Tempos de Cólera

José Gomes Ferreira

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Liberdade


é também vontade.


 


Benditas roseiras


que em vez de rosas


dão nuvens e bandeiras.


 


*


 


(Durante dias e dias andei a ruminar estes


versos.)


 


A minha solidão


não é uma invenção


para enfeitar noites estreladas...


 


...Mas este querer arrancar a própria sombra do


[chão


e ir com ela pelas ruas de mãos dadas.


 


...Mas este sufocar entre coisas mortas


e pedras de frio


onde nem sequer há portas


para o Calafrio.


 


...Mas este rir-me de repente


no poço das noites amarelas...


- única chama consciente


com boca nas estrelas.


 


...Mas este eterno Só-Um


(mesmo quando me queima a pele o teu suor)


- sem carne em comum


com o mundo em redor.


 


..Mas este haver entre mim e a vida


sempre uma sombra que me impede


de gozar na boca ressequida


a sabor da própria sede.


 


…Mas este sonho indeciso


de querer salvar o mundo


- e descobrir afinal que não piso


o mesmo chão do pobre e do vagabundo.


 


…Mas este saber que tudo me repele


no vento vestido de areia...


E até, quando a toco, a própria pele


me parece alheia.


 


Não. A minha solidão


não é uma invenção


para enfeitar o céu estrelado...


 


...mas este deitar-me de súbito a chorar no chão


e agarrar aterra para sentir um Corpo Vivo a meu


[lado.


 


*


 


(Anos de seca, menos nos olhos dos pobres.)


 


Vem, sol,


doirar cinicamente


os cabelos de hoje


destas crianças esfarrapadas


que se atrevem a ser loiras


com olhos de trono azul.


 


Vem, sol,


tu que secas os rios


e os segredos dos poços


- e não deixas na terra


um charco para as estrelas


tremerem de luz despida...


 


Vem, sol,


secar estas lágrimas


dos olhos dos pobres.


 


Torna-os duros, implacáveis e frios


como canos de pistolas


nas manhãs coléricas de lobos.


 


*


 


(Um morto numa manifestação política. Coitado, já todos se esqueceram dele!)


 


Passei todo o dia a dizer ao meu coração


que não tinhas morrido em vão.


Mas morreste.


 


No fundo


que ficou a mais no mundo?


 


Outra bandeira de solidão


içada pelos mortos


num cipreste.


 


E nas pedras irreais


da rua concreta


- enfim desfraldada


neste planeta de brumas com cadeias -


a bandeira secreta


que trazias enrolada


nas veias.


 


Poesia III, José Gomes Ferreira. Círculo de Leitores, 1971

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