Tempos de Cólera

MALVADAS LÍNGUAS QUE DÃO FEL À FAMA



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Malvadas línguas que dão fel à fama



Dizem que nestes lúdicos quadrantes,

Os políticos querem é ter mama.

Como não hão-de querer se são lactantes?

 



Do tenro Alfaia o génio petroleiro

Já no berço os emires embasbacou.

Mal saltou o rebento do cueiro

Logo espantosa basta sobraçou.

 



Entre os gigantes sociais, um ás

Com chucha e birra na pueril veneta.

Todo o planeta assombra: é o Ferraz.

Como não há-de a CIP querer chupeta?

 



Muito a preceito dos cristãos fervores

Do CDS, o Lucas é o retrato

De um Menino Jesus entre os doutores

A meter Mestre Freitas num sapato.

 



Também o PSD lá nos seus topes

Um prodígio infantil com brio exibe.

É o pasmoso bebé Santana Lopes

Que PR há-de ser de arquinho e bibe.

 



Há ainda o Jaiminho que nas cristas

Do PS a singrar é mesmo um Gama.

Dá beliscões no Soares sem dar nas vistas.

Faça o que faça o puto não se trama.

 



Porém como o Marcelo neste mapa

A brincar aos cow-boys não há nenhum.

Passa rasteira: o mais subtil derrapa;

Dá ao gatilho da intriga e faz: pum-pum.

 



Onde os meninos de tudo são senhores

Forçoso é que da asneira haja fartura.

E se alguns deles são uns estupores,

É só por traquinice. É só candura.

 


Natália Correia (13 de Setembro de 1923 - 16 de Março de 1993)

In O Bisnau, nº 5. 1983


*


NOTÍCIA DE UM CASO TREMENDO QUE ABALOU O PARLAMENTO   


"Estava o Parlamento em tédio morno
Do Processo Penal a lei moendo
Quando carnal a deputada porno
Entra em S. Bento. Horror! Caso tremendo!


Leda à tribuna dos solenes sobe
A lasciva onorevole Cicciolina
E seus pares saudando ali descobre
O botão rosado da tettina.


Para que dos pais da Pátria o pudor vença,
Do castro bracarense o verbo chispa:
«Cesse a sessão em nome da decência
Antes que a Messalina mais se dispa.»


Mas - ó partidas que prega a estatuária! -
Que fazer no hemiciclo avesso ao nu
Daquela estátua que a nudez plenária
Ali ostenta sem pudor nenhum?


Eis que o demo-cristão então concebe
As vergonhas velar da escultura.
Honesta inspiração do céu recebe
E moção apresenta de censura:


«Poupado seja à nudez viciosa
O olhar parlamentar votado ao bem.
Da estátua tapem-se as partes vergonhosas.
Ponham-lhe cuequinhas e soutiens."


Natália Correia, “O sol nas noites e o luar nos dias. Lisboa”. Projornal, 1993



 

(Nota: Um retrato simples e fiel da “nossa” classe política”.
Alguns dos figurantes ainda são vivos e um deles até é PR, embora pense que é rei.)


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