Tempos de Cólera

O rei dissoluto e o lupanar real do Convento de Odivelas

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«Passando sumariamente pelo reinado dos três Filipes e pelo de D. João IV nos quais a nossa resenha histórica muitos factos de feroz devassidão poderia respigar, porque nesses tempos ferozes e devassos o impudor e a prostituição devoravam o organismo social até à medula, paremos um momento nos primeiros tempos de intriga e torpeza do reinado de D. Afonso VI, o Vitorioso , como a História lhe chama, por irrisão decerto.


É conhecido o carácter imundo do filho e herdeiro de D. João IV as suas inclinações vis e os seus gostos obscenos, qualidades que muito justamente lhe atribui um historiador contemporâneo. Esse rei fraco e impotente, que se rodeava de uma malta de devassos, percorria de noite as ruas da cidade, praticando e deixando praticar as maiores torpezas. Raptos, adultérios, estupros, tudo se realizava impunemente. Os bons burgueses tremiam de medo, quando desfilava aquele tropel de dissolutos, capitaneados pelo rei Vitorioso , que, qual outro Calígula ou Nero, se prostituía nos braços dos seus validos, visto não poder de outro modo satisfazer a sua lubricidade!


E no entanto, a razão de Estado ligou os destinos deste monarca inepto e impotente aos de uma princesa francesa, educada nas torpezas da corte de Versalhes, de temperamento voluptuoso e sem escrúpulos, que bem cedo saciaria nos braços de seu cunhado, O. Pedro, as paixões que o inválido marido não podia saciar. Daqui, a torpíssima comédia que deu o trono a D. Pedro e atirou com o pobre rei impotente para o cativeiro, onde morreu.


Mas D. Maria Francisca Isabel de Sabóia passou à posteridade como o tipo completo da impudicícia no trono, e a história dos seus amores e maquinações com o seu cúmplice, o futuro rei de Portugal, constituem páginas vergonhosas e infames, que jamais se apagarão da memória do povo português.


Com estes predicados, o reinado de D. Pedro II foi um dos mais tristes na história da dissolução na sociedade portuguesa. Só o excedeu em torpezas outro reinado, o do seu filho e sucessor D. João V, o rei freirático. Dava matéria para um grosso volume a pintura da sociedade portuguesa nessa época desgraçada. No trono, o exemplo da devassidão e da torpeza, um arremedo grosseiro e brutal da corrupção na corte de Luís XIV Os fidalgos entregavam-se acorrerias nocturnas pela cidade. Havia bandos temíveis pelos seus excessos e torpezas, o do duque de Cadaval, dos marqueses de Marialva, dos condes de Aveiras e de Óbidos, que percorriam e amotinavam Lisboa, praticando toda a casta de violências e crimes. Os próprios príncipes entregavam-se a estes divertimentos sangrentos, violando as mulheres, raptando-as, corrompendo tudo com o exemplo e o desenfreamento feroz dos seus vícios. E não era só em Lisboa que se praticavam estas violências; noutras terras, em Coimbra, por exemplo, a vida dos cidadãos e o pudor das mulheres não estava mais ao abrigo dos devassos da época.


Era, como diz o sr. Oliveira Martins, «uma orgia sanguinária e lúbrica, fundando o fundo real do quadro da devoção idiota e da majestade burlesca. O conde de Távora, tão piedoso que dava ao papa autoridade para tirar um santo do Paraíso e mandá-lo para o Inferno, vivia amancebado com a Rocha, furtada por ele ao pai, e casada com um criado seu. A Rocha fugiu-lhe com o padre Soares.»


Um conde ia disfarçado de mulher, de manto e touca, falar à criada em Santa Clara, e dormia no convento com ela.


Bons tempos esses de luxúria infrene, bons tempos esses, que ainda agora os devotos nos citam como exemplo de uma santa compostura dos costumes, por isso que a orgia ao menos andava encabeçada em rezas e procissões devotas, por isso que se cometiam estupros, incestos e todas as devassidões, à sombra do manto protector da religião.


Era de ver como os reverendos padres sabiam levar a vida! O prior de São Jorge, aqui em Lisboa, ainda aos sessenta e cinco anos de idade tinha um serralho, abundantemente provido de odaliscas, suas confessadas. A Inquisição, por inveja decerto, processou o bom do padre e condenou-o ao degredo. Mas, que mal havia nessas fraquezas do santo homem, visto que, como ele próprio dizia, em sua defesa, não fazia senão seguir os ditames do Evangelho, já que passava o seu tempo a amar, e o amor é a caridade, resumo de toda a lei?


E as freirinhas, como elas gozavam o amor profano e o amor sagrado, entregando-se, rendidas de luxúria, nos braços dos seus sigisbéus galantes e nos dos frades das diversas comunidades! A excelente abadessa do convento de Sant'Ana, aqui na capital também, tomou-se de amores com um frade capucho e lá foi com o santo homem para a Holanda, trocar místicas e adoráveis carícias com o amável frade, que a enlouquecera com os seus amavios e cantigas.


Não havia nada como o amor devoto, que dava aos desejos um ardor inimitável. Quando a igreja celebrava as suas solenidades mais dramáticas, quando as decorações fúnebres e os cânticos plangentes davam aos espíritos um desvairamento místico, era de ver como se faziam conquistas e como as mulheres se rendiam depressa, cheias de lubricidade e paixão! Até o rei, o devasso D. João V se disfarçava em andrajos de pobre para, junto do andor do Senhor dos Paços da Graça, beliscar as damas da alta-roda, quando esse bando de mulheres levianas e formosas iam beijar o pé da votiva imagem.


E todos rezavam, ao passo que iam namorando e pecando, porque as rezas tudo desculpavam e tudo auxiliavam. Depois, circunstância favorável, havia os biocos protegendo contra as curiosidades indiscretas e favorecendo os sinaizinhos, os ternos olhares e os beijos dos galãs. Se do namoro resultavam complicações ou comprometimentos, lá estava a espingarda para resolver as questões a tiro, mesmo nas ruas da cidade e, como diz um historiador de são critério, a água-forte ministrada em bebida resolvia muita questão doméstica.


No topo desta sociedade corrompida, estava o rei, dando o exemplo de todas as devassidões e tendo em Odivelas o seu serralho devoto, onde se entregava a rezas e a lubricidades, passando do coro para as sumptuosas alcatifas, onde, em coxins orientais, refocilava os apetites de luxúria na esplêndida carnação de soror Paula. Ali comia âmbar e passava horas deliciosas.


«É verdade – diz o sr. Oliveira Martins – que D. João V perdia a cabeça por todas as mulheres; mas a sua verdadeira paixão estava em Odivelas, o ninho da madre Paula. Mandara fazer uma boceta preciosa para guardar os seus amores. Madre Paula e a irmã Maria da Luz viviam juntas nesse fofo recinto preparado para todas as voluptuosidades.


Todo o luxo da época se acumulara no palacete misterioso e maravilhoso: as talhas douradas, os mosaicos de Itália, os charões da Índia, os móveis de ébano embutidos de marfim, os espelhos de Veneza, os cristais, as cambraias, as rendas, as pratas e ouros, as franjas pesadas, os estofos de Melânia (fazenda da moda), as sedas adamascadas que revestiam as paredes. As duas irmãs dormiam no mesmo quarto e, entre as camas, tinham duas pias de prata com água benta para se persignarem. Da sala verde, onde havia um relógio de minuetes e um balcão de mármore envidraçado, abria-se uma tribuna carmesim e ouro sobre a igreja do convento, com os retábulos de Nossa Senhora da Graça, de São Bernardo e de São Bento, três protectores dos três beatos: o rei e as duas irmãs. A embriaguez devota não excedia, porém, os desvarios lúbricos, na sala cor de fogo, onde a mole odalisca, brevemente vestida de rendas, era servida pelas suas criadas mulatas, de arrecadas de ouro nas orelhas.


O rei entrava e saía, sem se esconder, sem recear que o vissem. Todo o convento o conhecia e lhe beijava reverentemente a mão. Perto do palácio, porém, rebuçava-se por decoro: era ao Arco dos Pregos, e o Cucolim, ao contar as idas para Odivelas, dizia: “Ali perde a vergonha!”»


Era um grande farsista, el-rei O. João V, e passava alegremente a vida no convento de Odivelas. Eis uma anedota engraçada que o sr. Bernardes Branco refere no livro a que pôs por título “As Minhas Queridas Freirinhas de Odivelas”:


«Havia tempos que madre Paula instava com o seu amante, el-rei O. João V, para que lhe levasse até Odivelas o famigerado Camões do Rossio. Estava – dizia ela – ansiosa por conhecer um homem de quem tinha ouvido dizer tantas maravilhas; e que tão falado era, não só por causa dos seus versos, como pelos ardis por ele inventados para apanhar ou fazer cair na rede os gatunos e meliantes.


“Olha, João, se eu não estivesse apaixonada por ti como estou e se no mundo não houvesse coisa alguma, como não há, que possa fazer com que eu te seja desleal, aquele livro de versos chamado “Martinhada”* seria para mim uma grave tentação! Que lindeza de versos! Que sublimidade de pensamento! Que assunto tão abrejeirado e tão pândego!”


D. João V descreveu à sua querida freirinha o Camões do Rossio como um homem grande trocista e disse-lhe que receava trazê-lo a Odivelas, por isso que soror Paula podia, como hoje dizemos, estender-se, dar raia, com os epigramas do vate, e assim ele rei fazer figura triste, ficando o Camões a julgar que a amante era uma insignificante, um espírito vulgar e tacanho.


Ao Camões, que do mesmo modo desejava conhecer soror Paula, dizia o gracejador monarca que receava apresentar-lha, para que ela, fina como era, não lhe fizesse alguma pergunta que o atrapalhasse. E então, sendo o poeta corregedor e quase valido do rei, era ainda o monarca quem faria figura triste para com a sagaz freirinha.


Continuaram por muito tempo os pedidos, tanto da madre como do Camões – prossegue o sr. Bernardes Branco. – Até que, afinal, quando lhe pareceu, o rei anuiu, pedindo à madre que tivesse muita presença de espírito, pois que o Camões parecia mais um diabo que um homem.


“Ou diabo ou homem, hei-de atrapalhá-lo. Hei-de, à queima-roupa, dirigir-lhe um cumprimento tal e tão fora do vulgar que o homem não abre a boca e fica embatucado.”


“Olha lá não se volte o feitiço contra o feiticeiro” – exclamou o rei.


Depois anuiu o rei também às solicitações do Camões, fazendo-lhe grandes recomendações, e que o melhor de tudo seria, quando ele chegasse à presença da freira, não a encarar, pois os olhares dela forçosamente o atarantariam: que o melhor de tudo seria representar o papel dos frades, os quais, quando passavam por uma mulher, fitavam os olhos no chão.


“Mas Vossa Majestade bem sabe que eu não sou frade” – resmungou o Camões.


“Hoje mesmo a veremos. Às oito horas da noite hás-de estar no meu palácio e vais comigo na sege.”


“Agradecido, real senhor!”


E o rei mandou logo participação à freira de que naquela noite ia o Camões em companhia dele, e que só uma coisa lhe pedia: que tivesse presença de espírito, ou então que não aparecesse e fingisse estar doente. Às oito horas da noite, eis o rei e o Camões dentro da sege, em direcção a Odivelas, e a mata-cavalos. Galgaram o caminho em menos de três quartos de hora. E o rei fingia-se assustado, e em todo o caminho só disse ao poeta:


“Camões, não me envergonhes. Retrocede, que ainda estás a tempo, se em ti não sentes coragem bastante! Aqueles olhos... aqueles olhos da madre Paula são o Diabo!...”


“Não retrocedo, não, real senhor. Hei-de acachapar a madre Paula.”


“Pouco falta para isso se ver” – exclamou o rei.


Ei-los junto do Arco de D. Dinis. Ei-los a entrarem no couto ou Arco de Odivelas. Apeiam-se, e o rei a dizer a Camões:


“Espera aqui um minuto à porta e eu te farei sinal para subires.”


Mas o que o rei queria era tomar posição conveniente para ver a cena à sua vontade. A sala do rei ficava no primeiro andar. D. João postou-se no meio da escada, encostado à parede, para poder ver bem à vontade a cena entre a madre Paula, que estava em cima, e o Camões em baixo.


A madre desceu dois ou três degraus, e fita o Camões, que também já tinha subido uns dois ou três degraus. A madre, encarando sempre o Camões, exclama com a máxima volubilidade:


“Como vem fáfio! Como vem féfio! Como vem fífio! Como vem fófio! Como vem fúfio!”


O rei, às gargalhadas, pela originalidade do cumprimento! O Camões, a responder também com o máximo de volubilidade:


“Como estais pata! Como estais peta! Como estais pita! Como estais pota! Como estais p...!”»


Tal era a pilhéria do tempo! É de crer que O. João V ficasse tendo no mais elevado conceito o espírito da freira e o do poeta. O sr. Bernardes Branco, grande admirador das graças freiráticas, exclama, depois de haver contado a anedota: «Ai que tempos, que tempos! Aonde te refugiaste, ó pilhéria, que em Portugal já te não vejo!»


Como os leitores estarão notando, o sr. Branco é demasiado modesto. Nos seus livros há pilhérias de sobra para fazer rir as próprias pedras!


Anotações:


1. É o Renascentismo (séculos XVI e XVII) que o autor passa em silêncio, não respigando desses séculos quaisquer manifestações de «feroz devassidão». Não diremos que o Renascimento foi exactamente isso: uma feroz devassidão. Mas foi de certeza uma época revolucionária, em que caiu muito do velho mundo, e em que o prazer ganhou direito de cidade, em que a curiosidade invadiu os espíritos, em que até a Virgem Maria recupera o valor de Vénus, em que o materialismo avança, trazendo consigo uma certa libertação sexual: o amor bissexual torna a fazer parte dos costumes, a mulher retoma às vezes a iniciativa amorosa. Portugal foi também atingido por este renascimento, e, se Amorim Pessoa não coligiu nada digno de antologia, ou foi porque o amor se tornou coisa demasiado vulgar, ou demasiado invulgar, para poder ser falado. Sabemos todavia que, na França, Luís XIV, contava entre os seus melhores generais com muitos «monstros» de homossexualidade. (Facto que junto a outros semelhantes, vem a ser o tema preferido do escritos revolucionário Sade.) Entre os mais célebres cardeais pederastas da época, avultam o de Guise e o de Bonzi, o de Bouillon e o de Coislin. A lésbica Catarina da Suécia nunca conseguiu amar senão quem usasse saias: foi, já no fim da vida, amante de um cardeal italiano. O seu contemporâneo, o nosso Afonso VI, deve ter sonhado com uma corte desse género em Portugal... mas, coitado, não levou o sonho avante, porque o sistema português, mais uma vez, não aguentou a desagregação e a crise da família real. E deu-se o que o autor conta no início deste trecho (…).


2. Com D. João V, o nosso autor dá por findas as histórias adúltero-prostitutas da nossa História. Em homenagem ao citado poeta Camões do Rossio (morto em 1739), damos aqui uma amostra da introdução à sua Martinhada, uns «Lusíadas» no género pornográfico:

Eu canto a Porra e o varão potente,
Esse que fez dos rins, no seminário,
A toda a carne humana guerra ardente
No excesso do apetite fornicário:
O Martinho, ou carneiro de semente,
Que sobre as putas tem membro arbitrário;
Eclesiástico anfíbio de maldade
Que, juntamente, foi clérigo e frade.

Este é o varão; o membro é aquele
Grão-senhor do comércio dos marzapos,
Por que a fama gentílica atropele
Da genital enxúndia dos Priapos:
O que ao vaso das moças tira a pele
E costuma fazer-lhe a crica em trapos,
-Quando vermelha e imodesta atura,
Da bimbalhada, a horrenda embocadura.
 
Não quero as nove irmãs que, por inuptas,
Me não hão-de influir, sendo donzelas;
Desejo um coro de noventa putas
Graduadas no exercício de michelas:
Mas se é preciso que, do Pindo, as grutas
Tenham parte da voz nas tangedelas,
Bastará que me assistam do Parnaso
Os colhões e a porra do Pegaso.
 
Tu, pai da geração burra, castiça,
Escuta do meu verso as rimas toscas;
Enquanto a burrical parda linguiça
Brandamente, à barriga, abana as moscas:
Inclina um pouco a orelha dobradiça,
Alargando e encolhendo ao membro as roscas;
Ouvirás, 'inda posto a barlavento,
As fodas do eclesiástico jumento.
[...]


3. São às dezenas também os poetas do século XIX, mal recebidos pelo sistema e impedidos de chegar à grande publicidade, tal era a «impureza» dos seus versos. É assim que Gomes Leal (1848-1921) fala da prostituta no poema «A uma Horizontal» (in “Fim de um Mundo”, Porto, Livraria Chardron, 1900; recompilado por Albino Forjaz de Sampaio e Bento Mântua na antologia “O Livro das Cortesãs”, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1917):

Mulher de tranças negras e compridas,
e de falas fingidas,
que, alta noite, ao ruído das orgias,
com casquinadas frias,
achincalhavas corações dolentes...
– com que prazer vejo que não tens dois dentes!
 
Ó sereia das tranças cetinosas,
e falas melodiosas, ...
toda cheirando a rosas...
Senhora do Deleite!
sempre em banhos de leite,
sempre inventando sensações estranhas...
– hoje estás boa para assar castanhas!

* Existe reedição moderna deste conjunto poético da autoria de Caetano José da Silva Sottomaior, juiz-do-crime na Mouraria e corregedor no Rossio, por alcunha «Camões do Rossio». Ver editora & etc, colecção Contramargem n.º 13, Lisboa, 1982; ou também, apenas algumas passagens do referido poema, na “Anlologia de Poesia Porluguesa Erótica e Satírica”, co-edição Antígona/renesi, Lisboa, 4.ª tiragem, 2005. ( NdE).»


(O torpe Afonso VI mai-la adúltera esposa. João V e o poeta Camões do Rossio in “Os Bons Velhos Tempos da Prostituição em Portugal”. Alfredo Amorim Pessoa. Antígona_Frenesi. Lisboa. 2006)


Imagem: D. Afonso VI

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