
Fernando Schwalbach
É a porta por onde entram para o vício baixo a maior das desgraças, a quem a sua má cabeça ou um passo em falso, arrasta para a estrada, que ao princípio, se lhes afigura toda de rosas, mas de onde, dados os primeiros passos, começam a brotar agudos espinhos que a pouco e pouco lhes vão esfacelando a alma, a carne e a vida.
É uma praga que se chama quase toda Lisboa; mas onde elas abundam mais é nos bairros pobres, como Mouraria, Alfama, Bairro Alto, Madragoa, etc. Alguma há também pelas ruas da Baixa, como Arco do Bandeira, Travessa do Palha, Madalena, mas já em melhor número.
Quem dá mais lucro a esses verdadeiros antros do vício, da porcaria e da imundície, são: primeiro, as criancinhas desempregadas, ou mesmo empregadas, levadas lá a primeira vez pela mão do namorado; a segunda vez são geralmente elas quem lá os levam, chegando algumas mesmo a dar preferências a esta ou aquela casa, tão conhecidas já lhes são depois de meia dúzia de passos nessa dita estrada, de que tão difícil e, raro, é vê-las voltarem atrás. As segundas são as costureirinhas.
É geralmente destas duas classes que saem o maior número de degeneradas.
Das primeiras, as criadinhas, para o vício baixo; das segundas para a alta, onde as levou a ambição do luxo que confeccionavam para as protegidas da sorte e onde os magros proventos da agulha lhes não deixavam chegar e portanto… o que não dá a agulha, compra o corpo.
Nas primeiras é apenas o vício, a besta, que as faz seguir esse caminho, pois que raras são aquelas que têm ambições que vão além do lenço de seda, o fatinho preto e os sapatos de polimento; depois, com o verem nas outras os aumentos, então sim, começa a acordar nelas a vontade de subirem e às vezes tão depressa o querem fazer que o trambolhão é mortal. Mas o que lhes faz dar os primeiros passos, repito, foi apenas o vício, acordado nelas a maior parte das vezes pelo filho da casa, quando não é pelo próprio patrão e que depois de sentida a primeira sensação, de acordado nela o desejo do gozo, que até então lhe era desconhecido, as faz atirar de cabeça, porque a criada, mulher saída, quase sempre, da classe baixa, sem princípios nem educação, sentida pela primeira vez a sensação que acima digo, só o que quer, o que de então para diante deseja é a repetição desse mesmo gozo, sem olhar de onde, o de quem ele lhe venha.
É vê-las, aí pelo romper das oito da manhã, atravessarem o Rossio, desembocando de todas aquelas ruas e travessas, cabaz no braço saia arregaçada, a caminho da Praça rindo a uma ou outra graça pesada que lhe é dirigida pelos apreciadores do género, que os há e bastantes por Lisboa; e não é raro vê-las, depois de feitas as compras, meterem por qualquer travessa próxima, afogueadas, os nabos e as couves muito verdes e viçosas, a espreitarem por sob a asa do cabaz, seguidas por qualquer D. Juan de ocasião, enfiarem pela escada de certo prédio, onde numa janela de qualquer andar, chama a atenção a tradicional lanterna. Passados tempos elas aí saem, mais afogueadas ainda, espreitando receosas, não as veja alguém conhecido, muito rentes à parede até alcançarem a primeira esquina e... zut, lá vão a caminho de casa onde os patrões, furiosos pela demora, as esperam com a zarabanza já engatilhada.
– "Ó Maria, você hoje ia lá ficando; isto assim não pode ser. O patrão à espera para ir para o escritório e você a demorar-se este tempo todo!" Que não, que a demora não foi dela, era que estava muita gente no talho, na tenda, no lugar da hortaliça e faz um tal estendal das descomposturas que deu para não a demorarem que quase ainda os patrões têm de lhe pedir desculpa e pagar à parte o tempo que ela perdeu nos braços do pequenino e brejeiro Deus Cupido... padeiral.
Com a criada antiga, a verdadeira e genuína sopeira portuguesa, já não acontecia isto. Essa tinha horas marcadas para ir a qualquer parte, e passasse um minuto que fosse dessa hora que já sabia o que a esperava.
Contas feitas e... rua.
Não digo que essa fosse mais santa do que a criada de hoje, não. Mas contentava-se com o menino da casa, uma ou duas vezes por semana, e, conservando-se anos e anos na mesma casa, de lá saía para casar... em segunda mão, mas feliz, farta e anafada.
Seria porque nesse tempo eram raríssimos em Lisboa esses tais antros de perdição a que damos o nome de Hospedarias? Seria porque houvesse então mais respeito, mais honestidade, mais vergonha? Não sei, mas o caso dava-se.
A criada antiga, tinha quando muito um namorado; a criada tem, quando menos, dois amantes, um em casa, outro fora.
Mas, muito tenho já dito da criada e ainda nada do assunto a que dedico particularmente este capítulo: As hospedarias para pernoitar.
Há-as aí por todos os cantos, como atestam as lanternas
penduradas às janelas, com as competentes letras pretas nos vidros a indicarem que ali se ama desde o preço de seis vinténs por par, e que de noite são iluminadas por um mísero coto de vela. De quantas desgraças tem sido esse pequeno coto a sua má estrela! ...
Logo à porta da rua entra-nos pelas narinas um cheiro nauseabundo a urina podre e... adjacentes líquidos e sólidos.
Enchamo-nos de coragem, tapemos o nariz e... avante.
Os degraus da negra escada carunchosa, meios comidos pelas contínuas subidas e descidas dos seus numerosos frequentadores gemem a cada passo dado neles, produzindo-nos a impressão que tudo aquilo se vai desconjuntar e, como nas antigas mágicas, se abrirão aos nossos pés enormes alçapões onde desapareceremos para sempre. Mais um esforço e eis-nos chegados ao patamar do segundo andar. A porta, geralmente está sempre encostada, empurra-se e ela ao abrir-se faz soar uma campainha que mais parece um chocalho pelo barulho que faz, capaz de acordar um surdo pegado no primeiro sono.
Saída, não sabemos de onde, pois nunca se lhe ouvem os passos, surge ante nós a aparição de uma velha desgrenhada, tipo perfeito das megeras dos antigos dramalhões, empunhando na mão direita uma palmatória de folha com a quarta parte de uma vela, que nunca poderá dar luz para mais de meia hora, e na esquerda um pano dobrado em quatro (paródia à recepção dos reis antigos quando os alcaides lhes vinham entregar, reverentes, as chaves da cidade). São objectos indispensáveis a uma alcoviteira que se preze, para bem receber os seus visitantes. Esta criatura, depois da entrega solene dos ditos apetrechos, faz sempre a pergunta sacramental: De quanto? – refere-se ao preço do quarto; conforme é a resposta, assim é a porta que abre. Entra o par e ela aí vai outra vez munir-se de novo pano e vela, desaparecendo para só voltar, ou à saída dos que entraram, ou a novo toque do chocalho.
Os quartos geralmente só variam no preço, a mobília é quase sempre a mesma; uma cama de ferro de onde a tinta já quase desapareceu por completo, com um colchão duro como paus, travesseiro e almofada na mesma, coberta de chita a tapar a cor mais do que duvidosa dos lençóis, uma mesa geralmente coxa, uma cadeira sua irmã gémea no defeito físico, um lavatório de ferro com uma minúscula bacia onde mal se poderá lavar bem as pontas dos dedos e... disse. As paredes que separam este ninho de amor, do ninho vizinho, têm a espessura, quando muito, de umas delgadas tábuas forradas, quando o são, a papel berrante de 60 reis a peça.
Escusado será dizer que o mais pequeno movimento do vizinho é ouvido aqui como se estivessem na mesma cama.
O cheiro que lá dentro existe é único destas casas. Li algures, que o pecado tem um cheiro inconfundível e estou em crer que assim seja, pois que em parte alguma se encontra o perfume que estas casas emanam.
E é ali, naquele antro, quase sempre escuro, onde, ao entrar, se sente a sensação fria de que a vida nos ficou para trás, naquelas camas imundas onde tantíssimos corpos, mais imundos ainda, têm estremecido, saltado, berrado de luxúria reles feita de amor e vinho, que milhares de raparigas têm perdido o que de mais caro, mais belo, de mais rico a mulher tem: a honra do corpo e a pureza da alma!
Temos agora a casa de passe; é destinada ao mesmo fim do que a hospedaria reles que atrás deixo descrita; a sua diferença está apenas no mobiliário, no amável da recepção e na subida do preço.
A escada é limpa, bem esfregada, não se sentindo ao entrar o cheiro pestilento dos mictórios públicos.
Os degraus não gemem, a porta não tem chocalho mas sim campainha eléctrica, quem nos aparece não é a velha desgrenhada da palmatória e paninho; é: ou uma criadinha ladina, que sorrindo como que a dar-nos coragem, nos vai abrir a porta da alcova, ou a própria dona da casa, muito séria e imponente na sua abundância de carnes criada à custa da carne alheia no seu nojento mister (quase sempre são gordas e anafadas estas alcofas humanas).
Ali o mobiliário é outro. A cama de madeira esconde-se sob os cortinados espessos, como que a envergonhar-se do ofício a que a destinaram, o chão desaparece sob o felpudo tapete, o toillete quase sempre colocado em frente da cama, mostra-nos o seu espelho brilhante onde tantos corpos nus se têm reflectido dando prazer aos olhos e de mistura ao corpo.
Como o sofá ou chaise-longue, as cadeiras são estofadas; tudo ali mostra luxo, desde o mobiliário ao fim a que o destinaram.
Mas apesar de tanto luxo, o fim é o mesmo e o mesmo é também o tal cheiro que os perfumes caros das deusas que os frequentam, não conseguem apagar. Assim como num talho, por mais lavado que seja, existe sempre o cheiro da carne, ali existe sempre, apesar de fortes perfumarias, o mesmo cheiro que se encontra na hospedaria baixa de seis vinténs o par... amoroso.
Assim como as primeiras são escolhidas para os amores sopeirais, as segundas são preferidas pelas costureirinhas, classe que não pequeno contingente tem dado para a legião de infelizes cujos nomes estão inscritos do livro negro que a sanitaria possui. Enquanto que às primeiras é o vício quem primeiro as arrasta para esse caminho, às segundas é o luxo que as atrai, as empurra e as despeja por fim no meio das mundanas da alta. Uma saia de seda, um chapéu da moda, casaco de veludo, transformando-lhe tão por completo a cabeça que, a maior parte das vezes, sem mesmo pensarem na gravidade do passo que vão dar, atiram-se sedentas desse mesmo luxo para os braços do primeiro que lho pode satisfazer, esquecendo tudo, desde o amor santo dos pais à paixão louca do namorado, honrado operário para quem a imagem, o pensamento dela, é o único amparo, a única força, o único talismã que lhe dá coragem para subir, apenas com o fito de afazer subir também.
Mas a escada por onde sobe o operário leva tempo e por isso a maior parte das vezes elas abandonam essa que é a da honra e portanto de difícil ingresso, e descem a passos largos, saltando às vezes os degraus a três e três, a da vergonha que as conduz quase sempre ao lupanar, única porta que encontram aberta depois que se lhes fechou a dos pais, cujas cancelas cobriram de vergonha apenas pelo luxo, a maior perdição da mulher.
Mas sedas, veludos, pedrarias, tudo isso espremido o suco é... lodo!
Imagem: Prostitutas (algumas ainda crianças) em Lisboa no princípio do século XX.
(Hospedarias para pernoitar (II) - “O Vício Em Lisboa”, Fernando Schwalbach. Parceria A.M.Pereira, 1912)