
PARASITAS
No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar; em cima dum jumento,
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.
Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.
E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver esse quadro, apóstolos romanos,
Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,
Que andais pelo universo, há mil e tantos anos,
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

O PAPÃO
As crianças têm medo à noite, às horas mortas,
Do papão que as espera, hediondo, atrás das portas
Para as levar no bolso ou no capuz dum frade.
Não te rias da infância, ó velha humanidade,
Que tu também tens medo ao bárbaro papão,
Que ruge pela boca enorme do trovão,
Que abençoa os punhais sangrentos dos tiranos,
Um papão que não faz a barba há seis mil anos,
E que mora, segundo os bonzos têm escrito,
Lá em cima, detrás da porta do infinito!
SEMANA SANTA
(…)
Saiamos; rompe a aurora. A burguesia dorme
Como a jibóia enorme
Que ressona, depois de devorar um touro;
Ó jibóia feliz, ó burguesia, ó pança,
Dorme com segurança
Que a força está de guarda aos teus bezerros d'ouro.
E chama-se Progresso, ó Deus, esta farsada!
Isto é o cinismo alvar e em pêlo, à desfilada,
É a prostituição ignóbil da mulher;
São desejos brutais, é carne em plena orgia,
Enfim, a saturnal da pobre burguesia,
Que reza como o papa e ri como Voltaire.
Morrendo o velho Deus, o velho Deus tirano,
Este mundo burguês, católico-romano,
Encontrou-se sem fé, sem dogma, sem moral,.
Ajustiça era dele, o Padre omnipotente;
Esse padre morreu; ficou-nos simplesmente
Um único evangelho – o Código Penal.
A consciência humana é um monte de destroços.
Foram-se as orações, foram-se os padres-nossos,
Tombou a fé, tombou o Céu, tombou o altar;
E o velho Deus-castigo e o velho Deus-receio
É simplesmente um freio
Para conter a raiva à besta popular:
A crassa burguesia, essa récua fradesca,
Opípara, animal, silénica, grotesca,
Namora a Deusa-carne e adora o Deus-milhão;
E as almas, fermentando assim nesta impureza,
Resvalam, sensuais, do leito para a mesa,
Da mesa para o chão.
Vendem-se a peso d'ouro as lânguidas donzelas
Mais torpes que as cadelas,
Que ao menos dão de graça o libertino amor:
E o Dever; a Saúde, o Justo, o Verdadeiro,
Esses ricos metais fundem-se no braseiro
Dum sensualismo espesso, atroz, devorador:
A agiotagem, a bolsa, a cotação dos fundos,
É o princípio rei dominador dos mundos
É um sangue vital, forte como o conhaque.
Engordai, engordai, ó bravos homens sérios,
Que servis para dar esterco aos cemitérios
E música a Offenbach.
A vergonha morreu, a dignidade foi-se.
O mundo oficial é um vergonhoso alcoice,
E a plebe, tripudiando em hórridas orgias,
Lança sobre o Direito um pustulento escarro,
E acende, cambaleando, a ponta do cigarro
Na fogueira que abrasa o Louvre e as Tulherias.
A família é um bordel. Os leitos sensuais
São verdadeiramente esgotos seminais,
Eróticas latrinas,
Onde, entre o tumultuar dum debochado gozo,
Se fabrica de noite o sangue escrofuloso
Das raças libertinas.
Calemo-nos. Eu ouço as ferraduras de Árgus.
É a ordem e a Lei; correm a trotes largos;
Vêm nesta direcção, esconde-te, Jesus!
Metamo-nos aqui num beco, anda ligeiro!
Que, se sabem quem és, meu velho petroleiro,
Mandam-te pendurar segunda vez na Cruz.
(…)
O GENESIS
Jeová, por alcunha antiga – o Padre Eterno,
Deus muitíssimo padre e muito pouco eterno,
Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz!
Pôs-se a esgaravatar coo dedo no nariz,
Tirou desse nariz o que um nariz encerra,
Deitou isso depois cá baixo, e fez-se a Terra.
Em seguida tirou da cabeça o chapéu,
Pô-lo em cima da Terra, e zás, formou o Céu.
Mas o chapéu azul do Padre Omnipotente
Era um velho penante, um penante indecente,
Já muito carcomido e muito esburacado.
E eis aí porque o Céu ficou todo estrelado.
Depois o Criador (honra lhe seja feita!)
Achou a sua obra uma obra imperfeita,
Mundo sarrafaçal, globo de fancaria,
Que nem um aprendiz de Deus assinaria,
E furioso escarrou no mundo sublunar;
E a saliva, ao cair na Terra, fez o mal:
Depois, para que a Igreja arranjasse entre os povos,
Com bulas da cruzada, alguns cruzados novos,
E Tartufo pudesse ainda dessa maneira
Jejuar; sem comer de carne à sexta-feira,
Jeová fez então para a crença devota
A enguia, o bacalhau e a pescada marnota.
Em seguida meteu a mão pelo sovaco,
Mais profundo e maior que a caverna de Caco
E arrancando de lá parasitas estranhos,
De toda a qualidade e todos os tamanhos,
Lançou-os sobre a Terra, e deste modo insonte
Fez ele o megatério e fez o mastodonte.
Depois, para provar em suma quando pode
Um Criador; tirou dois pêlos do bigode,
Cortou-os em milhões e milhões de bocados
(Obra em que ele estragou quatrocentos machados),
Dispersou-os no globo, e foi desta maneira
Que nasceu o carvalho, o plátano e a palmeira.
[...]
Por fim, com barro vil, assombro da olaria!
O que é que imaginais que o Criador faria?
Um pote? Não; um bicho, um bípede com rabo,
A que uns chamam Adão e outros Simão. Ao cabo
O pobre Criador; sentindo-se já fraco
(Coitado, tinha feito o universo e um macaco
Em seis dias!), pensou: «Deixemo-nos de asneira!
Trago já uma dor horrível nas cadeiras,
Fastio... Isto dá cabo até duma pessoa...
Nada, toca a dormir uma sonata boa!»
Descalçou-se, tirou os óculos e o chinó,
Pitadeou com delícia alguns trovões em pó,
Abriu, para cair num sono repentino,
O alfarrábio chamado o Livro do Destino,
E enflanelando bem a carcaça caduca,
Com o barrete azul-celeste até à nuca,
Fez ortodoxamente o seu sinal da Cruz.
Como qualquer de nós, tossiu, soprou à luz.
E de pança pró ar; num repouso bendito,
Espojou-se, estirou-se ao longo do infinito
Num imenso enxergão de névoa e luz dourada.
E até hoje, que eu saiba, ainda não fez mais nada.
(“A Velhice do Padre Eterno”, Guerra Junqueiro. Publicações Europa-América, 2010)
Abílio Manuel Guerra Junqueiro (Freixo de Espada à Cinta, Ligares, 15 de Setembro de 1850 — Lisboa, 7 de Julho de 1923) foi alto funcionário administrativo, político, deputado, jornalista, escritor e poeta. Foi o poeta mais popular da sua época e o mais típico representante da chamada "Escola Nova". Poeta panfletário, a sua poesia ajudou a criar o ambiente revolucionário que conduziu à implantação da República. (Wikipedia)