Tempos de Cólera

JOÃO VILLARET – «o maior actor do teatro português»

 


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João Henrique Pereira Villaret nasceu no dia 10 de Maio de 1913, na sua casa da Rua da Boavista, n.º 69, segundo andar, em Lisboa, ali a dois passos do Tejo, o rio que viria a evocar em versos seus, quatro décadas mais tarde.


Era filho de Frederico Villaret, médico, e de Josefina Gouveia da Silva Pereira Villaret. O pai, além de médico ilustre, tocava também violão (segundo consta, muito bem) nas horas vagas. Um tio materno, Raul Pereira, era um excelente violinista, aluno de Rey Colaço, e veio a conquistar um primeiro prémio no Conservatório de Berlim. Este ambiente familiar não foi certamente alheio ao que aconteceu aos filhos deste casal: João foi actor, José desenhador, Carlos pianista e compositor, e Henrique médico.


Mas o menino João começou por mostrar grande entusiasmo pelo bailado; fazia exibições para a família e para os amigos que convidava a vê-lo em sua casa. Além disso, no andar de baixo, no mesmo prédio, existia o Clube Odeon, com o seu palco, aberto para os artistas amadores do bairro. «Muitas vezes desci as escadas, aos tombos, para entrar no teatrinho, onde gostava de brincar», contava o actor numa entrevista à revista Rádio Nacional, em 1949.


João frequentou um colégio inglês, o Anglo-Portuguese College, situado na Calçada Marquês de Abrantes, e dirigido por uma tal «Miss Price». O pequeno artista participou nos ensaios de uma récita anual dos alunos, mas Miss Price acabou por afastá-lo do espectáculo, dizendo que ele não tinha jeito para representar...


Por volta dos dez anos, adoeceu e foi obrigado a fazer um longo período de repouso, que o engordou bastante. Quando ficou bom, o excesso de peso impedia-lhe os movimentos e cansava-o quando queria voltar a fazer as suas exibições – ser bailarino não passava de um sonho.


Mas o teatrinho do Odeon continuava lá, a lembrar-lhe que mesmo um menino gordo podia ser actor. Na família, ninguém se opunha:


«Nunca houve tragédias em minha casa por eu gostar de teatro. Se apanhei alguma repreensão, foi por algumas vezes ter feito gazeta para ir ensaiar. Toda a minha família gostava de teatro e ninguém se opôs a que eu seguisse a minha vocação. Todos deliravam quando me viam mostrar as minhas habilidades nas festas escolares.»


(…)


João Villaret ainda foi festejado no Tivoli, a 30 de Dezembro de 1960. Mas não voltaria a representar — a doença agravou-se, até à morte no início do ano seguinte.


O actor gostava de dizer que, «quando represento, todo eu sou emoção pura e não raras vezes termino meu trabalho psiquicamente arrasado. ‘Empresto’ a minha alma à da personagem, tal como a imagino e vivo integralmente os seus problemas. Mas isto não implica a perda do domínio das minhas faculdades histriónicas. A sensibilidade pessoal funde-se com a da personagem, mas a lucidez do actor mantém-se intacta»


E ainda:


«Todos os heróis do teatro grego me apaixonam vivamente, de Édipo a Creonte, passando por Agamémnon. Há, porém, um, que existe em todas as peças e que particularmente me interessa: é o Homem, com todos os seus ideais, crimes, sonhos, grandezas e misérias. Esse é para mim o grande herói do teatro.»


João Villaret nunca perdeu a humildade nem deixou que os elogios da crítica e do público lhe fizessem perder a lucidez. Uma vez, no Teatro Avenida, pediu para tirarem o adjectivo «eminente» de um cartaz que o anunciava. «Chamem eminente a D. Palmira Bastos, que essa merece-o. Pode ser que um dia eu o seja. Agora ainda vou a caminho.»


Em 19 de Março de 1960, naquela que foi certamente a sua última entrevista, dada a dois jovens colaboradores do suplemento «Juvenil» do Diário de Lisboa, afirmou, como se fizesse o balanço geral da sua carreira:


«A minha arte é a arte do teatro porque acho que a arte do teatro é feita de um conjunto de artes de representação. Creio que justamente o estudo da dicção foi um bocadinho descurado em muitos actores, para se preocuparem apenas com a representação realista, e deixaram cair a pantomima, a dança, a dicção, que faziam parte integrante da arte do actor. Evidentemente que a minha preocupação de sempre é a arte do actor em si, mas não posso negar que uma das preocupações grandes que me tem dado a minha vida de artista, justamente por uma questão de natureza e de intuição, é, realmente, a interpretação poética. E como, de facto, a poesia tem uma força enorme, talvez seja essa também uma das razões que me levaram a estudar a poesia e a dizê-la.


«Desde que me estreei que oiço falar na crise do teatro e, noutro dia, passando em revista as Últimas Páginas de Eça de Queirós, também ali se falava na crise do teatro. Louis Jouvet dizia uma coisa muito verdadeira: ‘Em teatro só há um problema – é o êxito’: e quando o êxito aparece não há crise. Agora estou convencido de uma coisa, que hoje o teatro está com tendências para uma grande renovação em todo o sítio, em todo o mundo. Há, outra vez, um grande interesse pela arte viva do teatro, pela arte humana do teatro, A minha geração era muito pior do que a vossa porque, noutro dia, num espectáculo em que os estudantes estavam a assistir, no À Espera de Godot, de Beckett, comovi-me  profundamente com a recepção, com a forma maravilhosa como esses jovens de dezassete anos puderam sentir e compreender uma obra daquele jaez e daquela força. Isso quer dizer que a nova geração tem uma tendência para compreender a grande arte e a verdadeira arte do teatro.»


E dizia acreditar que tinha havido uma reabilitação, confirmada pelos nomes de Luís Francisco Rebelo e Costa Ferreira.


Quanto ao «anti-teatro», «é uma coisa que não existe. Tudo é teatro dentro do teatro. Pode ser um anti-teatro na forma convencional, naquilo que o teatro tem de censurável e de mau. Isso, realmente, talvez seja o anti-teatro a que Ionesco se queria referir. Mas Ionesco, ele é o próprio teatro, porque nunca vi ninguém entrar tão de repente, tão de palma nua dentro da acção teatral e dentro da forma teatral como esse admirável autor que se chama Ionesco. E Beckett não me parece que seja da mesma corda de Ionesco, se bem que seja um grande, um extraordinário poeta do teatro, com uma obra teatral muito pequena, infelizmente. Mas estou convencido que, no fundo, é como nos problemas musicais, todos contribuem, desde Vivaldi até Stravinsky, até Bela Bartok. Cada um contribui com a sua parte de música para a música, assim todos eles contribuem com a sua parte de teatro para o teatro. Para que é que os havemos de juntar numa assimilação intelectual, se não vale a pena? O que é preciso e que eles façam teatro como o sentem, e fazem-no. Por isso estão todos certos. Não acredito no anti-teatro senão no anti-teatro revolucionário, no sentido grande e nobre da palavra.


«Como sou actor, nunca me procuro encontrar a mim próprio num papel, mas sim o papel. Eu o que procuro, quando represento, é despersonalizar-me por completo, encontrar a alma, a vida, o cérebro da personagem que represento. Quantas vezes tenho representado papéis que, no fundo, me repugnam, mas que lhes dou tudo quanto posso, porque estou a fazer um serviço ao papel e não a mim próprio. Em todo o caso, há um papel que não se parece nada comigo e que gostaria de desempenhar como símbolo do que é a Humanidade, não que eu a admire, mas como castigo: seria o ‘Tartufe', de Molière. Acho que o ‘Tartufe’ é, de facto, um símbolo das tristes coisas que nós somos, e este gostaria muito de o interpretar. No teatro, meu Deus, tenho feito desde o ladrão até ao rei, e eu não sou rei nem ladrão...


«Procuro ser uma pessoa que o autor criou. Acho que o actor é um servidor do autor, e dentro disso é que está o seu plano de criação; na sua despersonalização completa, aquilo a que Gordon Craig chamava, simbolicamente, a ‘marionete’. A ‘marionete’ não é mais do que isso, porque nós não podemos representar como ‘marionetes’. A ‘marionete’ ideal do actor, de que ele falava, era o actor que se esquecia de si próprio e das suas ideias para ser total e completamente aquilo que o autor idealizou.»  


Sublinhou também que a arte ganhava quando era universalizada. «O que não quer dizer que uma arte nacional pura, perfeita, chamemos-lhe não-folclórica, não possa ser compreendida em toda a parte e possa chegar a todos os públicos. Não acho que a arte seja assim uma coisa para uso próprio das nações. Temos, por exemplo, Garcia Lorca, que é realmente um autor de uma profundidade imensa e um homem que escolheu sempre para seus motivos a Espanha. Mas foi o que eu já disse: sendo-se profundamente nacional pode-se ser profundamente universal, não no sentido folclórico, mas no sentido humanista.»


E ainda deixou uma mensagem à juventude:


«A minha mensagem, sobretudo em relação ao teatro, é que amem o teatro e que o façam, porque não há maneira melhor de amarmos as coisas do que fazê-las. Uma atitude intelectual e uma atitude muito bela e muito útil mas, mais do que isso, amarem o teatro, fazendo-o de qualquer maneira, não importa como nem quando. Façam-no, representem-no, dêem-lhe vida, porque o teatro é uma quarta dimensão, não é para se ler, é para se viver e para se fazer. Chamem-lhe ‘teatro experimental’ chamem-lhe ‘teatro universitário’, chamem-lhe ‘teatro de cooperativa’, chamem-lhe tudo o que quiserem, mas façam teatro, dêem vida a esse grande mistério.»


(JOÃO VILLARET – Uma Biografia. António Carlos Carvalho. Ulisseia, 2008)

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