Tempos de Cólera

Os baixos salários e a mão-de-obra barata dos imigrantes refugiados

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Para poder ganhar as eleições e por maioria absoluta, como veio a acontecer, o PS no governo, e aproveitando-se deste facto, prometeu tudo e mais alguma coisa, desde a subida do salário mínimo e das pensões à felicidade suprema e absoluta do povo português. Só que há um pequeno senão, serão todos os trabalhadores a financiar os patrões a pagar a reles subida do salário mínimo nacional (SMN), e que pelo número de empresas que concorreram a este apoio são demasiados os trabalhadores que auferem este salário miserável: 161.634 empresas, abrangendo quase 979 mil trabalhadores, num montante de 94,5 milhões de euros. Qualquer dia a maior parte dos assalariados do país estarão a auferir o SMN - “Portugal tem salário mínimo "inadequado" ao custo de vida” e “10,7% dos trabalhadores estão em (risco de) pobreza” (da imprensa corporativa).


A predominância de salários baixos reflecte a existência de uma mão-de-obra pouco qualificada e que, por força dessa realidade, será pouco produtiva, não permitindo uma descolagem da economia nacional como se pretende. Mas é para manter esta estratégia de desenvolvimento económico, e para aumentar os lucros a curto prazo, que a nossa burguesia vai continuar a apostar nos salários baixos, agora contando com o maná dos refugiados ucranianos. Todos os patrões se disponibilizam para aceitar os imigrantes, prometem casa, formação e emprego, e tanto eles como as câmaras e o governo prometem o país das delícias e das maravilhas. É só solidariedade, não haverá interesse escondido, ficámos a saber que Portugal é o supra-sumo do altruísmo. Os patrões do Turismo dizem ter 50 mil empregos para os refugiados ucranianos e o governo já garantiu casa para 1500 famílias. No entanto, se a avalanche for súbita e maior que o esperado, os trabalhadores ucranianos ficarão então a conhecer a verdadeira natureza de tanta boa-vontade. Com a entrada de um grande número de trabalhadores no mercado de trabalho irá inevitavelmente baixar ainda mais o preço da mercadoria que é a força de trabalho. Será também o acicatar da competição entre trabalhadores e o dar argumentos aos partidos de extrema-direita que, diga-se em abono da verdade, a burguesia e o governo PS não se cansam de promover.


A crise económica é crónica, arrasta-se penosamente e as medidas entendidas e aplicadas pelos governos para a superar só servem para a amenizar durante algum pouco tempo, sempre à custa do agravamento dos rendimentos e das condições de vida dos trabalhadores, para logo depois a mesma crise ressurgir ainda com mais força. Parece que as medidas de austeridade, postas em prática no tempo da troyka, tiveram um efeito paradoxal: deram mais força à crise. Uma crise que nunca será ultrapassada por uma burguesia rentista e presa ao lucro fácil e imediato, assim se compreende a afirmação dos esclavagistas nacionais: “Com os salários atuais, Portugal pode atrair engenheiros da América Latina” (bastonário dos engenheiros). Uma burguesia de vistas curtas e de fraco intelecto: “Patrões têxteis levam a mal “direito” de gozo do feriado de Carnaval”.


A guerra da Ucrânia fomentada pelo imperialismo estado-unidense tem um duplo objectivo, vergar a Rússia (o sonho molhado do imperialismo capitalista desde o princípio do século XIX) e aumentar ainda mais a subjugação da União Europeia, arredando-a como possível competidora. De igual modo, espelha as contradições e a decadência do capitalismo a nível mundial, nesta época de domínio do grande capital financeiro. Quando a guerra acabar, na hipótese optimista de não desembocar numa terceira Guerra Mundial, nuclear de certeza, a Europa estará mais pobre, mais dividida e mais próxima do fim - “Euro cai para o nível mais baixo desde maio de 2020”. E em Portugal, a austeridade, que agora o governo de maioria absoluta de Costa/PS irá aplicar, será muito semelhante à do primeiro governo Sócrates, também ele de maioria absoluta do mesmíssimo PS (parece que muitos portugueses têm fraca memória). Em vez de cortes nos salários e nas pensões em termos nominais, iremos ter cortes bem maiores mas por meio da inflação. Em 2010, os cortes tiveram de ser directos pela simples razão de que a taxa de inflação era zero ou perto de zero. Desta vez será a matar, só que já não haverá tempo para arrependimentos. Os tempos são de guerra e é bom que os portugueses que trabalham e produzem se capacitem bem disso para não terem mais surpresas

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