
Rosario, dinamitera,
sobre tu mano bonita
celaba la dinamita
sus atributos de fiera.
Nadie al mirarla creyera
que habia en su corazón
una desesperación
de cristales, de metralla
ansiosa de una batalla,
sedienta de una explosión.
Era tu mano derecha,
capaz de fundir leones,
la flor de las municiones
y el anhelo de la mecha.
Rosário, buena cosecha,
alta como un campanario,
sembrabas al adversário
de dinamita furiosa
y era tu mano una rosa
enfurecida, Rosário.
Buitrago ha sido testigo
de la condición de rayo
de las hazafias que callo
y de la mano que digo.
Bien conoció el enemigo
la mano de esta doncella,
que hoy no es mano porque de ella,
que ni un solo dedo agita,
se prendió la dinamita
y la convirtió en estrella!
Rosário, dinamitera,
puedes ser varón y eres
la nata de las mujeres,
la espuma de la trinchera.
Digna como una bandera
de triunfos y resplandores,
dinamiteros pastores,
vedla agitando su aliento
y dad las bombas ai viento
del alma de los traidores.
Miguel Hernández

Não é «alta como um campanário», mas da manga direita do vestido emerge um coto, o da mão que se «transformou em estrela»! Esta mulher passou a maior parte do seu tempo na Guerra Civil no mítico Quinto Regimento, pertencendo à divisão do Campesino .
Aos 17 anos, Rosário era a única mulher da sua unidade e na trincheira cumpria os seus deveres de soldado da Segunda República Espanhola. Estava ali, de espingarda em punho, com o mesmo espírito com que o pai, em Sudrés Sanchez, Villarejo de Sabanés, nos arredores de Madrid, arrancava as placas toponímicas que exaltavam quem não representasse o espírito do povo. «Mas porque é que este gajo está aqui?» resmungava ele.
Um dia, nos finais do ano de 1935, autorizada pelos pais, Rosário foi, da sua aldeia para a capital, viver em casa de uma família amiga. Queria aproveitar o Curso de Corte e Confecção que era ministrado gratuitamente no Círculo Cultural Aida Lafuente, organizado pelas Juventudes Socialistas Unificadas.
«Cortávamos em papel seda e as professores eram profissionais. Sabe que ainda vive em Barcelona uma delas?»
Sorri continuamente e, daí a pouco, conta que no 18 de Julho, apesar da sublevação ser conhecida, apresentou-se no curso, como se nada tivesse acontecido. E na sala onde as raparigas tinham as suas aulas compareceu um jovem das Milícias Operárias a apelar para que quem pudesse fosse para a Frente. E havia uma frente ali nos arredores de Madrid.
«E as raparigas também podem ir?»
«Sim, podem.»
«Então aponta-me.» E lá foi. No dia seguinte, logo às oito da manhã, cinco camiões e autocarros cheios de gente de todas as idades, entusiasmados, a caminho da frente. Entretanto, haviam passado pelo Quartel da Montanha, no centro da capital, a recolher armamento. Eram todos jovens e cantavam hinos revolucionários. Rosário não era, como não se tomou, militarista, mas o seu sentido cívico estimulou-a para a única atitude possível. É que imediatamente se sentiu responsável pelo que poderia acontecer se os sublevados fascistas levassem a sua adiante. «Estava convencida de que se não se travavam os franquistas ficaríamos sujeitos a uma ditadura e seríamos nós, os trabalhadores, que passaríamos pior».
Recorda Rosário que durante a viagem, um jovem lhe perguntou o nome, mas logo a seguir quis saber se se aborrecia que lhe chamasse apenas Chacha. Não havia outra moça naquele transporte e Chacha, afinal, era o diminutivo de muchacha, rapariga. E esse foi o seu nome de guerra até que ganhou direito a que lhe chamassem dinamitera.
«Afinal, eu era ali a única rapariga. Ao meu lado, os rapazes mais novos diziam: Vamos lá depressa que se em casa dão pela minha falta, não me deixam ir!»
Quando chegaram aos arredores de Madrid, em Buitrago de Lozoya, apearam-se os jovens e, tal como a todos, a Rosário deram-lhe uma espingarda, cartucheiras, um prato, uma colher, uma manta, fato-macaco, um barrete.
«Recebíamos aquilo, estávamos muito contentes de irmos para a Frente mas, na verdade, não sabíamos bem ao que íamos! Ah, e também ninguém sabia nada de armas... Era uma ilusão ir defender a República. Depois tivemos quem nos desse aulas de política e nos ensinasse a disparar. E não tardou que fossemos todos para a Frente, para o fogo!»
E essa primeira frente em que teve o baptismo do fogo foi na chamada Pena del Alemán. E Rosário Sánchez recorda as palavras do seu instrutor de arma:
«Para aprender a disparar bastam três minutos. Toda a gente cai de costas quando dispara a primeira vez, depois já está.»
«Ferimentos?»
«A única vez foi quando fiquei sem a mão.»
«E o Campesino , o seu comandante, como era?»
«Era da Extremadura, muito valente, muito bom homem, muito de esquerdas e muito boa pessoa. Bem, isto apesar do que dizem... Na verdade, a Direita sempre tentou desprestigiá-lo...»
«No próprio PCE, de que ele era militante, a partir de certa altura, diziam dele cobras e lagartos...»
«Isso foi porque ele se demarcou de Estaline!»
E, por fim, a pergunta:
«Rosario, Dinamitera , porquê?»
«Ah, porque na unidade me nomearam a mim e a mais sete ou oito camaradas para dinamiteiros.»
«E o que faziam?»
«Bombas, claro. E atirávamos essas bombas ao inimigo! É que não tínhamos espingardas para toda a gente. Por exemplo, estive muito tempo a disparar com um mosquetão de cavalaria, que pesava sete quilos! Tínhamos uns quantos, que apareceram numa dependência do Quartel da Montanha. E em dada altura, um capitão asturiano de Sarna de Langreo, Emilio Gonzalez, que fora mineiro, disse ao Campesino que se os milicianos comessem leite condensado poderíamos fazer umas bombas e atirá-las. Não pareceu mal a ideia e logo na manhã do dia seguinte o pequeno almoço foi leite condensado com água e as latas aproveitadas para fabricarmos as bombas tal como nos ensinou esse capitão. Bem, nós preparávamos o explosivo e ele colocava, com os dentes!, a mecha e o fulminante. Poderia ter-lhe voado a cabeça em qualquer momento, mas tudo foi correndo bem. E, depois, nós, os dinamiteiros, atirávamos aquelas bombas na primeira linha de fogo.»
«Medo, alguma vez o sentiu?»
«Claro, mas só quando fazia de sentinela. Nas noites de lua, era tudo sombras ameaçadoras. E nas outras, é verdade que não se via nada! Mas nas sombras há vozes, quebram-se ramos e o ar também faz barulho, vê-se inimigos por toda a parte! Mas ninguém se recusava. Olhe, havia entre nós apenas um relógio de pulso que andava de mão em mão. As mais perigosas vigias eram as da meia-noite junto da linha da Frente.»
«E como ficou sem a mão?»
«Com uma bomba, evidentemente. Uma das vezes, mas em manobras, ao fazermos uma descarga cerrada, a que mais medo metia ao inimigo, eu era a última do grupo, houve uma hesitação e lá foi. Levaram-me para um hospital em Buitrago. Eu estava lá internada quando o filósofo José Ortega Y Gasset, que andava a visitar as linhas, soube que uma rapariga combatente ficara sem uma mão e foi-me ver. Os médicos estavam admirados de o terem ali! Perguntou-me quantos anos tinha e respondi-lhe que dezassete. Quis também saber se os meus pais já sabiam e eu disse-lhe que não, nem queria que eles soubessem. É curioso porque foi ele próprio que deu a notícia do acidente aos meus pais. – Conta-se que o pai, serenamente comentou: «Tenho cinco filhos e se cada um perder a mão pelo que esta a perdeu, bem perdidas estavam!» – E no dia seguinte voltou ao hospital a levar-me uma caixa de bombons e um frasco de água de colónia. Eu não queria aceitar nada. Porém, ele insistiu que aceitasse alguma coisa. E então eu pedi-lhe uma pulseirinha feita de balas como a que usava um que vinha com ele e parecia ser seu secretário...»
Passado pouco tempo, Rosário Sánchez abandonou o hospital e, embora pudesse regressar a sua casa dado ter ficado mutilada, a verdade é que se apresentou no Quinto Regimento, «pronta a fazer o que fosse preciso». O acidente registou-se em Buitrago e, segundo soubemos por outras fontes, a hesitação fatal para a mão de Rosário deveu-se ao facto desta querer dar tempo a que os seus camaradas se conseguissem pôr a salvo antes que a bomba estourasse. Só que mal teve tempo de a largar.
«Fui integrada como telefonista e depois passei a encarregar-me de uma unidade para feridos de guerra convalescentes, «El Hogar del Soldado», em Fresno de Torote.»
Fresno de Torote situa-se a 36 quilómetros de Madrid. A propósito, o coronel Pedro Mateo Merino, a cuja amizade devo o contacto de Rosário, no seu livro de memórias Por vuestra libertad y la nuestra (1986) descreve uma visita que então ali e fez:
...em Fresno de Torote, onde se encontrava o hospital de recuperação, visitámos os feridos convalescentes da brigada, entre eles muitos do quarto batalhão. Alojados no antigo palácio do marquês, desfrutavam de excelentes condições para o seu restabelecimento, especialmente no que se refere à higiene, à alimentação e à assistência médica. A directora do Centro era Rosário Sánchez Mora, La Chacha, uma jovem heróica, veterana lutadora de Somosierra, inválida de guerra, uma mulher cheia de coragem e inteireza, que havia sabido criar uma instituição modelo ao serviço dos combatentes. Depois regressaria à Frente, como telefonista, e responsável do correio de campanha divisionária. Dela fala Miguel Hernández no seu famoso poema Rosario, La Dinamitera.
Conforme refere o coronel Mateo Merino, Rosário passou a encarregar-se da distribuição do correio porque esse serviço estava um caos e era preciso resolvê-lo porque dele dependia em boa parte a moral dos combatentes, tanto mais que se travava a batalha de Brunete. Deram-lhe o posto de sargento.
«Tínhamos tropas em Quijorne e em Brunete e era preciso resolver...»
«Receou o serviço?»
«Não, nada. Mas nunca pensei que fosse tão perigoso! Eram duas enormes sacas de correio. Levava-as numa furgoneta preta de sete lugares. Ia eu e o motorista, além de um outro camarada, o Fita, muito culto, que só recebia as quotas partidárias. Diariamente saíamos às oito da manhã do nº l0 do Paseo del Prado, pela estrada de Fuencarral, atravessávamos EI Pardo e lá íamos até Quijorna. Aí encontrava-me com os carteiros das brigadas e entregávamos a cada um a saca de correspondência que lhe cabia, devidamente organizadas pelas nossas camaradas de Madrid. Uma vez um caça atacou-nos e fugimos os três da furgoneta. Os outros dois abrigaram-se logo e chamaram-me, mas eu seguia a pé ao longo de uma eira. Cuidava escapar melhor na vertical do que deitada. Mas o caça baixou, sempre a disparar, e acabei por me atirar para o abrigo deles, que estavam cobertos com uma manta. E ali estive até que o avião se afastou. Então tirei a manta de cima de nós e comecei a falar-lhes: Vamos, rapazes! E, de repente, apercebo-me que eram ambos cadáveres!»
(…)
No nº 39 do jornal de trincheiras Ayuda , datado de 23 de Janeiro de 1937, o poeta Miguel Hernández escreve:
Entre a dúzia de mulheres (algumas mais há) que leva a Brigada (a la Brigada Móvel de Choque, do Quinto Regimento, comandada por Valentín González, El Campesino) nas suas filas, destacam-se Rosário e Felisa. As duas são raparigas de dezoito anos: aquela, morena de olhos negros, e esta morena de olhos transparentes. Rosário tem um temperamento fogoso que se desafogou no Guadarrama fazendo bombas e lançando-as contra o inimigo. Envergonha-se que muitas mulheres vão presumir e a namoriscar às trincheiras. A dinamite comeu-lhe a mão direita, e ela diz que ainda lhe tem a esquerda para continuar a fazer bombas, trabalho que aprendeu com um mineiro asturiano, que deu a vida pelo povo nos barrancos da serra. Não pode estar quieta, inactiva. É mais útil com a única mão que lhe ficou do que muitos homens com duas e uma espingarda. Discute com o Campesino porque ele não a deixa aproximar-se das trincheiras, onde ela queria estar metida a todas as horas. Dá-me cá uma raiva não ser homem! – disse-me com a sua sinceridade de camponesa pura. E vi-a mais mulher do que nunca.
(José Viale Moutinho, “Trincheiras”. Editora Ausência. 2003)
Ver: https://mazo4f.com/100-anos-de-rosario-la-dinamitera-una-miliciana-historica