O surgimento das guerrilhas em Galiza e Leão e o apoio dado pelas populações portuguesas raianas

Nos montes de Ferradillo, alguns dos guerrilheiros da Federación de Guerrillas de León-Galícia, no dia da sua fundação:

1. José Vega Seoane, Animas; 2. Pedro Voces Canóniga, Pitaciega ; 3. Guillermo Móran; 4. Eduardo Pérez Vega, Tameirón ; 5. Mário Morán; 6. Marcelino de la Parra Casas; 7. Antolín Murias, Paciencia ; 8. César Ríos; 9. Marcelino Fernández Villanueva, El Gafas ; 10. Abel Ares Pérez; 11. Pedro Lamas Cerezales, Pedrín ; 12. Victorino Nieto Rodríguez; 13. Cuñeira ; 14. Abelardo Macías Fernández, El Liebre ; 15. Manuel Girón Bazán; 16. Enrique Oviedo Blanco , El Chapa . (Foto de Arcádio Ríos, outro dos fundadores).
Enquanto isto, o Gafas retomava a ideia de imprimir alguma ordem e unidade na anarquia reinante entre os guerrilheiros, para ali cada um a puxar para seu lado ao sabor das circunstâncias e do improviso.
A ideia foi aceite pela maioria e César Ríos e Marcelino de la Parra encarregados da redacção dos estatutos. Aí se regulamentava, preto no branco, tudo o que a um guerrilheiro diz respeito: comandos, fardas, distintivos, armas, tácticas de sobrevivência, defesa e ataque, ética profissional, regras de comportamento, em todas as situações e lugares.
Um perfeito Manual do Guerrilheiro de cujos itens menciono apenas três: tribunais para julgar os prevaricadores, com penas que podiam ir até ao fuzilamento (1); obrigação de cada guerrilheiro apresentar um rol dos gastos da semana, de modo a conter as despesas e não sobrecarregar os «enlaces» ou apoiantes e diminuir os golpes económicos ou multas a curas, falangistas e outros fascistas, sempre susceptíveis de acarretar, sobre a guerrilha, a desconfiança das populações; no sentido de obediência aos partidos políticos, tanto as milícias como os guerrilheiros, são apolíticos. «O nosso lema é: união de esforços antifascistas.»
Em 2 de Abril de 1942, vinte e quatro delegados, reunidos nos montes Ferradilho, termo de Ponferrada, aprovavam os estatutos e elegiam a direcção. Assim nasceu a Federación de Guerrillas de León-Galícia, mais tarde subdividida em quatro agrupamentos: 1.º- León; 2.º- Ourense; 3.º- Lugo; 4.º- Corunha.
Lá estavam os nossos conhecidos Marcelino Villanueva, o Gafas , os irmãos César e Arcádio Ríos, os manos Mário e Guillermo Morán, Manuel Girón, Eduardo Pérez Vega, o Tameirón, Hilário Álvares Méndez, o Hilário.
O Gafas foi eleito comandante-chefe. Para lugares-tenentes, indicados Marcelino de la Parra, anarco-sindicalista, César Ríos e Mário Morán, socialistas.
A esse tempo, os comunistas não tinham peso nem representação na guerrilha galaico-leonesa. Apareceram mais tarde, aí por 1944, como adiante se dirá.
Nesse mesmo ano de 1942 se deu um facto de grande importância na vida dos guerrilheiros. «Enlaçaram» com Alexander Easton, engenheiro electrotécnico, natural de Edimburgo, encarregado da mala diplomática dos consulados de Vigo, Corunha e Gijon, proprietário duma vasta quinta entre Caracedo e Cacabelos e, ao que tudo indica, agente dos serviços secretos britânicos.
De início, El inglês ou El amigo , como os guerrilheiros lhe chamavam, pediu apoio numa cadeia de solidariedade que, a partir da fronteira francesa, ajudava a «passar» por Portugal evadidos do regime nazi. Os guerrilheiros disseram imediatamente que sim e ainda colaboraram na fuga de dois aviadores ingleses, cujos aviões haviam sido deitados abaixo na França. Breve, porém, El inglês se apercebeu, face à perseguição de que a guerrilha estava a ser alvo, do perigo que representava para os evadidos, viajarem em tal companhia.
Prescindiu da colaboração, mas continuou a dar-lhes apoio. Forneceu-lhes rádios para eles irem seguindo o desenrolar da Segunda Guerra Mundial; máquina de escrever para dactilografarem e distribuírem propaganda antifascista; uma enfermaria clandestina nuns anexos da quinta, onde os guerrilheiros feridos podiam ser tratados por médicos de confiança; uma multicopiadora para a confecção de um jornal, cujo primeiro número saiu em 1 de Abril de 1943. Chamava-se El Guerrillero e era impresso em casa da senhora Angustias Vidal, lugar de Santalla, em cujo rés-do-chão funcionava um bar e se davam bailes aos domingos e dias santos.
Os guerrilheiros aproveitavam o barulho da música e dos bailões para abafarem o ruído da impressora.
Os colaboradores habituais eram o Gafas , César Ríos, Mário Morán e um jornalista profissional oriundo de Madrid mas exilado em Toral de los Vados. Por razões óbvias, todos assinavam com pseudónimos.

Grupo de Socialistas evacuado pelo porto de Luanco em 1948, entre eles, o Gafas (1), César Ríos (2) e Antónia Rodriguez López (3).
Nesse mesmo ano começaram a aparecer as «contrapartidas», ou pseudoguerrilhas, compostas por falangistas, cadastrados, presidiários, desertores, marginais e outros que tais, dirigidos pela guarda-civil.
As forças da repressão sabiam que os guerrilheiros, sem o apoio das populações, estavam irremediavelmente perdidos. Por isso, deram ordens às pseudoguerrilhas para cometerem barbaridades: roubos, incêndios, violações, sevícias, assassinatos. Depois lá estava a propaganda oficial para atribuir esses crimes aos guerrilheiros e desacreditá-los perante a opinião pública.
Nos estatutos da Federação ficara estipulado que os guerrilheiros reuniam em congresso ordinário uma vez por ano e extra sempre que as circunstâncias o exigissem.
O primeiro realizou-se em Abril de 1943, nos montes Ferradilho. Para além de acertos de comando e de táctica, os congressistas deram especial atenção aos «enlaces», apoiantes ou colaboradores, a que eles chamavam «milícias passivas». Eram pessoas em cujas casas os guerrilheiros podiam pernoitar, comer, vestir-se de lavado, abastecer-se de víveres; mulheres de limpeza dos quartéis da guarda-civil; donos ou donas de bares, cafetarias, restaurantes e similares, sempre de ouvido atento, à cata de informações que depois passavam à guerrilha. Houve até o caso dum radiotelegrafista da guarda-civil que transmitia aos guerrilheiros as ordens e mensagens que lhe passavam pelas mãos. Toda essa gente era, sobremaneira, vulnerável. A guarda-civil, a polícia, o exército, os falangistas, os sometens, ceifavam neles como seitoira afiada em seara madura.
Andam por aí relatados inúmeros casos em que as forças repressivas, após a denúncia de algum chibato , termo espanhol que equivale mais ou menos ao nosso bufo, cercavam casas onde sabiam estar guerrilheiros. Começavam por intimar os sitiados à rendição. Claro que eles não se rendiam. Estabelecia-se o tiroteio. Salvo raras excepções, os guerrilheiros conseguiam romper o cerco e retirar, com ou sem baixas e feridos de parte a parte. Uma coisa era certa. Os agressores acabavam sempre por incendiar as casas e ferirem de morte quem nelas encontrassem. Desapareceram, por este processo, famílias inteiras. Caso elucidativo e comovente, o de uma senhora (2) que tinha guerrilheiros em casa e foram cercados. Ela pediu uma carabina e disse aos hóspedes que fugissem enquanto ela os protegia. A casa tinha várias janelas. Ela corria duma à outra, de modo a dar ao inimigo a ilusão de vários atiradores.
Às tantas, acabaram-se-lhe as munições e calou-se.
Os sitiantes avançaram. Ela recebeu-os de arma na mão. Perguntaram-lhe pelos «bandoleiros».
- Aqui não está ninguém.
- Então quem atirava?
- Eu.
- Só tu?
- Só eu, cobardes.
Crivaram-na de balas.
- Viva a República! - gritou ela antes de tombar no limbo dos mártires da liberdade.
Por esta e outras é que os delegados ao segundo congresso sentiram a necessidade de proteger as milícias passivas, também designadas por Combatientes de Llano sem as quais a sobrevivência da guerrilha seria impossível.
Posto o assunto à discussão, foi deliberado o seguinte: dar-lhes um estatuto semelhante ao da Federação, isto é, agrupá-las em zonas estratégicas, cada qual com os seus dirigentes, e criar um comando ambulatório que percorresse toda a zona e orientasse táctica e ideologicamente todos aqueles que estivessem dispostos a colaborar no derrube do Caudilho , eliminar, sem apelo nem agravo, denunciantes e traidores, de um modo especial os antigos «enlaces» entretanto passados ao serviço do inimigo; manter os guerrilheiros sempre informados das aldeias e das casas de confiança e daqueloutras onde era expressamente proibido pôr os pés; recorrer aos apoiantes o mínimo possível, de modo a não lhes complicar a vida.
Esta a génese da organização que passou à história com o nome de SIR (Serviço de Informação Republicana) na qual colaboraram milhares de pessoas de todas as categorias sociais.
Em meados de Abril de 1943, Alexander Easton, no regresso de uma das suas habituais viagens diplomáticas a Madrid, disse aos guerrilheiros que um indivíduo chamado Pepe queria falar com eles. Viesse lá o Pepe. E ele veio. Ao apresentar credenciais revelou chamar-se José Maria Urquiloa Iglesias, o Chema , operário metalúrgico de Oviedo e dirigente do partido comunista das Astúrias. Mas não era nesse papel que ele ali estava. Era noutro. E gostaria de ter os guerrilheiros todos juntos para lhes falar no assunto.
Responderam-lhe que os guerrilheiros andavam dispersos por montes e povoados de várias comarcas e era praticamente impossível juntá-los. Quando muito, poder-se-ia tentar reunir os chefes ou quem eles designassem. O Chema concordou. E os guerrilheiros convocaram um congresso, o segundo, para ouvir o que o homem tinha para lhes dizer.
Reuniram de novo nos montes Ferradilho. Corria o mês de Junho.
O Chema falou-lhes detalhadamente da União Nacional, organismo de matriz soviética e difundido pela Internacional Comunista, criado oficialmente em Novembro de 1942, no congresso de Grenoble, França, por representantes dos partidos comunista e socialista, da UGT, da CNT, republicanos, todos os quadrantes da esquerda e até alguns da direita, entretanto desiludidos com a política do caudilho. Que a dita União Nacional estava a despertar grande interesse nos espanhóis exilados, principalmente nos da América Latina. Que ele, Chema, tinha credenciais, cujas exibiu, para negociar com os guerrilheiros de León-Galícia, a sua, deles, adesão.
Os congressistas congratularam-se com a existência de uma frente comum de combate à ditadura, mas aquela história da União Soviética e da Internacional Comunista, deixava-os de pé atrás. Precisavam de amadurecer o assunto. E marcaram novo congresso para Setembro, no mesmo local.
Compareceram com a lição estudada. Adeririam à União Nacional, sim senhor, mas com uma ressalva: continuarem a reger-se pelos estatutos da Federação e a orientar-se pelas directrizes do seu Estado Maior.
Chema anuiu. E, antes de se despedir, confessou-se impressionado com a sólida estrutura da Federación de Guerrillas de León-Galícia e do SIR e pediu cópia dos respectivos regulamentos para fornecer, como exemplo e modelo, a todos os guerrilheiros de Espanha.
Por esses dias, chegavam aos montes da Galiza notícias animadoras. Hitler estava a perder terreno no norte de África e na Rússia. As guerrilhas gregas, jugoslavas e demais países ocupados estavam a dar água pela barba aos usurpadores alemães. Circulavam boatos de que as tropas aliadas iam desembarcar algures, na Europa. Tudo indicava que o terceiro Reich ia perder a guerra.
Ora tendo Franco subido ao poleiro apoiado em Hitler e Mussolini, tinha uma certa lógica pensar que os Estados Unidos, a França e a Inglaterra, depois de se terem desfeito do Führer alemão e do Duce italiano, se iriam desfazer também do Caudillo espanhol.
Fiados nesta hipótese, a todos os títulos aceitável, os guerrilheiros começaram a orientar a sua acção em dois sentidos. Primeiro, intensificar a luta, de modo a transmitir aos Aliados a ideia de que a Guerra Civil espanhola continuava. Segundo, prepararem-se para tomar conta do poder, não propriamente eles, mas o Governo Republicano no exílio. Curioso é que, também entre os partidários de Franco, a provável derrota de Hitler principiava a causar desassossego. Os que haviam aproveitado a transição da República para a ditadura para subir na vida, começavam agora a preparar-se para fazer o trajecto inverso. Muitos daqueles que, em 1936, haviam corrido a filiar-se na Falange, rasgavam agora os cartões. Pertencer à Falange, já não dava poder nem prestígio a ninguém. Pelo contrário, o que estava a conferir importância social e política a um fabiano, era uma ligação evidente à guerrilha ou a um partido de esquerda. Até as forças repressivas comungavam do mesmo sentimento. Daí uma espécie de tratado de não agressão entre elas e a guerrilha.
Quando a Guarda-Civil recebia ordens de passar busca a determinada aldeia ou monte, ao aproximar-se do local, fazia sinais de tiros ou toques de buzina de carro para os guerrilheiros retirarem. Estes aproveitaram esta espécie de tréguas para se dedicarem a actos de sabotagem e propaganda antifranquista. Rebentaram com vias-férreas, linhas de alta tensão, telégrafos e telefones, instalações mineiras, centrais eléctricas. Entravam nas povoações à luz do dia, reuniam o povo, faziam-lhes prédicas.
Notas:
1) Eram considerados crimes graves: a deserção, a denúncia, o uso de armas contra companheiros ou apoiantes, assaltos a pessoas afectas aos guerrilheiros e, o pior de todos, a violação, sempre punida com a pena capital. Uma das cláusulas mais simpáticas dos estatutos era a que estipulava um subsídio aos companheiros feridos ou inutilizados.
2) Manuela Sánchez, de 53 anos, residente em S. Vicente de Carres, Cesures, a quem Rafael Alberti dedicou um poema:
Sangre de Manuela Sánchez!
Sangre preciosa de España!
Juntamente com ela, a guarda-civil assassinou mais três pessoas: Jacinto, Maria e Manuel, respectivamente pai, irmã e marido da heroína.
(Capítulo “O nascimento da Federación de Guerrillas de Léon-Galícia e do jornal “El Guerrillero” do livro “Guerrilheiros anti-franquistas em Trás-os-Montes de Bento da Cruz, Editora Âncora, 2003. Lisboa)