
Diários:
Coimbra, 25 de Abril de 1974 – Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada...
Coimbra, 27 de Abril de 1974 – Ocupação das instalações da Pide. Enquanto, juntamente com outros veteranos da oposição ao fascismo, presenciava a fúria de alguns exaltados que reclamavam a chacina dos agentes, acossados lá dentro, e lhes destruíam as viaturas, ia pensando no facto curioso de as vinganças raras vezes serem exercidas pelas efectivas vítimas da repressão. Há nelas um pudor que as não deixa macular o sofrimento. São os outros, os que não sofreram, que se excedem, como se estivessem de má consciência e quisessem alardear um desespero que jamais sentiram.
Coimbra, 1 de Maio de 1974 – Colossal cortejo pelas ruas da cidade. Uma explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão remetidas aos quartéis.
– Mais bonito do que a Rainha Santa... – dizia uma popular.
Segui o caudal humano, calado, a ouvir vivas e morras, travado por não sei que incerteza, sem poder vibrar com o entusiasmo que me rodeava, na recôndita e vã esperança de ser contagiado. Há horas que são de todos. Porque não havia aquela de ser também minha? Mas não. Dentro de mim ressoava apenas uma pergunta: em que oceano de bom senso iria desaguar aquele delírio? Que oculta e avisada abnegação estaria pronta para guiar no caminho da história a cegueira daquela confiança?
A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez..
(Diário XII . Coimbra Editora, 1977)
Coimbra, 10 de Maio de 1984 – A Queima das Fitas exumada. O desafio anarquista que esta festa já foi, e o conformismo burguês em que descambou! A opressão gera a revolta, e como, durante os anos da ditadura, a mocidade não tinha outra válvula de escape para descomprimir a angústia, fazia de cada carro um fortim de irreverência, de cada dístico uma provocação. Agora todas as liberdades lhe foram outorgadas. E, em vez de as aproveitar a desmedir a imaginação, a aguçar o espírito, banaliza-se numa glosa do comum, a exibir uma alegria que não tem, convencionalmente embriagada com maus vinhos. E o que era uma sagração juvenil, que eu ajudava a celebrar da janela do consultório, é um cortejo triste de uma geração sem história.
(Diário XIV . Coimbra Editora, 1987)