Tempos de Cólera

Manuel António Pina

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O Poeta:


A um Jovem Poeta


Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.


*


Junto à Água


Os homens temem as longas viagens,


os ladrões da estrada, as hospedarias,


e temem morrer em frios leitos


e ter sepultura em terra estranha.


 


Por isso os seus passos os levam


de regresso a casa, às veredas da infância,


ao velho portão em ruínas, à poeira


das primeiras, das únicas lágrimas.


 


Quantas vezes em


desolados quartos de hotel


esperei em vão que me batesses à porta,


voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!


 


E perdi-vos para sempre entre prédios altos,


sonhos de beleza, e em ruas intermináveis


e no meio das multidões dos aeroportos.


Agora só quero dormir um sono sem olhos


 


e sem escuridão, sob um telhado por fim.


À minha volta estilhaça-se


o meu rosto em infinitos espelhos


e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.


 


Só quero um sítio onde pousar a cabeça.


Anoitece em todas as cidades do mundo,


acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos


onde o meu coração, falando, vagueia.


("Poesia, Saudade da Prosa – uma antologia pessoal". Assírio & Alvim, 2011)


 *


O Cronista:


“Nascer de depois”


Os maus-tratos a crianças são um dos mais sórdidos capítulos da tragédia cultural portuguesa. Os jornais dão quase diariamente conta de crianças retiradas às famílias biológicas por aí serem vítimas de toda a espécie de sevícias, desde espancamentos até abusos sexuais que muitas vezes conduzem a mortes atrozes ou a lesões físicas e psicológicas irremediáveis. Retiradas aos pais, as crianças são depois confiadas a instituições onde, não menos frequentemente, o seu calvário continua. Foi assim agora na Casa do Sagrado Coração de Jesus em Évora, como antes tinha sido no Colégio dos órfãos do Porto e na Casa do Gaiato de Setúbal, todas ligadas à Igreja Católica. Em Évora, três freiras foram constituídas arguidas sob a acusação de sevícias em crianças acolhidas na instituição e ainda um motorista por abusos sexuais.


A madre superiora confirma que, ali, as crianças são, por vezes, "repreendidas tal como um pai faz com um filho". O problema é exactamente o de as crianças continuarem, em certas instituições, a ser tratadas como alguns pais fazem aos filhos. E talvez fosse exigível que a Igreja se preocupasse também um pouco, do mesmo modo que com o direito à vida intra-uterina, com o direito à integridade física extra-uterina das crianças a seu cargo.


(“JN”, 29/01/2007)


*


“Falar e não falar”


Segundo uma sondagem do “Diário de Notícias”, 58% dos portugueses discordam do envolvimento da Igreja na campanha do referendo sobre a despenalização do aborto. E ou muito me engano ou grande parte dos restantes 42% achará, por sua vez, que é o Governo quem deve calar-se. Está-nos no sangue querer calar os outros. Por algum motivo Salazar e Cunhal estão no topo de uma disputa de popularidade que por aí anda. O problema não é a Igreja falar; tem esse direito e, se calhar, esse dever. O problema é a Igreja calar-se vezes de mais, como vergonhosamente se calou durante os 48 anos de opressão de Salazar e como voltou a fazê-lo quando as coisas pareciam ir de feição a Cunhal. E é o modo como a Igreja fala quando fala. O discurso da Igreja na campanha do referendo tem sido o do terrorismo verbal, ameaçando, acusando, explorando a superstição e o obscurantismo, quando não, tão-só, mentindo. Comparar o aborto ao enforcamento de Saddam e as mulheres que abortam à al-Qaeda, lançar anátemas e excomunhões, usar imagens religiosas para explorar a fé dos crentes ou falsear o sentido da pergunta do referendo não é a forma mais escrupulosa de defender uma ideia, por justa que possa ser. Talvez seja por isso que tantos portugueses querem que a Igreja se cale.


(“JN”, 01/02/2007)

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