
Pelos cirros ondulados
A lua passa furtiva,
Verte uns raios desmaiados
Na clareira sombria.
Pelo enfadonho caminho
Corre uma troika veloz,
Como nos cansam os guizos
Na monocórdica voz.
Canto longo do cocheiro
Traz tanta recordação,
A estróina alegre, o festejo,
Ou mágoa do coração.
Nem luz, nem uma izbá negra,
Deserto e neve... Somente
O marco listrado se ergue
Solitário à minha frente...
Triste, triste... Amanhã, Nina,
Estou de volta à minha amada,
Junto à lareira esquecido,
Sem fim, sem fim, a mirá-la.
A meia-noite o relógio
Baterá o fim da espera,
Vão-se embora os maçadores,
A hora não nos separa.
Que triste, Nina: o cocheiro
Já adormeceu na corrida.
Soam os guizos e mostra
A lua a cara franzida.
[1826]
REFUTAÇAO DO SR. BÉRANGER
Estareis lembrado, vossa senhoria,
Ó mossiú franciú, capitão merdento,
Como o nosso povo bem se alembraria,
Das sovas dos russos sobre a vossa gente?
Nem nos foi difícil: é que somos ossos
Duros de roer, e zurzimo-vos bem,
Foi assim outrora, diante dos nossos,
Então não te lembras, ó cona da mãe?
Lembras-te como Suvórov transpôs
Os montes e vos caçou, às sorrateiras,
Como o nosso velho foi o vosso algoz,
Vos esmagou na unha, pulgas carniceiras?
Nem nos foi difícil: é que somos ossos
Duros de roer, e zurzimo-vos bem,
Foi assim outrora, diante dos nossos,
Então não te lembras, ó cona da mãe?
Lembras-te de como, contra nós sozinhos,
A Europa toda acirrou Bonaparte?
Então vimos os cus de muitos francesinhos,
O teu, capitão merdoso, não ficou de parte!
Nem nos foi difícil: é que somos ossos
Duros de roer, e zurzimo-vos bem,
Foi assim outrora, diante dos nossos,
Então não te lembras, ó cona da mãe?
Lembras-te como ficou o vosso czar,
Esgazeado e nu, careca que nem pandeiro,
E vós no fogo de Moscovo a grelhar
As ratazanas moscovitas no braseiro?
Nem nos foi difícil: é que somos ossos
Duros de roer, e zurzimo-vos bem,
Foi assim outrora, diante dos nossos,
Então não te lembras, ó cona da mãe?
Lembras-te tu, ó cantor de aleivosias,
Do frio entre a nossa neve gelada
E do alegre calor das baterias,
Da baioneta, da cossaca laçada?
Nem nos foi difícil: é que somos ossos
Duros de roer, e zurzimo-vos bem,
Foi assim outrora, diante dos nossos,
Então não te lembras, ó cona da mãe?
Lembras-te, em Paris, o cossaco, o alferes
Ou o nosso pope que enquanto bebia
Troçava de vós, e as vossas mulheres
Tanto encomiava como as fodia?
Nem nos foi difícil: é que somos ossos
Duros de roer, e zurzimo-vos bem,
Foi assim outrora, diante dos nossos,
Então não te lembras, ó cona da mãe?
[1827]
Poemas retirados do livro “O Cavaleiro de Bronze e Outros Poemas”, Aleksandr Púchkin. Assírio & Alvim