Tempos de Cólera

REQUIEM PARA PIER PAOLO PASOLINI

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Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte insuportável.
Era novembro, devia fazer frio, mas tu
já nem o ar sentias, o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa; uma navalha, o rumor
de abril podem matá-lo – amanhece,
os primeiros autocarros já passaram,
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na
primeira
página, o sangue apodrece ou brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida,
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, excepto claro
os meritíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.

O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Salò, não se importariam de
assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa a nojenta farsa essa continua.


 


“Escrita da Terra e Outros Epitáfios”, Novembro 1975


 


ESCUTO O SILÊNCIO


 


Escuto o silêncio: em abril


os dias são


frágeis, impacientes e amargos;


os passos


miúdos dos teus dezasseis anos


perdem-se nas ruas, regressam


com restos de sol e chuva


nos sapatos,


invadem o meu domínio de areias


apagadas,


e tudo começa a ser ave


os lábios, e quer voar.


 


Um rumor cresce lentamente,


oh, lentamente


não cessa de crescer,


um rumor de pálpebras


ou pétalas


sobe de terraço em terraço,


descobre um dia


de cinzas com vestígios de beijos.


 


Um só rumor de sangue


jovem:


dezasseis luas altas,


selvagens, inocentes e a alegres,


ferozmente enternecidas;


dezasseis potros


brancos na colina sobre as águas.


 


Como um rios cresce, cresce um rumor;


quero eu dizer,


assim um corpo cresce, assim


as ameixoeiras bravas


do jardim,


assim as mãos,


tão cheias de alegria,


tão cheias de abandono.


 


Um rumor de sementes,


de cabelos


ou ervas acabadas de cortar,


um irreal amanhecer de galos


cresce contigo,


na minha noite de quatros muros,


no limiar da minha boca,


onde te demoras a dizer-me adeus.


 


Escuto um rumor: é só silêncio.


 


SETE ESPADAS PARA UMA MELANCOLIA


 


Um corpo


Para estender a náufragos – o teu corpo.


 


Um rasto de cadelas aluadas,


um charco de maçãs apodrecidas


ou longas cabeleiras apagadas.


 


Não dizias palavras, ou dizias


só aquelas onde o rosto se escondia.


 


Palavras onde o sangue não abria


a corola de fogo à madrugada.


 


O azul não canta, a água morre


na mais secreta boca do teu corpo.


 


Aqui não brilha a terra, a luz é fria,


aqui o horizonte não respira.


 


Não havia vento: só medo e cobardia.


 


“Ostinato Rigore”, 1977


 


Eugénio de Andrade


 


 


 

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