Tempos de Cólera

Rabindranath Tagore

images (3).jpg


PERGUNTA DE AMOR


E tudo isto é verdade,
Meu querido amigo?
Que a luz do relâmpago nos meus olhos
Faz as nuvens do teu coração explodirem e arderem,
É verdade?
Que os meus doces lábios são vermelhos como uma jovem
e ruborizada noiva,
Meu querido amigo,
É verdade?

Que uma árvore do paraíso floresce dentro de mim,
Que os meus passos soam como vinas debaixo de mim,
É verdade?
Que a noite derrama gotas de orvalho quando me vê,
Que a alvorada me rodeia com a luz das delícias,
É verdade?
Que o toque da minha face quente intoxica a brisa,
Meu querido amigo,
É verdade?

Que a luz do dia se esconde na escuridão do meu cabelo,
Que os meus braços abrigam a vida e a morte no seu poder,
É verdade?
Que a terra pode ser embrulhada na extremidade do meu sari,


Que a minha voz faz o mundo calar-se para me ouvir,


É verdade?


Que o universo é apenas eu e aquilo que me ama,


Meu querido amigo,


É verdade?


 


Que só por mim o teu amor tem estado à espera


Ao longo de mundos e eras, desperto e errante,


É verdade?


Que tu lês na minha suave fronte e infinita Verdade,


Meu querido amigo,


É verdade?


 


O PRIMEIRO BEIJO


O céu ficou silencioso e de olhos baixos,


Os pássaros calaram todos os seus cantos;


O vendo emudeceu; a música das águas acabou


De repente; o murmúrio da floresta


Morreu lentamente no coração da floresta.


Na margem deserta do rio tranquilo,


Nas sombras do anoitecer desceu silenciosamente


O horizonte sobre a terra muda.


Nesse momento no silencioso e solitário alpendre


Beijámo-nos pela primeira vez.


Nesse momento exacto, ao longe e perto


Repicaram os sinos e soaram os búzios


Nos templos dos deuses apelando ao culto.


Um estremecimento percorreu o infinito mundo das estrelas


E os nossos olhares encheram-se de lágrimas.


PRENDA
Ó meu amor, que prenda
Devo dar-te quando amanhecer?
Uma canção da manhã?
Mas a manhã não dura sempre –
O calor do sol
Murcha como uma flor
E as canções que cansam
Estão feitas.


Ó amigo, quando chegaste ao meu portão
Ao crepúsculo
Que perguntaste?
Que hei-de trazer-te?
Uma luz?
Um candedeeiro de um canto secreto da minha casa silenciosa?
Mas quererás levá-lo contigo
Pela estrada povoada?
Ah,
O vento há-de apagá-lo.


Sejam quais forem as prendas que te possa dar,
Que sejam flores,
Que sejam pérolas para o teu pescoço,
E como te podem agradar
Se com o tempo hão-de murchar,
Desfazer-se, perder o brilho?
Tudo o que as minhas mãos pudessem colocar nas tuas
Deslizará entre os dedos
E cairá esquecido no pó
Para em pó se tornar.


É melhor,
Quando estiveres ociosa,
Que deambules pelo meu jardim na primavera
E deixes um aroma de flor desconhecido e oculto sobressaltar-te com súbito encanto –
Deixar esse momento deslocado
Ser a minha prenda.
Ou se, quando perscrutares a sombria avenida por onde caminhas,
De repente, enfeitiçada
Pelas espessas tranças do anoitecer
Um simples e trémulo reflexo da luz do poente te detiver,
Transforma os teus sonhos em ouro,
E deixa que a luz seja uma inocente
Prenda.


O mais autêntico tesouro desaparece;
Brilha um instante, e depois vai-se.
Não diz o seu nome; a sua melodia
Barra-nos o caminho, a sua dança desaparece
Com o estremecimento de um tornozelo.
Não conheço outra maneira –
Nenhuma mão, nenhuma palavra o pode alcançar.
Amiga, leves o que levares,
Sozinha,
Sem perguntar, sem saber, deixa que
Seja tua.
Qualquer coisa que eu te possa dar é insignificante –
Seja uma flor, seja uma canção.


Rabindranath Tagore (1861-1941)


Poesia, Rabindranath Tagore. Assírio & Alvim, 2004

0