lisboa, e Clara Rocha, da Universidade Nova de Lisboa. A exposição O Incrível Ruben A. - 100 anos do escritor, na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, realizar-se-á em 2021, em datas a confirmar. No próximo ano, o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, também dedicará um dia ao escritor, iniciativa em colaboração com o Centro Nacional de Cultura.


Retirado de https://e-cultura.blogs.sapo.pt/o-mundo-a-procurar-te-incrivel-ruben-a-893282


KAOS


Ruben A.


Diziam que os republicanos comiam crianças vivas com menos de quatro anos de idade e capavam as que fossem encontradas em passeios nos jardins do subúrbio. Afirmavam que quer todos os católicos seriam obrigados a rapar o cabelo à escovinha, e de joelhos cantarem o hino da Portuguesa, boatavam que os antigos funcionários públicos seriam despidos das suas funções numa acção total de depuramento e alimpamento pois altamente comprometidos com os talassas não podiam servir os ideais democráticos e pensar saudosamente no Rei exilado. Os pés-de-meia, de operários de burgueses e dos ricos seriam embrulhados pelos republicanos, em revistas a casas e andares, para com esse dinheiro pagarem os novos comícios e as vindas dos manifestantes da província a Lisboa para vitoriarem a revolução. Mais tardes as camionetas facilitaram muito estes movimentos, tanto aos salazaristas como aos comunistas, todos convocados para prestigiarem o povo e o operariado em manifestações espontâneas. Diziam que os republicanos iam baixar as rendas de casa e os bilhetes do eléctrico, diziam que os republicanos mais vermelhos desfloravam as virgens no Poço do Borratém e penduravam todos os bigodes às janelas da Estação do Rossio. A adesão ao medo pelas forças gerais dos citadinos era em massa. Tremia a cidade, borravam-se os nervosos e psicopatas, e nas trocas de olhares as cargas de futura electricidade iluminavam as colinas e penetravam na casa de Dona Umbelina em picada de luz. O Costa pouco ligava, o medo era apenas do Dino e do Gomes, os outros respondiam a tremer às suas invectivas. Medo de sons, da reabertura das cozinhas económicas por uma nova comissão administrativa que substitui as irmãs de caridade. Zémacho metia medo cada vez que saía à rua. Os rapazinhos republicanos tremelicavam -se, e os mais avançados, numa decisão verdadeiramente democrática expulsaram os padres da Companhia de Jesus. Era a terceira vez que saíam do país. Foram todos detidos em Caxias, medidos os crânios numa mensuração perfeita e numerados em chapa. Os filhos de Santo Inácio foram presos em suas casas. Terminava mais uma investida da Sociedade de Jesus sem que – era o medo – a associação de antigos alunos de Campolide, constituída por bispos, militares, doutores, altos burocratas, capitalistas e homens de estado – que em ágapes fraternais se reuniam, todos os anos no majestoso colégio – fossem à estação dar-lhes adeus. Era o medo. Medo borrado medo medo dos republicanos que tinham alguns jesuítas sob os ferros JHS JHS JHS. Todos ficavam devidamente identificados na cadeia. Na busca a que os sujeitaram, no apalpão de bolsos, na vigilância cerrada foram encontrados trinta e dois canivetes, vinte e quatro caixas de fósforos e duas fisgas altamente comprometedores. Os jornais atacaram todo este material bélicocom descrições minuciosas e fotográficas, chamando-lhes clandestinos, usurpadores, comunistas, intrusos, ladrões e para vingança e procura de heróis mortos pelos jesuítas, apenas a Sociedade Protectora dos Animais reclamou um gato, foi decidido erigir um grande monumento ao Marquês de Pombal pela coragem de ter sido o homem que abriu o caminho à República tendo expulso os jesuítas no século XVIII. Bandos de homens do povo, juntos a trabalhadores e operários, percorreram as ruas da baixa dando vivas ao Pombal e morras aos jesuítas.


(KAOS, Ruben A.. Assírio & Alvim, 2002)

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