Tempos de Cólera

Os Bons Velhos Tempos da Prostituição em Portugal

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(Onde a História propriamente dita dá lugar a uma miscelânea jornalística de actualidades físico-psico-sociológicas em redor das prostitutas vigentes no século do autor)


Os conselhos que se têm oferecido como profilácticos têm sido sempre em relação a três tempos: antes, depois e no momento do acto venéreo. Os mais úteis são:


Antes do coito, examinar bem as partes, que devem conservar toda a sua integridade sem alteração sensível de continuidade, cor e excreções. Portanto, toda a ferida ou arranhadura de fundo pardo, cinzento ou sujo é suspeita; toda a excrescência branca ou vermelha em supuração induz virulência; uma purgação vaginal lactescente ou amarelada, espessa e baça, não merece confiança, e é sempre de má natureza a que correr pela uretra; a fluxão menstrual deve ser respeitada, e neste estado particular a mulher deve abster-se. Um tumor duro e sensível, de forma alongada, na virilha, é suspeito.


Este exame, que pertence ao 1º tempo, é certamente o melhor conselho; porém, é sempre desprezado, ou por falta de verdadeiros conhecimentos, ou pelo receio de ofender o pudor, ou pela precipitação, ou sustentação da ilusão. As loções antes do contacto carnal são de má prática, pelas condições a que sujeitam aparte, livrando-as do inducto sebáceo, que naturalmente encapa as mucosas genitais e as defende da absorção; muitos higienistas até recomendam, nestas conjunturas, o uso das unções com um corpo gorduroso, como azeite, óleo de amêndoa ou banha preparada. Toda a esfoladura ou escoriação simples favorece a absorção; neste caso, manda Ricord fazer cauterização com a pedra infernal.


Pelo que diz respeito ao segundo tempo, nenhum conselho pode haver, e tudo o que poderia dizer-se não passaria de ousado pedantismo que a sã razão rejeita. É depois do acto que todos os actos preventivos se devem tomar, e toda a prontidão e boa execução são a condição necessária e útil para prevenir o contágio. Nesta ocasião, a lavagem deve ser minuciosa e feita com adstringentes, de preferência com vinho, vinagre aromático e, na falta de qualquer meio, a água da fonte, fria, com uma solução de sabão. O melhor e mais económico meio profiláctico é uma solução de acetato de chumbo cristalizado, um oitavo e meio para uma libra de água da fonte, e é de necessidade, seja qual for o meio empregado, que a lavagem seja em acto contínuo.


Será sempre bem urinar, para que esta excreção faça a lavagem a uretra; no caso de não poder fazer-se, a solução do acetato é sempre muito conveniente. A mulher não deve desprezar estas condições de limpeza, fazendo loções iguais e lavando também a vagina com a água de acetato de chumbo.


Todos os cuidados de limpeza a que, finalmente, se limita a higiene privada nem sempre são suficiente caução, pois seria muito feliz aquele para quem a imunidade proviesse exclusivamente deles. No entanto, é verdade que muitas pessoas, e particularmente as raparigas, quando se dão aos cuidados de limpeza e têm a suficiente sagacidade para conhecer a sanidade do homem, o que só aprendem depois de certo tempo no exercício da prostituição, se conservam muitos anos, e algumas toda a vida, sem contraírem infecções novas. Deve-se, pois, ter sempre em lembrança que idas as precauções são precisas e todas se resumem neste princípio geral da higiene: limpeza .


As afecções sifilíticas que mais frequentemente se manifestam na prostituição pública, e portanto que mais a conduzem ao hospital, são, por ordem da sua frequência, as seguintes:


1- Da vulva:


Cancros


Escoriações e ulcerações


Vegetações


Corrimentos


2- Dos grandes lábios:


Placas mucosas e pústulas secas


Abcessos e pústulas supurantes


3- Da uretra:


Corrimentos


Vegetações mucosas e ulcerações


4- Do ânus:


Vegetações e placas mucosas


Pústulas secas


Ragadas e corrimentos


5- Adenites inguinais e ulcerações, no colo do útero.


De algumas manifestações sifilíticas que acabamos de ver, nem sempre é fácil aos facultativos visitadores o fazer um diagnóstico certo e positivo da sua natureza contagiosa, pelo exame exclusivamente ocular. Todos os estados mórbidos em geral são de um difícil diagnóstico positivo, quando as condições em que se manifestam estão no começo ou princípio do seu desenvolvimento, dadas as complicações que mui frequentemente as acompanham, ou mesmo aparentam uma natureza que não têm.


Assim sucede quase sempre com os corrimentos vaginais, com as adenites inguinais e o maior número de infecções herpéticas.


Deverá, portanto, em caso duvidoso, a polícia sanitária temporizar?


Em qualquer dos pontos – virilhas, ânus, vulva, vagina ou uretra – que se manifeste um estado anormal, em pequena ou grande escala, e sobretudo sendo supurante, não deve existir dúvida para fazer entrar no hospital uma mulher, qualquer que seja a natureza da afecção local, porque aproveita sempre depois de algum tempo de observação, com um tratamento apropriado, embora não sendo sífilis. É, pois, debaixo deste ponto de vista que se funda o princípio estabelecido, regulamentar e prático, de obrigar as raparigas a entrar no hospital, logo imediatamente depois da visita, quando encontradas doentes.


ANOTAÇÕES:


I. Nada a comentar. As receitas do Dr. Azevedo – a profilaxia dos três tempos – não serão hoje em dia muito úteis ao leitor. Em caso de infecção, consultem-se as páginas amarelas, e talvez o médico.


II. Provérbio medicinal (com data da Segunda Guerra Mundial): «Três minutos com Vénus, três anos com Mercúrio.»


(in “Os Bons Velhos Tempos da Prostituição em Portugal”. Alfredo Amorim Pessoa. Antígona_Frenesi. Lisboa. 2006)


Imagem: "Inspecção médica" - Henri de Toulouse-Lautrec

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