
Por Mustafah Dhada
ANATOMIA DO MASSACRE DE WIRIAMU
A 16 de Dezembro de 1972, o dia amanheceu como sempre em Chaworha. Em casa do régulo, não havia sinais de agitação. Os seus vizinhos, os Mixone, tinham acordado cedo. Os filhos, António e o irmão mais novo, estavam ansiosos por descer até ao rio. As cabras tinham de começar a pastar bem cedo, antes que as vacas tomassem conta dos furos de água e invadissem o terreno de pastagem contíguo. Uma das cabras estava prenha, podia parir a qualquer momento e ainda havia muito a fazer antes que a cria nascesse. Nada mexia. Em Chaworha reinava acalma.
Em Wiriamu, não. Semanas antes, um médium experiente fora chamado à aldeia para «fazer chover». A cerimónia fora demorada e intensa. A chuva tardava em aparecer. Então, os wiriamu decidiram chamar o Senhor Soda. Talvez ele pudesse convencer o céu a mostrar-se generoso. Venceu a contenda. Choveu. O chão estava húmido e cheirava aterra molhada. Os habitantes de Wiriamu acordaram cedo para comemorar. Os Kaniveti tinham matado uma vaca para vender a carne e preparavam o equipamento para fermentar cerveja. Os homens estavam reunidos fora das palhotas a conversar sobre a chuva e a quantidade de carne que era preciso vender para comprar o açúcar e a farinha necessários para fazer cerveja. Kalifornia Kaniveti estava de costas para os campos onde costumavam ir apanhar lenha, lá longe, a oeste da povoação. Outros estavam reunidos no espaço de convívio de Juwau.
A essa hora, já havia movimento em casa da família Tenente Valeta. Os visitantes de Riachu tinham chegado cedo para se conhecerem e se cumprimentarem. Uma das filhas de Tenente viera de outra povoação, ainda distante dali, para visitar os pais. As crianças brincavam por perto, algures entre as duas árvores, uma próximo da casa dos Tenente Valeta e a outra na orla da povoação, perto da casa de Bulachu Zambezi, que dava para Riachu. Vasco Tenente Valeta estava entre as mais velhas.
O régulo Wiriamu e o patriarca dos Tenente Valeta, o seu ajudante-de-campo, foram vistos a caminho da machamba do primeiro onde iam «falar de negócios» relacionados com o pombe. Não se sabe ao certo se estavam a beber cachassu. Se assim era, estariam demasiado ébrios para reagir com celeridade a uma situação de emergência que sucedesse na aldeia, dado o elevado teor alcoólico da bebida. Passaram aí a tarde inteira.
Pouco se sabe sobre o que aconteceu nesse dia em Riachu e em Djemusse. Algumas das mulheres de Riachu encontravam-se em Wiriamu. Dos homens desta povoação não havia sinal. Tanto quanto foi possível apurar, os homens e mulheres de Djemusse não saíram da povoação. Aqui, tal como em Chaworha, tudo estava calmo - à excepção de um entrevistado, cuja identidade se perdeu juntamente com outros dados devido à deterioração dos registos em papel durante o trabalho de campo. Estava de visita a Chaworha e aí permaneceu até ao meio-dia, momentos depois da chegada dos portugueses.
Quase 25 quilómetros para norte, no quartel-general regional de Tete, Zona Operacional de Tete (ZOT), estavam reunidos os estrategistas portugueses. Nessa manhã, por volta das 6h30, Antonino Melo, comandante da 6." Companhia de Comandos, recebeu ordens para se apresentar no quartel-general. Normalmente não seria ele a liderar a unidade, mas o seu comandante tinha adoecido com apendicite e, sendo Melo o oficial mais graduado, assumiu o comando da unidade. Chegou à hora prevista e foi conduzido à sala de reuniões. De pé, de frente para uma mesa oval, fez continência e ficou à espera de receber o comando de «à vontade». Diante dele encontravam-se alguns altos funcionários. Estavam acima dele na escala de remunerações, revelou. Não conseguiu identificá-los. Compreendeu as suas ordens: «Vá a Wiriamu e limpe tudo.» As ordens não o surpreenderam. Já realizara inúmeras operações semelhantes. Na verdade, o diário de operações da sua companhia confirma-o: muitas delas eram operações de limpeza. Melo não conseguiu precisar quantas.
«Mas o que significavam essas ordens?», perguntámos a Melo durante as entrevistas. «Normalmente», disse ele, «deslocávamo-nos até à zona... e limpávamos tudo isso.» Era simples. «Para poupar balas, metíamos as pessoas dentro de palhotas, atirávamos uma granada para o interior, trancávamos a porta e pum!» O telhado de capim era projectado no ar, deixava sair o ar quente e sugava oxigénio fresco, tornando a cair e incendiando tudo. Os que não morriam no momento da explosão, pereciam no incêndio. Em seguida, se tivessem tempo, destruíam os celeiros, os víveres e as cabeças de gado. «Tínhamos de ser rápidos. Se pudéssemos evitá-lo, preferíamos não nos envolver em fogo cruzado com a FRELIMO», acrescentou Melo.
Foi igualmente informado de que a DGS acompanharia a sua unidade. Pareceu-lhe estranho. Nunca participara numa operação conjunta, embora tal tivesse acontecido, no sul, durante os massacres de Mucumbura e Estima. Pouco antes do meio-dia, uma unidade de apoio logístico cercou as aldeias e sinalizou o perímetro exterior com bandeiras vermelhas. Inicialmente, ninguém reparou nelas. A Sra. Mixone estava no seu quintal, em Chaworha. Viu o filho chegar com a cabra prenha nos braços, que ele não queria deixar morrer e perder, assim, para o irmão a posse de um rebanho próprio. «Mamã, ela vai parir e eu tenho fome», diz o irmão de António, recordando a conversa. Colocou a cabra num local confortável enquanto ela ia buscar comida para o filho. Foi quando viu a bandeira e se interrogou sobre o que significaria. «O que é aquilo?» perguntou ao filho. «Não sei, mamã.» 0 instinto disse-lhe que se tratava de um mau presságio. Nessa altura, António já voltara para casa, tendo seguido o irmão.
0 padre Domingo Ferrão, da Missão de S. Pedro, tinha acabado de almoçar e, como era seu hábito, encaminhou-se para a árvore da escola da missão com um livro na mão, junto à qual costumava encostar-se para ler e dormir uma sesta. «De repente, ouvi um estrondo e vi umas setas metálicas, eram uns aviões a jacto de combate que voavam na direcção do triângulo.» «Estranho», murmurou para consigo, «não costumo ver estes aviões. 0 que será que andam a fazer?» Recostou-se no tronco da árvore e adormeceu. Não sabe se o pessoal do hospital, que ficava relativamente próximo da missão, também ouviu o rugido dos aviões.
Enquanto isso, os pilotos da Força Aérea Portuguesa bombardeavam o perímetro das cinco aldeias. Um corredor na diagonal em relação a Juwau formava um túnel destinado a capturar todos os que tentassem fugir na direcção de Mpharhamadwe. Segundo consta, cinco helicópteros surgiram em seguida. Três estão registados. Um pousou para largar um grupo de agentes da DGS em uniforme, nas proximidades de Chaworha, chefiados por Chico Cachavi e Johnny Kongorhogondo. Dois continuaram a sobrevoar a zona, um perto de Juwau e o outro próximo de Djemusse. Nenhum aterrou. Não conseguiam por causa dos cepos de árvore rasos. Normalmente, os helicópteros ficavam a pairar sobre a zona enquanto «nós saltávamos para terra e corríamos», recorda Antonino Melo. «Mas não consigo precisar bem este ponto. Penso que foi isto que aconteceu», acrescentou. Alguém chamou a atenção de Kalifornia Kaniveti para o ruído dos helicópteros «ali em baixo». «Que barulho é aquele?», «Ah, não deve ser nada. São os militares... dor de cabeça...»
«Mas não adivinharam que isto ia acontecer?», perguntaram-lhe durante a entrevista, «isto» referindo-se à guerra. Bulachu ouvia a entrevista, sentado por perto. Kalifornia Kaniveti ficou calado. Bulachu levantou o véu de silêncio sobre a história não registada. «Nós sabíamos que havia uma guerra lá longe. Nunca pensámos que ela viria ter connosco.» «Eles estavam a lutar uns contra os outros e não tinha nada que ver connosco», acrescentou de forma sucinta. Bulachu esqueceu-se de referir, ou optou por não referir, que nessa altura já se havia juntado à FRELIMO, após primeira ronda de conversações, no acampamento-base de Raimundo Dalepa. Quando lhe relembrámos este pormenor, no final das entrevistas, encolheu os ombros. «Guerra é guerra. São todas iguais.» Quereria ele dizer que estava decepcionado com a FRELIMO? A pergunta não lhe foi feita. Após uma curta pausa, esclareceu a ambiguidade das suas palavras: «Primeiro, sofremos contra os colonos. Depois, tivemos outra guerra. Guerra, guerra, guerra. Nós, o povo, sofremos. Continuamos a sofrer. Olhe para nós. Que ganhámos nós com toda esta guerra!»
Sadismo e fogo em Chaworha
O primeiro helicóptero chegou a Chaworha. Transportava os dois agentes da DGS e a terceira unidade da 6.ª Companhia de Comandos. Não foi possível confirmar este dado junto dos informadores. Chico e Johnny ordenaram a todos os habitantes que se reunissem perto do quintal do régulo. «Ficámos aqui, não, ali», explicou António, apontando para um determinado local. «Aqui, exactamente?», perguntámos-lhe. «Tem a certeza?» «Sim, aqui, exactamente aqui. Eu estava aqui... e o meu irmão estava atrás de mim. Nessa altura, não havia ervas, era tudo plano», apontando para um local situado a 60 passos da árvore que projectava a sua sombra sobre uma parte do quintal do régulo. A sequência dos acontecimentos a partir daqui não é clara. Os habitantes reuniram-se, gradualmente, à medida que eram retirados à força das suas casas por soldados de uniforme. Foi assim que os irmãos de Mixone foram surpreendidos quando se preparavam para fugir. Chico pediu ao visitante de Djemusse que levasse uma mensagem à aldeia de Wtriamu: «Diz ao régulo para convocar toda a gente, para bater o batuque.» Segundo disse, saiu a correr. Já tinha visto o suficiente. Sabia que escapara à morte por pouco. Chegou a Wiriamu e disse a alguém, não sabe ao certo a quem, que «eles iam chegar» e que deviam reunir-se. Depois de entregar a mensagem, correu até Djemusse para contar aos seus habitantes aquilo a que acabara de assistir e o que, na sua opinião, estava prestes a acontecer. Acabou por fugir de Djemusse. Anos mais tarde, perdeu a visão, por razões que não revelou. Recordou os acontecimentos daquele dia, já cego, mas com extrema clareza, quando se apresentou em Djemusse, com um bordão na mão, pronto para ser entrevistado.
Em Chaworha, a multidão foi crescendo. Johnny estava ao lado de Chico. Porque se haviam recusado a mudar-se para Mpharhamadwe, como lhes fora dito? O régulo Chaworha explicou que ninguém o tinha feito, aguardavam a garantia de que teriam acesso a água e a terrenos de pastagem para os seus animais. O pedido de Chaworha era razoável. Era sabido que os aldeamentos não tinham as condições necessárias para a prática da pastorícia -até as autoridades portuguesas o reconheciam. Diversos régulos tinham preferido migrar para territórios vizinhos a instalarem-se nesses aldeamentos.
Em frente, estava talvez o mais célebre de todos os marcos - a árvore de sombra reconfortante erguia-se diante do primeiro corredor da morte de Chaworha. Nesse momento, Consonbera foi avistado a caminhar em passo lento na direcção da árvore. Vinha do denso aglomerado de casas pertencentes a uma das sete famílias abastadas, situado à beira do riacho seco, perto do campo de futebol. Parecia alheio a tudo o que estava a acontecer perto do quintal, segundo contou António. Quando se aproximou da árvore, Johnny Kongorhogondo viu-o e disparou na sua direcção. Consonbera caiu no chão, morto.
Começou, então, a destruição de Chaworha. Pediram aos habitantes que batessem palmas e disseram-lhes: era agora. Iam morrer. Deviam preparar-se para se encontrar com o seu Criador. Um verdadeiro pandemónio instalou-se quando começou o tiroteio. Entre o grupo reunido junto do quintal do chefe Chaworha, 53 caíram no chão. Enquanto os restantes tentavam fugir, Chico Cachavi gritava: «Aphani Wense! Aphani Wense! Matem todos. Não deixem ninguém vivo. Nada de testemunhas.» O grupo de militares armados dividiu-se em dois. Um juntou os corpos num monte e ateou-lhes fogo com capim; o outro formou um semicírculo em volta da pira e preparou-se para atirar sobre eventuais fugitivos e sobre todos os que tentassem escapar do monte de cadáveres. António estava num extremo do amontoado de corpos, juntamente com o irmão mais novo, Domingo, que tinha quatro anos. Outros quatro conseguiram escapar. Os militares portugueses, «pretos e brancos», dispararam na sua direcção, contou António. «Corri depressa. Não olhei para trás.» Uma bala atingiu-o no ombro. Ignorando o ferimento, continuou a correr até estar a salvo.
Conseguira chegar à aldeia do régulo Matambo. «Éramos parentes.» Contou-lhe o que tinha sucedido. O seu outro irmão mais novo, Zeca, já lá estava. «Depois fui até ao rio», para se lavar. Voltou e pernoitou na povoação. No dia seguinte, um parente próximo que fazia parte da milícia portuguesa chegou à aldeia, de uniforme, para impedir que fosse capturado pelos militares portugueses que andavam em perseguição dos sobreviventes. Levou António ao hospital de Tete, onde trabalhava a irmã Lúcia, para que lhe tratassem a ferida. António saltou para a bicicleta. A partir daqui, o paradeiro do seu irmão mais novo é incerto.
Entretanto, o régulo Matambo ordenara ao seu povo que evacuasse a aldeia, caso fossem eles as próximas vítimas. Dias mais tarde, o régulo Trabuco, vizinho de Chaworha, visitou o local da carnificina. Contou 300 mortos e depois parou. Foi ele quem, alegadamente, contou o sucedido ao padre Ferrão com a ajuda de um intermediário cuja identidade continua envolta em mistério, mas que pode muito bem ter sido Kansande. O padre Ferrão não pôde confirmá-lo. Kansande não se lembrava se tudo isto era ou não verdade.
O súbito desaparecimento de Juwau
O morticínio em Juwau e em Wiriamu teve contornos menos sádicos. Alguns pormenores sobre a destruição de Juwau são conhecidos. As tropas da companhia de comandos começaram a limpar a povoação, quando o helicóptero ainda se preparava para partir. Há poucas provas sobre a forma como mataram os habitantes. Uma testemunha, que se escondera atrás de um canavial alto, numa ravina próxima, e que não conseguimos localizar, viu as tropas da primeira unidade da 6.a Companhia de Comandos, comandada por Antonino Melo, atirarem granadas para dentro de palhotas cheias de pessoas, enquanto outros disparavam sobre quem tentasse fugir. Assumindo como certa a utilização da táctica de lançamento de granadas, já descrita por Antonino Melo, será legítimo concluir que o relato desta testemunha não é uma versão exagerada da verdade. Ou seja, a destruição de Juwau, foi certamente rápida, cirúrgica, concisa e fria. Disso, podemos estar certos.
A outra testemunha foi Kalifornia Kaniveti, provavelmente o elemento mais lesto do grupo de homens reunidos no espaço de convívio de Juwau. Fugiu quando começou o massacre. Com uma cabra apoiada na nuca e uma criança pequena em cada braço, desceu o morro e atravessou a estrada que ia dar ao Cruzamento 18. Foi então que ouviu o ruído dos rotores, atrás de si. Baixou-se para «fugir às pás», disse, mas continuou a correr até não poder mais. Nessa altura, tropeçou e deixou cair a sua carga preciosa. «Olhei para o céu.» O helicóptero que pairava sobre a sua cabeça como uma libélula também parou, ficando praticamente imóvel. Viu o piloto fazer-lhe sinal para seguir na direcção de Mpharhamadwe. Pôs-se de pé e recomeçou a correr até tornar a parar e beber um pouco de água num ribeiro antes de o atravessar. O helicóptero deixou-o aí. Kaniveti terminou o seu testemunho, dizendo, «aquele piloto salvou a minha vida», sugerindo que se tratava de um pássaro misericordioso que lhe concedera uma segunda vida. Existem poucas razões para duvidar das palavras de Kaniveti quando atribui aos portugueses um gesto de misericórdia não corroborado. Talvez o piloto tivesse intenção de o salvar, ou talvez estivesse apenas a empurrá-lo para os braços de uma unidade de comandos. Como vimos, esta unidade prestava apoio logístico às tropas comandadas por Antonino Melo e fazia a vigilância da zona em busca de fugitivos. Kaniveti regressaria ao local do massacre alguns dias mais tarde. «Estava esfomeado e precisava de comida», explicou. A povoação estava deserta. As hienas já rondavam os cadáveres. Não se atreveu a ir à aldeia de Wiriamu. «Levei duas cabras comigo», referiu, e voltou para Mpharhamadwe, «onde assentei.» «Nunca mais lá voltei.»
Continua
in “O Massacre português de Wiriamu, Moçambique 1972”. Mustafah Dhada.
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