
Liberdade
é também vontade.
Benditas roseiras
que em vez de rosas
dão nuvens e bandeiras.
*
(Durante dias e dias andei a ruminar estes
versos.)
A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar noites estreladas...
...Mas este querer arrancar a própria sombra do
[chão
e ir com ela pelas ruas de mãos dadas.
...Mas este sufocar entre coisas mortas
e pedras de frio
onde nem sequer há portas
para o Calafrio.
...Mas este rir-me de repente
no poço das noites amarelas...
- única chama consciente
com boca nas estrelas.
...Mas este eterno Só-Um
(mesmo quando me queima a pele o teu suor)
- sem carne em comum
com o mundo em redor.
..Mas este haver entre mim e a vida
sempre uma sombra que me impede
de gozar na boca ressequida
a sabor da própria sede.
…Mas este sonho indeciso
de querer salvar o mundo
- e descobrir afinal que não piso
o mesmo chão do pobre e do vagabundo.
…Mas este saber que tudo me repele
no vento vestido de areia...
E até, quando a toco, a própria pele
me parece alheia.
Não. A minha solidão
não é uma invenção
para enfeitar o céu estrelado...
...mas este deitar-me de súbito a chorar no chão
e agarrar aterra para sentir um Corpo Vivo a meu
[lado.
*
(Anos de seca, menos nos olhos dos pobres.)
Vem, sol,
doirar cinicamente
os cabelos de hoje
destas crianças esfarrapadas
que se atrevem a ser loiras
com olhos de trono azul.
Vem, sol,
tu que secas os rios
e os segredos dos poços
- e não deixas na terra
um charco para as estrelas
tremerem de luz despida...
Vem, sol,
secar estas lágrimas
dos olhos dos pobres.
Torna-os duros, implacáveis e frios
como canos de pistolas
nas manhãs coléricas de lobos.
*
(Um morto numa manifestação política. Coitado, já todos se esqueceram dele!)
Passei todo o dia a dizer ao meu coração
que não tinhas morrido em vão.
Mas morreste.
No fundo
que ficou a mais no mundo?
Outra bandeira de solidão
içada pelos mortos
num cipreste.
E nas pedras irreais
da rua concreta
- enfim desfraldada
neste planeta de brumas com cadeias -
a bandeira secreta
que trazias enrolada
nas veias.
Poesia III, José Gomes Ferreira. Círculo de Leitores, 1971