
E A QUI ESTÁ COMO ME TRANSFORMEI EM CÃO
(Vot tak iá sdélalsia sobákoi)
Bem, isto é realmente intolerável !
Todo eu fui mordido pelo mal.
Mas não fico tão zangado como podia ficar:
como um cão cara de Lua e de testa sem pêlo –
saltava
e uivava.
Nervos, talvez....
Vou sair,
Passear.
Mas na rua com ninguém acalmei.
Uma mulher gritou-me boa noite.
É preciso responder
pois é conhecida.
Quero.
Sinto
que como homem não posso.
Que escândalo!
Estou a dormir ou quê ?
Apalpei-me:
tal como era,
o mesmo rosto a que me acostumei.
Os lábios toquei
mas só aí encontrei
um canino.
Tapei logo a cara, como se me assoasse.
Corri para casa a dobrar as pernas.
Passo em frente da esquadra cuidadoso
e, de repente, o grito fragoroso:
"Ó da guarda!
Ele tem um rabo!"
Movi o braço e estaquei!
Os caninos estavam piores,
e no rabo
durante a corrida não reparei:
debaixo do casaco
um rabo abanava
alçado,
enorme, canino.
E agora?
Alguém berrou, aumentou a multidão.
A outro juntou-se um terceiro e um quarto.
Uma velha foi atirada ao chão.
Benzendo-se, algo grita sobre o diabo.
E quando, os bigodes-vassouras repuxando,
a multidão se apinhou,
enorme,
maldosa,
eu pus-me de quatro patas no chão
e ladrei:
Ão! ão! ão!
(1915)
______
A vós!
(Vam!)
Vós, que viveis de festejo em festejo,
que tendes retrete e banho quente,
ao ler os jornais não tendes pejo:
os vossos nomes com a Cruz de Guerra?
Sabereis vós, bando bargante,
que só pensais em bem comer,
que talvez uma bomba neste instante
tenha arrancado uma perna ao tenente Petróv?...
Imaginai-o, levado prà carniça,
se, ferido, visse de repente
como vós, beiços sujos de iguarias,
Severiánin trauteais sensualmente!
Dar a vida por gente tão folgaz
que só quer mulheres e boa mesa?!
Prefiro ir servir sumo de ananás
para qualquer vulgar café de putas!
(1915)
______
A GUERRA ESTÁ DECLARADA
(Voiná ob'iavléna)
"É o 'da Tarde!' 'Diário da Tarde!' 'da Tarde!'
Itália! Alemanha! Áustria!"
E na praça, tristemente, pela plebe cercada,
sangue púrpura correu em esguichada !
O café partiu a cara até ao sangue,
com um grito de fera avermelhada:
"Envenenemos com sangue os jogos do Reno!
Trovões de balas ao mármore de Roma!"
Do céu, rasgado por picadas de insectos,
como farinha em peneira, lágrimas de estrelas,
e com solas pisando a piedade gritou:
"Ah, deixai, deixai, deixai!"
Generais de bronze em facetado pedestal
suplicaram: "Libertem-nos e iremos!"
Cavaleiros em despedida fizeram soar beijos,
e a infantaria queria ir à vitória.
À cidade reunida nasceu em sonhos
a voz ridente e de baixo do canhão,
e de Ocidente cai neve vermelha
como nacos sumarentos de carniça humana.
Venta na praça de companhia em companhia,
na malícia da testa latejam as veias.
"Esperem, sabres na seda de cocotes
limparemos, limparemos nos bulevares de Viena !"
Os ardinas gritaram: '"O jornal da tarde!
Itália! Alemanha! Áustria!"
E na noite, pela plebe tristemente cercada,
sangue púrpura correu em esguichada."
(20 de Julho de 1914)
Maiakovski, “Eu Próprio” – Poesia 1912-1916. Vento de Leste, 1979