
Eugen Drewermann
O teólogo alemão proscrito Eugen Drewermann, médico e psicoterapeuta da escola freudiana, revela no seu célebre livro “Funcionários de Deus” as contradições de uma igreja que reprime a sexualidade e a liberdade do indivíduo, pela força da disciplina e do dogma; uma igreja que se alimenta da mentira, fundamentalmente ideológica, e cujos funcionários, padres e religiosas, são meros instrumentos, seres despersonalizados e sofredores, também eles sofrendo dos mesmos males do cidadão vulgar mas a uma maior escala, e como estes, experimentando a dúvida sexual, a homossexualidade, a masturbação, a pedofilia e… o aborto – fala a experiência clínica do psicoterapeuta.
Padres, casamento, aborto e masturbação
«Se aquele sacerdote de trinta e dois anos comunicasse no domingo de manhã aos seus paroquianos a sua decisão de se casar, e de tarde pudesse fazer as malas e ir embora, tudo teria acabado passadas vinte e quatro horas. Mas, enquanto houver a impressão (tal como deseja a Igreja) de que a heterossexualidade do pároco poderá ser "reversível", haverá sempre fiéis que julgam seu dever chamá-lo à razão; e sobretudo, atacarão a parte considerada mais fraca, ou seja, a mulher. Dirão que ela o terá seduzido de maneira indigna, astuciosa e desavergonhada; não se tomará em conta que, por razões de simples discrição, ela nem sequer se poderá defender, contando como os dois se conheceram. E se continuar sem dar provas de arrependimento, chamar-lhe-ão "concubina de padre", e por aí adiante; aos olhos de todos, será tida por uma mulher sem honra; deverá deixar de frequentar a igreja onde esse padre celebra a missa; seria mesmo dever do padre recusar-lhe a comunhão. E, se nada disto for suficiente, se os dois perseverarem no seu amor e ele abandonar demonstrativamente o seu ministério, a perseguição continuará. Os padres casados sentem-se muitas vezes sozinhos, abandonados por aqueles que haviam sido os seus melhores amigos; muitos notam mesmo uma certa alegria maligna por parte dos antigos confrades – não há nada que tanto lisonjeie a fortaleza do carácter próprio, como é a “fraqueza” dos outros.
O pior de tudo é a maneira como as angústias do superego, que continuam presentes, se vêm a conjugar com o sistema da punição social. Basta às vezes a silenciosa falta de contacto por parte dos amigos de outrora, ou o murmúrio dos colegas desiludidos, ou a aversão aberta daqueles que "já imaginavam isso há muito tempo", para subjectivamente se darem os mais violentos abalos, capazes de perturbar a longo prazo a recente relação amorosa. Há padres casados que, mesmo passados alguns anos, não se arriscam ainda a pôr os pés na sua antiga paróquia ou na sua cidade episcopal. Em oposição a todas as regras da razão humana, eles sentem-se ainda, de acordo com as regras da Igreja, como pessoas expulsas e desprezadas, marginais da comunidade católica.
Mas também isto não é suficiente para satisfazer o furor de castigo por parte da Igreja católica. É aqui que ela deixa cair o resto da máscara que encobre o seu fanatismo e o seu desprezo pelos homens. Partamos do princípio de que esse sacerdote de trinta e dois anos, apesar dos seus escrúpulos de consciência e de todas as ameaças de punição social, terá tido a coragem de não se deixar intimidar. Resta ainda um último trunfo, que a Igreja Católica jogará sem escrúpulo nem vergonha: a dependência económica. Intimidados por esse motivo, muitos são os sacerdotes que mantêm em segredo os seus amores. Segundo o primeiro parágrafo do cânone 1395 do Direito Canónico, "se um sacerdote viver maritalmente ou se persistir e der escândalo com qualquer outro pecado contra o sexto mandamento da Lei de Deus, deverá ser punido com suspensão, podendo seguir-se gradualmente outras sanções se, após admoestação, persistir no seu delito". Mas há que escutar a lei com "ouvidos de Roma": "se persistir e der escândalo". Quer dizer: não havendo escândalo, não haverá sanções! É precisamente esta situação que Ursula Goldmann-Posch apresenta, quando escreve: "Se um padre e uma mulher vivem ‘em concubinato' poderá isso ser uma coisa moralmente condenável, mas, do ponto de vista canónico, o assunto só é relevante ‘se a falta for comprovada'. Se os dois quiserem pôr fim ao lamentável estado do concubinato e, não podendo casar pela Igreja, acabarem por contrair casamento civil, isto é considerado um ‘acto público' com as consequências apontadas. Um professor de Teologia alemão, vivendo havia quinze anos com uma mulher, fala por experiência própria: 'Há bispos que aconselham o padre em questão a viver com a mulher. Ele, como bispo, tolera. Só no caso de casamento civil é que se verá obrigado a tomar medidas.' Trata-se pura e simplesmente de manter uma determinada disciplina. Desde o momento em que o sistema não seja posto em causa, podem admitir-se excepções em casos particulares. Muitas vezes tenho a impressão de que a Igreja é uma instituição que tem por fim manter o celibato e a ordem."' Sim, na verdade, a Igreja é obrigada hoje em dia a admitir muitas excepções.
É evidente que o interdito pode ser uma sobrecarga enorme para relações assim. Partamos do princípio que o padre em questão não utiliza o pretexto de não poder casar publicamente para poder continuar livre e poder acabar a "relação" quando muito bem entender; partamos do princípio que a confiança da mulher apaixonada por ele é suficientemente forte para poder manter perante a sua consciência e perante Deus essa "união sem casamento". Resta ainda a obrigação de manter segredo: não é possível, como fazem os outros, irem de mão dada pela rua, darem um beijo onde os vejam, ou trocarem em público olhares ou palavras de ternura. A mulher terá que renunciar a ser mãe, isto é, terá que viver com o medo constante perante a catástrofe de ficar grávida, ou tem que utilizar aquilo que a Igreja Católica severamente condena, que são os contraceptivos. O pior é quando, apesar de tudo, "isso" acaba por acontecer. Poucos serão os párocos que, definitivamente instalados numa bela residência paroquial, estarão dispostos a renunciar a tudo e a tomar o caminho do deserto. Evidentemente que não há estatísticas sobre a frequência do aborto no caso de relações com sacerdotes; mas, considerando a relativa inexperiência dos padres nesse ponto, e considerando a dependência das mulheres, que não quererão arruiná-los, e considerando ainda a enorme pressão das sanções eclesiásticas, e que os sacerdotes possuem um superego mais severo mas não são por isso pessoas melhores do que as outras, é de supor também o número de abortos não será menor.
Mas, pior que tudo isso, é ainda o cinismo insidioso, feito de falsidade e duplicidade. "Quem provocar um aborto é punido com a pena de excomunhão" (cânone 1398 do Direito Canónico). Quantos serão os sacerdotes excomungados? Confiando na misericórdia de Deus, que é maior do que o seu coração, e maior com toda a certeza do que a sua Igreja, eles são obrigados, dia após dia, a celebrar a missa e a administrar os sacramentos, e no princípio da Quaresma terão mesmo que ler a carta pastoral do seu bispo contra as ligações ilícitas dos jovens, contra ligações sexuais extraconjugais, contra os contraceptivos e contra o aborto – e não terão o direito de dizer como todas essas directivas e todos esses ensinamentos são ridículos e absurdos, quando confrontados com a vida real. Obrigados a representar uma Igreja em que deixaram de acreditar, a consolação de dizer que sempre valerá mais continuar na Igreja e ajudar os outros, em vez de sair dela e ficar só, é humanamente compreensível, mas não impede que se pergunte de que vale uma ajuda comprada e vendida pelo preço de tantas mentiras.
Apesar de tudo, antes a mentira e a duplicidade, do que renegar o amor! Antes mentir a uma Igreja que quer a mentira, do que atraiçoar quem, pelo seu amor e pela sua confiança, mereceu uma fidelidade sem reserva.
Quando Albine, a heroína de Zola, depois da frustrada tentativa de ir buscar o seu amigo à igreja, regressa à beleza outonal do "Paradou", o sacerdote luta sozinho até às fronteiras da loucura; nele vence finalmente a virtude, desaparecendo o desejo voluptuoso do amor. E agora, livre de qualquer sentimento, impelido apenas pelo desejo da penitência, vai ter com Albine, e ambos verificam que tudo morreu à sua volta. É em vão que Albine o conduz aos lugares do antigo amor, é em vão eles terem jurado um ao outro fidelidade eterna. "Se procuro o meu coração, já o não encontro; dei-o a Deus, e ele o tomou." O mais terrível de tudo isto é o facto de Serge o dizer com o orgulho de um santo vitorioso, sem saber o que diz. "'E a nossa vida juntos, e a nossa felicidade, e os nossos filhos?', pergunta Albine. Depois ele gritou: 'Não posso! Não posso!' Ela não disse mais nada. Abraçou-o loucamente. Os seus lábios comprimiram-se a este cadáver, tentando ressuscitá-lo para a vida. Depois de um longo silêncio disse-lhe, com desprezo e decisão: 'Vai!' Serge levantou-se a custo, pegou no breviário, e desapareceu."
Na República Federal da Alemanha, mais de duzentas mulheres organizaram uma liga contra o celibato eclesiástico. Exigem a abolição do celibato, incompatível com o Novo Testamento. O que nós precisamos na Igreja Católica não é de modificar este ou aquele parágrafo mas de uma mudança de todo o comportamento religioso, e de uma nova definição daquilo que se deve compreender por "ideal"; precisamos de descobrir uma forma mais integral de viver, de amar, de rezar, de dançar, de sonhar, de sofrer e de ser felizes – e encontrar a unidade daquilo que foi separado: criação e graça, Igreja e sociedade, eclesiástico e leigo, padre e homem, santidade e responsabilidade no mundo, alma e corpo, sensibilidade e intelecto, mulher e homem, natureza e cultura. Deus só se encontra onde a pessoa humana se reconciliou consigo mesma.»
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«Quanto ao tema da masturbação, a Sagrada Congregação da Fé fornece-nos o que a Teologia católica tem de mais recente na matéria: a masturbação é "um acto gravemente oposto à ordem", na medida em que o uso livremente consentido da sexualidade, fora das relações conjugais normais, e seja qual for o motivo, se opõe fundamentalmente à sua finalidade, uma vez que lhe falta a relação sexual exigida pela ordem moral. A Sagrada Congregação reconhece que determinados factores podem limitar a liberdade de um acto por si imoral, e eis que começa de novo o velho e desconcertante jogo entre o Céu e o Inferno: foi um acto livre, um pecado mortal, ou até que ponto não chegou a ser inteiramente livre, sendo portanto um pecado venial …?
Mas entretanto já não se fica por aqui. Muitos deles, de acordo com a concepção moral burguesa, julgam preferível cair-se na masturbação, em vez de, como muitos confrades, se ter uma ligação ilegal com uma mulher. Na linguagem grosseira do Irmão Archangias, Émile Zola exprimiu assim há cem anos esta posição: "É melhor um homem treinar-se de costas, do que tomar por colchão a pele das mulheres. Durante uns momentos a gente é um animal, esfrega-se, e desfaz-se da porcaria. Faz bem. Nessas alturas eu imagino que sou o cão de Deus, e que todo o paraíso se põe às janelas a rir de mim." O grande perigo desta posição é o seu cinismo e o desprezo ilimitado perante a própria pessoa. E a isto acresce ainda, não raras vezes, o problema da desmedida.
Se a masturbação é já por si um acto extremamente carregado de desvairamentos, há ainda toda uma indústria pornográfica que vem em ajuda da imaginação. E torna-se então quase verdade a maligna suposição de que a maior impureza moral se encontra precisamente naqueles que, sob a capa da pureza, pretendem ser os representantes do mais alto nível de moral idade. "Jazigos caiados", teria dito Jesus do seu estado de alma (Mt 23, 27); mas esta situação não é culpa do indivíduo, senão do sistema impenitente que é a Igreja Católica.
"Tenho vergonha de o confessar", dizia-me há pouco um sacerdote, "mas cada vez sinto mais que a luxúria não está ligada a uma fraqueza da carne, mas que provém de uma atitude espiritual. É a minha cabeça que me força a andar atrás de ocasiões propícias para me excitar sexualmente. É como se obedecesse a um comando superior." É assim, pouco mais ou menos, que se queixam aqueles a quem foi proibido travar conhecimento do amor, e que acabaram por descobrir que lhes foram envenenadas as fontes da vida. Perderam a força de querer apaixonadamente qualquer coisa, de amar e desejar. Não são mais que cinza fumegante, vítimas de um sistema que gera a morte em nome da vida.
Mas a Igreja quer que tudo assim continue. Há tempos contava-me um sacerdote que, sem esperança de conseguir levar à frente o seu processo de laicização, acabara por resolver casar, e se fora despedir do seu bispo. "Lembre-se de que vive em pecado mortal", comentava Sua Eminência, ao fim de vinte anos de sacerdócio. "Mas o que eu queria era fugir ao pecado", respondeu ele, na esperança de poder ter, pela primeira vez na vida, uma conversação pastoral com o seu chefe espiritual. E acrescentou corajoso: “Penso que será melhor amar uma mulher, do que masturbar-me." "Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra", respondeu o bispo. "Olhei-o de frente, e gostava de lhe ter dito: também o fazes." Infelizmente, na Igreja Católica, o que é verdadeiro e importante fica sempre por dizer. Vale mais uma vida na masturbação, do que seduzir uma mulher, ou pior ainda, deixar-se seduzir por ela.»
“Funcionários de Deus” de Eugen Drewermann, edição da Editorial Inquérito, Lisboa, 1994)