Tempos de Cólera

Novas Cartas Portuguesas

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Alba


«Como se não houvera "


bosque mais secreto


(...)


Eugénio de Andrade


 


Maria atira para trás o lençol, devagar:


o calor do quarto empasta-lhe os cabelos num brando suor, às têmporas, ao pescoço, aos ombros, sobre a almofada; volta-se, consciente do silêncio da casa, do jardim imenso. O terrível silêncio do bosque:


«O bosque com as suas lenas sombras, as suas ternas saliências, o seu verde húmido de água; dunas. As suas dunas de pássaros adormecidos. A sua dormência uterina, a sua voragem quase monstruosa onde mergulharia, se envolveria, despida de si por completo».


 


- Mas que bosque, Maria, que loucura, que invenção? - diz ele enquanto a acaricia, lhe beija os peitos soltos sob o fato, não querendo ou podendo reparar-lhe no vazio dos olhos, no crispado dos lábios, na indiferença dos braços. No medo crescente, todos os dias maior, possessivo, envolvente, radical, por dentro das pupilas verdes, toldadas; um verde cinzento já sem transparências.


Uma manhã em que Ana se lhe demorou mais no colo, disse baixo, como se fosse um segredo entre as duas:


 


- «Anda minha filha, vamos para o bosque».


 


Depois riu-se, baixo, e correu as mãos pelo rosto, indo encostar a testa nos vidros mornos da janela que dava para o jardim imenso com as suas dálias, os seus crisântemos, os seus alucinantes malmequeres amarelos, a perder de vista.


 


-Que bosque, Maria? Mas que bosque... que caminho? Ali é o portão, depois as casas, as pessoas, Maria; mas que bosque estás sempre a inventar, que domínio, que bosque, meu amor; que rio, que desatino?


 


Maria atira para trás o lençol de linho branco, devagar; o calor da tarde agarra-se-lhe à pele, ao sono mal desfeito ainda, ao corpo que a camisa de noite, de tom ,rosado, dormente, exibe mais do que se estivesse nu.


Maria sai da cama, escorrega para o chão as pernas altas, levanta os braços e despe-se, entontecida, numa leve, leve tontura ou náusea a tomar conta de si... De pé, espera um breve segundo antes de contornar a cama, afastar os cortinados brancos, na renda larga, trabalhada; os cortinados assim como os lençóis, de branda fragância suspensa; os cortinados assim como a casa, de macia transparência a delinear a nudez, a delinear as ancas. As pernas longas, pálidas, tensas, vergam-se ao de leve, mas logo se firmam a aguentar do corpo o peso; as ilhargas quentes, secas, lentas; a cintura recurvada aos dedos, a toda a violência.


E brandos são os pés agora no lajedo aceso do terraço, sob o sol. Brandos no passo incerto, breve. Sereno o movimento posto de vidro no gesto cauto, vigilante.


Largo o risco traçado pela sombra que o corpo projecta, remove, doma, cresce e floresce na própria sombra. Enquanto Maria agora desce novamente, transpõe o perigo dos outros e desce ainda, no bosque que tão bem conhece, embora lá nunca tenha na realidade ido. Que meigas folhas a roçar os lábios, os seios na terra onde pernoita o tempo, o corpo recolhido, acolhido na erva, à mistura com o sabor ácido do rio. Maria fecha os olhos e sabe que adormece, ali tão a resguardo, tão tranquila, tão esquecida de tudo, tão desarmada, os joelhos erguidos, junto à boca, como nela estivera já a filha.


­­­­­­­­­­__________


 


Conversa do Cavaleiro de Chamilly


com Mariana Alcoforado à maneira de saudade


 


- De vossos peitos


   Senhora


   estou de vós lembrado


 


- De tua boca em tê-los


   e o medo


   de perdê-los


 


- De vosso ventre


   senhora


   estou de vós lembrado


 


- De teu leite cheio


   e chama


 tão acesa em sê-lo


 


- De vossas coxas


   senhora


   estou de vós lembrado


 


- De te serem


   tidas


   se queixam desvalidas


 


- De vossas artes


   senhora


   estou de vós lembrado


 


- De ti roubada


   nelas


   por mim tomada delas


 


- De vosso gemido


   senhora


   estou de vós lembrado


 


- De prazer o grito


   menor


  que o meu gemido


 


- De vosso orgasmo


   senhora


  estou de vós lembrado


 


- De teu corpo


   o campo


   do meu corpo o canto


 


- De vossa língua


   senhora


   estou de vós lembrado


 


- Na tua boca o suco


   no teu membro


   o espanto


 


9/4/71


 


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Texto de honra ou de interrogar, escrito por uma


mulher de nome Joana


 


Digo:


A mulher adúltera é ainda apedrejada de morte no Afeganistão e na Arábia Saudita.


 


(Pergunto:


Também o homem adúltero será apedrejado no Afeganistão e na Arábia Saudita?)


 


Digo:


Indirectamente, na América, como em tantos outros países, a lei protege uma estranha espécie de «pena de morte» aplicável às mulheres, ao lhe negarem o «contrôle» dos seus próprios corpos, conduzindo-as assim aos abortos ilegais: «calcula-se que morrem todos os anos por este motivo entre duas a cinco mil mulheres» na América.


 


(Pergunto:


Que fazem os cinco mil ou dois mil homens que engravidaram essas duas mil ou cinco ml mulheres mortas na América todos os anos?)


 


Digo:


Em Portugal a maior parte das mulheres não só e apenas são «escravas» do homem, como desempenham «alegremente», convictamente, o seu papel de mulher-objecto e não é necessário ser-se adúltera para se ser «apedrejada», aniquilada... basta que ela surja e fale como «um homem». E visto que também em Pol1tugal o aborto é ilegal (não lutando contra isso a mulher, aqui sempre passiva) e o conhecimento do aborto escamoteado da informação das pessoas que fingem entretanto ignorar o que ignorar já não se pode... Visto que então tudo parece estar certo e a mulher gostar deste seu papel subalterno e secundário onde se limita a ser mãe e mesmo quando formada escolhe o casamento como se profissão fora não remunerada ou remunerada através da cedência do seu próprio corpo e então iremos ter à prostituição pura e simples... Visto, pois, que tudo se passa deste modo «inofensivo» e benfazejo a contento de todos, que nos resta senão entrar em luta?


 


(Pergunto:


Irmãs, que Anas ou Marianas terão ainda de ser ressuscitadas ou quando vivas postas à prova, idiotizadas, fracas, frágeis por lei, conveniência, crença e religião?)


 


Digo:


Recusemos o engodo da ajuda masculina, não precisamos dela; ou, mais precisamente, não queremos aceitar essa «oferta» de Natal com lindo invólucro a disfarçarem a bomba que, certamente, mais uma vez, nos iria rebentar nas mãos, como sempre. Se somos nós a querer, seremos apenas nós a exigir.


Terminemos com mistificações e falsos pudores, quebremos até ao fundo toda a água onde nos afundamos e afundamos sem respiramos nuca.


 


(Pergunto:


Não teria chegado a altura de contarmos, por exemplo, o que sabemos acerca da verdade do nosso prazer na cama, denunciando claramente o jogo do homem ao tornar mito o orgasmo vaginal, acusando de frígidas as mulheres que se queixam de não irem até ao espasmo através do simples coito? Infelizmente caindo na armadilha da frigidez, torna-se a mulher mais uma vez e novamente aí, sua presa, sua inferior.


Permaneceremos caladas?)


 


Digo:


E virá quem, apesar de tudo, acuse de reaccionária a luta que se irá travar no longo caminho, extenuante, que terá a mulher portuguesa de percorrer sozinha com suas parcas armas. E virá quem agrida e de todos os lados surgirão gumes e farpas e nas nossas costas cairão nomes como pedras; mas putas ou lésbicas, tanto se nos faz que nos nomeiem, desde que se lute e não se perca.


 


(Pergunto:


Se outra alternativa não nos derem que a guerra aberta contra todo um sistema social que recusamos de base em que tenhamos de destruir tudo, inclusive se necessário as nossas próprias casas, recuaremos?)


 


Digo:


Ti-Grace Atkinson, teórica feminista de 29 anos, afirma:


«0 amor é a armadilha, a vedação de arame farpado, o eixo de opressão das mulheres num universo gozador. Que é o amor senão a necessidade ou o medo?


 


(Pergunto:


Terá a mulher alguma razão para acreditar ainda no amor? Para acreditar ainda no homem? Para crer ainda na sua libertação enquanto for aceitando o que se lhe tem proposto até hoje: companheira, colaboradora... ou seja: sempre o papel subalterno e doméstico no mundo à mistura com a obrigação de parir e lavar as fraldas dos filhos assim como aceitar o homem que a goza, quer na cama, quer socialmente, utilizand0-a nas tarefas mais mal pagas e menos sedutoras que ele se recusa a fazer?)


 


Digo:


Chega.


É tempo de se gritar: chega. E formarmos um bloco com os nossos corpos.


 


Joana


 


7/7/71


 


(“Novas Cartas Portuguesas” de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa. Editorial Futura, 1974)


 

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