Tempos de Cólera

O aumento "inevitável" do preço dos combustíveis

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No momento em que estas notas são escritas, assiste-se a uma corrida, desenfreada e pouco inteligente, aos postos de abastecimento de combustível na ânsia de se adquirir a gasolina e o gasóleo antes das subidas, antecipadamente anunciadas, de 9 e 19 cêntimos respectivamente. Estamos curiosos sobre o que irá acontecer quando a inflação se generalizar a todos os produtos essenciais à vida das pessoas, o que será uma questão de pouco tempo – OCDE: Inflação chega aos 7,2% em Janeiro, a taxa mais alta desde 1991; Inflação acelera na Zona Euro para novo máximo histórico de 5,8% em Fevereiro; e em Portugal a inflação acelera para 4,2%.


O alarmismo com que se anuncia o aumento dos preços e da sua inevitabilidade, porque há a guerra (dizem eles!), é igual ou talvez superior ao difundido em relação às hipotéticas vagas avassaladoras e também ditas inevitáveis do vírus sars-cov-2, da doença covid-19 e do número de mortes provocadas. As mentes, previamente formatadas, irão aceitar como natural a inflação que se agora é ainda baixa, devido ao apoio financeiro às empresas por parte do estado com o pretexto do combate à pandemia e aos seus efeitos económicos (é bom relembrar), depressa irá disparar logo que se esgote esses financiamentos, que mais não são do que a transferência para a esfera pública das dívidas das empresas privadas, ou seja, dos capitalistas, nacionais e estrangeiros, que utilizam o estado como instrumento para defesa dos seus negócios - “Dívida Pública sobe em Janeiro para 272,4 mil milhões” e “IGCP emite até 1.000 milhões em dívida a 5 e 12 anos”. Por outro lado, fica bem claro aos olhos de todos os cidadãos que os governos, seja qual for o partido ou partidos que os integrem, são sempre os comités de negócios dos capitalistas; e os seus membros, por muito que pintem a cara de “socialismo” ou de “esquerda”, não passam de empregados da burguesia.


O governo do PS/Costa diz que vai prolongar e triplicar o apoio a combustíveis para táxis e autocarros e vai subir o desconto no Autovoucher de 5 para 20 euros para os cidadãos; no entanto, vai encaixar 11,5 milhões por dia com a subida dos combustíveis, dinheiro este que sai directamente dos bolsos dos trabalhadores. Aqueles apoios irão ser limitados no tempo, o governo não deixou de o esclarecer, não se comprometendo com a descida do imposto sobre os combustíveis, como os patrões do sector não se cansam de reclamar, e foi ainda mais longe, adiou apenas para melhores dias o futuro “imposto carbono”. Aliás, se alguma vez o ISP descer não significará preços mais baixos dos combustíveis, porque será aproveitado pelos patrões para aumentar a taxa de lucro. E são os lucros, no meio disto tudo, que estão em causa e são o fautor principal da guerra.


E a guerra, nos tempos modernos, resulta essencialmente da disputa entre as diversas potências capitalistas dominantes pela posse de recursos e zonas de influência. Mas não só. A guerra para o capitalismo tem também como objectivo destruir a produção excedente, que não se consegue escoar pela limitação do mercado, e as próprias forças produtivas, onde se inclui o factor humano. Destruir para reconstruir de novo e assim relançar a acumulação e concentração capitalista, sem as quais o capitalismo não sobreviverá, constitui a essência da economia dita de mercado. Relançar os lucros é vital para a sobrevivência dos capitalistas. Foi graças à II Guerra Mundial que a burguesia conseguiu resolver a grave crise económica de 1930.


 

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