Tempos de Cólera

NATÁLIA CORREIA — CEM ANOS

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NATÁLIA CORREIA


Natália de Oliveira Correia nasceu em 1923 na ilha de São Miguel (Açores), vindo criança para Lisboa, onde fez os seus estudos liceais.


Frequentemente arrumada pela crítica no cacifo surrealista, tem a autora a esclarecer que, se semelhante arrumo quadra à comunidade dos nossos fazedores de génios, de forma alguma define a sua poesia. Trata-se de um equívoco em que facilmente resvalam quantos não discernem a poesia senão através de esquemas. A verdade apresenta um aspeto totalmente inverso desta interpretação. Entendendo a poesia como substância mágica desorbitada da sua funcionalidade primitiva, que o poeta desespera por restituir  sua natureza orgânica primordial, a fim de a tornar eficaz na recriação do Mundo, por esta linha, «ante» e «pós» surrealista, se presta a poesia de Natália Correia a ser integrada num movimento que não inventou mas apenas focou esta intrínseca constante do fenómeno poético.


Publicou teatro, ensaio e os seguintes livros de poesia: Poemas (1954), Dimensão Encontrada (1957), Passaporte (1958), Comunicação (1960) e Cântico do País Emerso (1961).


O erotismo, como ressumbração de uma vivência amorosa individual, esta longe de caracterizar a obra desta poetisa. Todavia, no sentido lato de um universo erotizado, animado pela impaciência genesíaca de sucessivamente se exceder, é-lhe gradual o desenvolvimento da perspetiva erótica, que se afirma, sobretudo, em Cântico do País Emerso. Esta evolução corresponde a um aprofundamento do mistério telúrico da mulher, que é a própria jornada da sua poesia, resultando no comprazimento de se observar como força genesíaca, deslumbradamente atuante na cópula primordial que a terrena espelha.


COSMOCÓPULA


I


Membro a pino


dia é macho


submarino


é entre coxas


teu mergulho


vicio de ostras.


II


O corpo é praia a boca é a nascente


e é na vulva que a areia é mais sedenta


poro a poro vou sendo o curso de água


da tua língua demasiada e lenta


dentes e unhas rebentam como pinhas


de carnívoras plantas te é meu ventre


abro-te as coxas e deixo-te crescer


duro e cheiroso como o aloendro.


(Inédito)


(“Antologia de Poesia Portuguesa – Erótica e Satírica” de Natália Correia. Ponto de Fuga, 2019)


*


DA CLARA À NEGRA CIÊNCIA


Uma laranja cai


E o chão impede


Que ela infinitamente caia.


Impedimento


Ou o invento


De uma ciência


Que já foi gaya


E agora é triste-


Mente astronómica.


Raios a partam


A bomba atómica!


*


DURANTE O DEBATE DA LEI CONTRA O ALCOOLISMO


Num pais de beberrões


Em que reina o velho Baco


Se nos tiram os canjirões


Ficamos feitos num caco.


 


E querem os deputados


Com um ar de beatério


Que fiquemos desmamados


Quais anjos num baptistério.


 


Se o verde e o tinto são


As cores da nossa bandeira,


Ai, lá se vai a nação


Se acabar a bebedeira.


 


De abstemia não se faça


A lex neste plenário


Que o direito à vinhaça


Esse é consuetudinário.


*


NO SERVO ANINHA—SE O DÉSPOTA


A um deputado do PSD, ferozmente anti-comunista que, no seu fanatismo partidário, batia o mais grosseiro estalinista


Do pequeno-burguês tem, na medula,


A vérmina sabujo-partidária.


A fossanguice teimosa tem da mula


Em estalinismo de instrução primária.


 


Só perante o patrão é mole, é lula


Sua mínima alma funcionária.


Mas com a vara na mão, o vilão pula


E dá ordens em couces de alimária.


 


Comigo tal marmanjo baixe a bola


Que a palmatória desse mestre-escola


Eu lha faço engolir pelo bocal


 


Por onde expulsa asneiras a vapor;


Pois versos não me faltam nem humor


Para, com sátiras, forrar este animal.


*


«O acto sexual é para fazer filhos»


disse ele


Um poema de Natália Correia


A João Morgado (CDS)


 


«O acto sexual é para ter filhos» — disse, com toda a boçalidade, o deputado do CDS no debate anteontem sobre a legalização do aborto. A resposta em poema, que ontem fazia rir todas as bancadas parlamentares, veio de Natália Correia. Aqui fica:


 


«Já que o coito — diz Morgado —


tem como fim cristalino,


preciso e imaculado


fazer menina ou menino;


e cada vez que o varão


sexual petisco manduca,


temos na procriação


prova de que houve truca-truca.


Sendo pai só de um rebento,


lógica é a conclusão


de que o viril instrumento


só usou — parca ração! ­—


uma vez. E se a função


faz o órgão — diz o ditado —


consumada essa excepção,


ficou capado o Morgado.»


in Diário de Lisboa, 5 de Abril de 1982


*


UMA SÓ VOZ DE INUMERÁVEIS BOCAS?


De Eva a mulher astronauta


vivo todas as idades,


um fausto de lua lauta


no brilho das brevidades.


 


Canta-me um louco na pauta,


demónios e divindades


compartilham essa flauta


das minhas variedades.


 


O universo inventado


de noutros me perceber.


Tanto tempo utilizado


numa manhã, por nascer!


 


Sujeitos a estranhas leis


com a sua loucura a sós


solitários como os reis


os poetas dizem: nós.


 


E pela mesma magia


que ainda ninguém entendeu,


no côncavo da poesia


um deus que falta diz: eu.


 (“O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II”, Natália Correia. Projornal, 1993)

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