Tempos de Cólera

Poesia Palestiniana Contemporânea

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Refugiado


O sol passa as fronteiras


sem que os soldados


abram fogo sobre ele


De manhã o rouxinol canta


em Tulkarm


e à noite, janta e dorme


em paz


com os pássaros dos kibbutzim


Um burro perdido na linha de fogo


rói a erva


em paz


sem que os soldados disparem sobre ele


e para mim


teu filho refugiado, ó terra da minha pátria


entre os meus olhos e os seus horizontes


as muralhas das fronteiras


Salim Jabrane


 


Fundamentos


Coca-cola, Chase Manhattan, General Motors
Christian Dior, MacDonald, Shell,
Dynasty, Hilton lntemational, Sangam
Kentucky Fried Chicken, gás lacrimogéneo
matracas, polícia secreta
Ibn Khaldun disse:
estes são os fundamentos do Estado
entre os Árabes
Murid Al-Barghuti


*


O Impossível
Ser-vos-á mil vezes mais fácil
passar um elefante pelo fundo duma agulha,
pescar um peixe assado numa galáxia,
abrir sulcos no mar,
fazer falar um crocodilo,
ser-vos-á mil vezes mais fácil
do que, ao perseguir-nos, destruir
o fulgor da nossa ideia
ou afastar-nos um palmo do caminho que escolhemos.

Dir-se-ia que somos vinte prodígios
em Lidda, em Ramlah, na Galileia.
Aqui permaneceremos
sobre os vossos peitos como um muro,
nas vossas gargantas como um pedaço de vidro...
como o espinho dum cacto,
e nos vossos olhos como uma tempestade de fogo.

Aqui permaneceremos
como um muro sobre os vossos peitos,
esfregando os pratos dos vossos bares,
enchendo os copos dos senhores,
varrendo os tijolos das vossas lôbregas cozinhas
para arrancar dos vossos caninos azuis
uma fatia de pão para os nossos filhos.

Aqui permaneceremos
sobre os vossos peitos como um muro,
famintos, sedentos, desafiando-vos,
recitando poemas,
enchendo as ruas com a nossa cólera e o nosso
protesto,
enchendo as prisões com o nosso orgulho
e fazendo com que os nossos filhos engendrem sem
parar
gerações vingadoras.

Como se fôssemos vinte prodígios
em Lldda, em Ramlah, na Gahlela…

Aqui permaneceremos.

Ide e bebei o mar.

Vigiando a sombra da nossa figueira
e da nossa oliveira,
semeando as nossas ideias
como o fermento no pão.
Com o frio do gelo nos nossos nervos
e o inferno vermelho em nossos corações.
Se sedentos, esprememos a rocha para saciar a
nossa sede.
Se famintos, saciamos com poeira a nossa fome.
Mas não nos moveremos.
Não traímos o nosso sangue limpo.
Aqui temos um passado,
um presente
e um futuro.

Como se fôssemos vinte prodígios
em Lidda, em Ramlah, na Galileia.
Oh viva raiz nossa, afunda-te bem
e mergulha até ao fundo.
Melhor será ao opressor
tomar a fazer as contas
antes que o enredo se desfaça.
Toda a acção tem resposta.
Lede o que diz o Livro.

Como se fôssemos vinte prodígios.
Em Lidda, em Ramlah, na Galileia.
Tawfiq Zayyad


*


Bilhete de Identidade


Escreve
sou árabe
o número do meu bilhete de identidade é o
cinquenta mil
tenho oito filhos
e o nono chegará... depois do verão
Ficarás irritado?

Escreve
sou árabe
trabalho com os meus companheiros de infortúnio
numa pedreira
tenho oito filhos
para eles extraio da rocha
a carcaça do pão
a roupa e os cadernos
E não venho mendigar à tua porta
não me curvo
no átrio da tua casa
Ficarás irritado?

Escreve
sou árabe
Tenho um nome vulgar
sofro num país
que ferve de raiva
As minhas raízes...
fixadas antes do nascimento do tempo
antes da eclosão dos séculos
antes dos ciprestes e das oliveiras
antes da erva
da família do arado
e não dos senhores de Nujub
O meu avô, um camponês
sem árvore genealógica
Ensinou-me os movimentos do sol
antes da leitura
A minha casa
Tirania tão ruim;
uma cabana de guarda
feita de canas e ramos
Estás contente com a minha condição?
Tenho um nome vulgar

Escreve
sou árabe
cabelos... pretos
olhos... castanhos
sinais particulares
na cabeça um keffiah seguro por um cordel
A palma da minha mão, rugosa como a rocha
arranha a mão que aperta
o meu endereço:
sou duma aldeia perdida, sem defesa
e todos os seus homens estão no campo e na
pedreira...
Ficarás irritado?

Escreve
sou árabe
Tu espoliaste-me das vinhas dos meus antepassados
e da terra que cultivava
com todos os meus filhos
e só nos deixaste
a nós e aos nossos descendentes
este cascalho
o vosso governo
vai também apoderar-se dele
como dizem?

Então
escreve
ao alto da primeira página
Eu não odeio os meus semelhantes
e não ataco ninguém
Mas... se um dia me obrigarem a passar fome
comerei a carne do meu espoliador
Fica atento... fica atento
à minha fome
e à minha cólera!
Mahmud Darwich
*


Também Nós Amamos a Vida


Também nós amamos a vida quando podemos.
Dançamos entre dois mártires e no meio deles
erguemos um minarete de violetas ou uma
palmeira.

Também nós amamos a vida quando podemos.

Ao bicho-da-seda roubamos um fio para tecer o
nosso céu e estancar este êxodo.
Abrimos a porta do jardim para que o jasmim saia
para a rua como um dia bonito.

Também nós amamos a vida quando podemos.

Na morada que escolhemos, cultivamos plantas
vivazes e recolhemos os mortos.
Sopramos na flauta a cor da distância,
desenhamos um relincho no pó do caminho.
E escrevemos os nossos nomes, pedra a pedra. Tu,
ó raio, ilumina a nossa noite, ilumina-a um
pouco.
Também nós amamos a vida quando podemos.
Mahmud Darwich


(Poesia Palestina Contemporânea. Selecção e tradução de Alberto Martins. Edições ASA, 2004)

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