Tempos de Cólera

João Paulo I: terá sido assassinado?

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O dirigente espiritual de cerca de um quinto da população do mundo detém um imenso poder: mas se alguém pouco informado observasse Albino Luciani no começo do seu reinado como papa João Paulo I teria dificuldade em acreditar que aquele homem encarnasse realmente tal poder. A timidez e humildade que emanavam daquele italiano de 65 anos, pequeno e tranquilo, levava muita gente a concluir que este papado não seria particularmente digno de registo. Contudo os bem informados tinham uma opinião diferente: Albino Luciani embarcara para uma revolução.


A 28 de Setembro de 1978 fazia trinta e três dias que era papa. Em pouco mais de um mês dera início a várias acções que, se levadas a cabo, haveriam de ter um efeito directo e dinâmico sobre todos nós. A maioria das pessoas deste mundo aplaudiriam as suas decisões, uma minoria ficaria abalada. O homem a quem tinham rapidamente dado a alcunha de «papa sorridente» tencionava arrancar os sorrisos a um certo número de caras no dia seguinte.


Nessa noite Luciani instalou-se para jantar na sala do terceiro andar do Palácio Apostólico dentro da Cidade do Vaticano. Com ele encontravam-se os seus dois secretários, o padre Diego Lorenzi, que trabalhara com ele durante mais de dois anos quando Luciani fora cardeal-patriarca de Veneza, e o padre John Magee, que entrara recentemente em funções, após a eleição do papa. Enquanto as freiras que trabalhavam nos apartamentos papais se atarefavam ansiosamente, Albino Luciani comeu uma refeição frugal de canja, vitela, feijão verde e um pouco de salada. Bebia de quando em quando um golinho de água e meditava nos acontecimentos do dia e nas decisões que tinha tomado. Nunca quisera aquele lugar. Nunca procurara ser papa, nem se metera em intrigas para lá chegar. Agora, como chefe de Estado, as suas responsabilidades eram preocupantes.


Enquanto as irmãs Vincenza, Assunta, Clorinda e Gabriella serviam em silêncio os três homens e estes viam na televisão as notícias que preocupavam a Itália nessa noite, outros homens, noutros lugares, sentiam-se profundamente inquietos com as actividades de Albino Luciani.


No andar abaixo dos apartamentos papais as luzes continuavam acesas no Banco do Vaticano. O presidente, o bispo Paul Marcinkus, tinha coisas mais importantes em que pensar do que a refeição da noite. Nascido em Chicago, Marcinkus aprendera a sobrevivência nas ruas escusas de Cícero, Illinois. No decorrer da sua ascensão meteórica até à posição de «banqueiro de Deus» tinha sobrevivido a muitos momentos de crise. Estava agora confrontado com o mais sério de toda a sua existência. Nos últimos trinta e três dias os seus colegas do banco tinham notado uma transformação visível no homem que controlava os milhões do Vaticano. O homem extrovertido, com os seus 1,90 m de altura e 100 quilos de peso, tornara-se tristonho e introvertido. Emagrecia a olhos vistos e o seu rosto tinha uma palidez cinzenta. Em muitos aspectos a Cidade do Vaticano é uma aldeia e é difícil guardar segredos numa aldeia. Marcinkus tinha ouvido dizer que o novo papa começara calmamente a fazer uma investigação pessoal ao Banco do Vaticano e, especificamente, aos métodos utilizados por Marcinkus para dirigir esse Banco. Vezes sem conta, desde a chegada do novo papa, Marcinkus lamentara aquele negócio feito em 1972 referente à Banca Cattolica deI Veneto.


O cardeal Jean Villot, secretário de Estado do Vaticano, era outro dos que ainda se encontrava sentado à secretária naquela noite de Setembro. Estudava a lista de entrevistas, demissões a pedir e transferências que o papa lhe entregara uma hora antes. Ele bem aconselhara, discutira, argumentara, mas sem resultados. Luciani mostrara-se inflexível.


Era, qualquer que fosse o ponto de vista, um novo e dramático baralhar das cartas. Encaminharia a Igreja para novas direcções; direcções essas que Villot e os outros da lista que iam ser substituídos consideravam altamente perigosas. Quando essas mudanças fossem anunciadas, milhões de palavras seriam escritas e pronunciadas pelos meios de comunicação mundiais, analisando, dissecando, profetizando, explicando. Mas a verdadeira explicação não seria discutida, não seria trazida a público – havia um denominador comum, um facto que ligava cada um dos homens que ia ser substituído. Villot sabia disso. Mais importante ainda, o papa também o sabia. Era um dos factores que o levara a agir: tirar a esses homens o poder real e colocá-los em posições relativamente inócuas. Era a Maçonaria.


As provas que o papa reunira indicavam que dentro da Cidade do Vaticano havia mais de 100 maçãos, de cardeais a padres. Isto apesar do facto de a Lei Canónica declarar que um Pedreiro Livre ficava automaticamente sujeito à excomunhão. Luciani estava também extremamente preocupado com uma loja maçónica ilegal que se ramificara por toda a Itália na sua busca de riqueza e poder. Auto-denominava-se P2. O facto de ter penetrado no recinto do Vaticano e recrutado padres, bispos e até cardeais fazia da P2 um anátema para Albino Luciani.


Villot já andava muito inquieto com o novo papado antes de rebentar esta última bomba. Era um dos muito poucos a estar ao corrente do diálogo que se travava entre o papa e o Departamento de Estado em Washington. Sabia que a 23 de Outubro o Vaticano receberia uma delegação do Congresso e que, a 24 de Outubro, a delegação teria uma audiência privada com o papa. Assunto: planeamento familiar.


Villot examinara cuidadosamente a ficha do Vaticano sobre Albino Luciani. Lera também o memorando secreto que Luciano, então bispo de Vittorio Veneto, enviara a Paulo VI antes da proclamação papal da encíclica Humanea Vitae, uma encíclica que proibia os católicos de usarem qualquer forma artificial de contracepção. As discussões que ele próprio tivera com Luciani não lhe haviam deixado qualquer dúvida quanto à posição do novo papa sobre o assunto. Na mente de Villot não havia igualmente dúvidas sobre o que o papa tencionava agora fazer. Alguns concordariam com a opinião de Villot de que se tratava de uma traição a Paulo VI. Muitos aplaudi-lo-iam como a maior contribuição da Igreja ao século XX.


Em Buenos Aires, outro banqueiro, Roberto Calvi, pensava no papa João Paulo I, enquanto Setembro de 1978 se aproximava do fim. Nas semanas anteriores tinha discutido os problemas postos pelo novo papa com os seus protectores, Licio Gelli e Umberto Ortolani, dois homens que podiam incluir, entre os seus muitos predicados, o controlo completo de Calvi, administrador do Banco Ambrosiano. Calvi andava acossado de problemas mesmo antes da eleição papal que colocara Albino Luciani na cátedra de S. Pedro. O Banco de Itália tinha andado a investigar secretamente o Banco de Calvi em Milão e isto desde Abril. A investigação fora induzida por uma misteriosa campanha de cartazes contra Calvi que rebentara em fins de 1977: cartazes que forneciam pormenores sobre algumas das actividades criminosas de Calvi e sugeriam uma série de actos criminosos à escala mundial.


Calvi sabia exactamente quais os progressos da investigação do Banco de Itália. A sua intimidade com Licio Gelli garantia-lhe um relatório diário. Estava igualmente ao corrente do inquérito papal ao Banco do Vaticano. Tal como Marcinkus, sabia que era apenas uma questão de tempo até que as duas investigações independentes compreendessem que uma sindicância a um desses impérios financeiros era uma sindicância a ambos. Estava a tentar tudo o que o seu considerável poder lhe permitia para desviar o inquérito do Banco de Itália e proteger o seu império financeiro do qual já tinha roubado para cima de um bilião de dólares.


Uma análise cuidada da situação de Roberto Calvi em Setembro de 1978 revela claramente que, se o sucessor do papa Paulo fosse um homem honesto, a Calvi não restaria senão a ruína total, o colapso do seu banco e certamente a prisão. Não há qualquer dúvida de que Albino Luciani era esse homem.


Em Nova Iorque, o banqueiro siciliano Michele Sindona, seguia também ansiosamente as actividades do papa João Paulo. Havia mais de três anos que Sindona lutava contra as tentativas do Governo Italiano para o extraditarem. Queriam levá-lo para Milão para responder a acusações de desvio fraudulento de 225 milhões de dólares. Em Maio daquele ano, Sindona parecia finalmente ter perdido a longa batalha. Um juiz federal declarara válido o pedido de extradição.


Sindona manteve-se nos Estados Unidos mediante o pagamento de uma caução de 3 milhões de dólares enquanto os seus advogados se preparavam para jogar uma última cartada. Exigiam que o Governo dos Estados Unidos provasse que a extradição era fundamentada. Sindona afirmava que as acusações que lhe eram feitas pelo Governo italiano eram obra de comunistas e de outros políticos da ala esquerda. Os seus advogados afirmavam também que o procurador de Milão sonegara provas que ilibavam Sindona e que, se este regressasse a Itália, seria quase certamente assassinado. O processo estava marcado para Novembro.


Naquele Verão, em Nova Iorque, outras pessoas agitavam-se igualmente em benefício de Michele Sindona. Um membro da Mafia, Luigi Ronsisvalle, assassino profissional, ameaçava a testemunha Nicola Biase, que tinha prestado declarações contra Sindona durante a audição do processo de extradição. A Mafia tinha também um «contrato» sobre a vida do advogado John Kenney que era o procurador-geral encarregado do processo de extradição. A tarifa para o assassinato do procurador era de 100 000 dólares.


Se o papa João Paulo I continuasse a escavar a situação do Banco do Vaticano, não haveria «contratos» capazes de impedir que Sindona fosse enviado para Itália. A rede de corrupção no Banco do Vaticano, que incluía a manipulação do dinheiro da Mafia através desse Banco, ultrapassava de longe Calvi: chegava até Michele Sindona.


Em Chicago, outro príncipe da Igreja Católica andava preocupadíssimo com os acontecimentos na Cidade do Vaticano: o cardeal John Cody, chefe da mais rica arquidiocese do mundo. Cody reinava sobre dois milhões e meio de católicos, cerca de 3 000 padres e 450 paróquias e tinha um rendimento anual cuja totalidade sempre se recusara a revelar a quem quer que fosse. Excedia, de facto, os 250 milhões de dólares. O segredo fiscal era apenas um dos problemas que se agitavam em torno a Cody. Em 1978, fazia treze anos que governava Chicago. Nesses anos, os pedidos para a sua substituição haviam atingido proporções extraordinárias. Padres, freiras, trabalhadores laicos, gente de muitas profissões seculares haviam enviado milhares de petições para Roma no sentido de afastar um homem que consideravam um déspota.


O papa Paulo debatera-se durante anos com a angústia de afastar Cody. Pelo menos uma vez armara-se de coragem e tomara a decisão, mas revogara a ordem no último instante. A personalidade complexa e torturada de Paulo explicava apenas em parte a sua vacilação. Paulo sabia que haviam sido feitas outras alegações secretas contra Cody, baseadas em provas substanciais que indicavam a necessidade urgente de substituir o cardeal de Chicago.


Em fins de Setembro, Cody recebeu um telefonema de Roma. A Cidade do Vaticano transmitia mais uma das suas informações – informações sempre bem pagas por Cody ao longo dos anos. O informador dizia que onde o papa Paulo vacilara, o papa João Paulo agira. O papa decidira que o cardeal John Cody tinha de ser substituído.


Sobre, pelo menos, três destes homens avolumava-se a sombra de um outro: Licio Gelli. Havia quem lhe chamasse Il Burattinaio – o Titereiro. As marionetas eram muitas e estavam colocadas em numerosos países. Licio Gelli controlava a P2 e, através dela, controlava a Itália. Em Buenos Aires, a cidade onde discutiu com Calvi o problema do novo papa, o Titereiro organizara o triunfante regresso ao poder do general Perón - facto que Perón reconheceu posteriormente, ajoelhando aos pés de Gelli. Se as várias acções planeadas por Albino Luciani ameaçavam Marcinkus, Sindona ou Calvi, era do interesse directo de Licio Gelli que a ameaça fosse afastada.


Era perfeitamente claro que em 28 de Setembro de 1978 aqueles cinco homens, Marcinkus, Villot, Calvi, Sindona e Gelli tinham muito a temer se o papado de João Paulo I continuasse. Era igualmente claro que todos eles tinham a ganhar sob muitos e variados aspectos se o papa João Paulo I morresse de repente.


Foi o que aconteceu.


Entre o fim da tarde de 28 de Setembro de 1978 e a madrugada de 29 de Setembro de 1978, trinta e três dias após a sua eleição, Albino Luciani morreu.


Hora da morte: desconhecida. Causa da morte: desconhecida.


Estou convencido de que a totalidade dos factos e das circunstâncias meramente delineados nas páginas anteriores detém a chave para a verdade da morte de Albino Luciani. Estou igualmente convencido de que um daqueles seis homens tinha já, na tarde de 28 de Setembro de 1978, dado início à acção que resolveria os problemas postos pelo papado de Albino Luciani. Um desses homens estava no cerne de uma conspiração que propunha uma solução unicamente italiana.


Albino Luciani fora eleito papa em 26 de Agosto de 1978. Pouco depois do Conclave o cardeal inglês Basil Hume dizia:


«A decisão foi inesperada. Mas logo que aconteceu pareceu total e inteiramente certa. A sensação de que ele era exactamente aquilo que precisávamos foi tão geral que mostrou ser ele, sem sombra de erro, o candidato de Deus.»


Trinta e três dias depois «o candidato de Deus» morria.


O que se vai seguir é o produto de três anos de investigação contínua e intensiva sobre essa morte. Estabeleci um certo número de regras para uma investigação desta natureza. Regra Número Um: começar pelo princípio. Determinar a natureza e a personalidade do morto. Que espécie de homem era Albino Luciani?


(“Em Nome de Deus” de David Yallop. Publicações D. Quixote. 2006)

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