
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
E fazes-me tua mina
Patrão!
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
Para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não
Patrão!
Eu sou carvão!
E tenho que arder, sim
E queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão!
Tenho que arder na exploração
Arder até às cinzas da maldição
Arder vivo como alcatrão, meu irmão
Até não ser mais tua mina
Patrão!
Eu sou carvão!
Tenho que arder
E queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu serei o teu carvão
Patrão!
Imprecação
... Mas põe nas mãos de África o pão que te sobeja
e da fome de Moçambique dar-te-ei os restos da tua gula
e verás como também te enche o nada que te restituo
dos meus banquetes de sobras.
Que para mim
todo o pão que me dás é tudo
o que tu rejeitas, Europa!
Guerra
Aos que ficam
resta o recurso
de se vestirem de luto
Ah, cidades!
Favos de pedra
macios amortecedores de bombas.
Cântico do pássaro azul em Sharpeville
Os homens magros como eu
não pedem para nascer
nem para cantar.
Mas nascem e cantam
que a nossa voz é a voz incorruptível
dos momentos de angústia sem voz
e dos passos arrastados nas velhas machambas.
E se cantam e nascem
os homens magros de olheira funda como eu
não pediram a blasfémia
de um sol que não fosse o mesmo
para uma criança banto
e o menino africânder.
Mas homens somos
e com o mesmíssimo encanto magnífico
dos filhos que geramos
aqui estamos
na vontade viril de viver o canto que sabemos
e tomar também uma vida
a vida de voluntário que não pedimos
nem queremos
e odiamos na ganga africana que vestimos
e na ração de farinha que comemos.
E com as sementes rongas
as flores silvestres das montanhas zulos
e a dose de pólen das metralhadoras no ar de Sharpeville
um xitotonguana azul canta num braço de imbondeiro
e levanta no feitiço destes céus
a volúpia terrível do nosso voo.
Sharpeville e Cato Mannor, África do Sul, lugares onde ocorreram repressões policiais sangrentas sobre trabalhadores africanos, em 1960
Ninguém
Andaimes
até ao décimo quinto andar
do moderno edifício de betão armado.
O ritmo
florestal dos ferros erguidos
arquitectonicamente no ar
e um transeunte curioso
que pergunta:
- Já caiu alguém dos andaimes?
O pausado ronronar
dos motores a óleos pesados
e a tranquila resposta do senhor empreiteiro:
- Ninguém. Só dois pretos.
José João Craveirinha , natural de Maputo onde nasceu a 28 de Maio de 1922, numa casa de madeira e zinco à entrada de Xipamanine – «São marcas que ficaram até hoje. Esse período em que eu não ia aos subúrbios, em que eu nasci e era, continuei a ser, dos subúrbios, mesmo quando deixei de morar lá. Porque houve um período em que vou morar na 24 de Julho, numa casa que para esse tempo, era uma casa apalaçada, com o meu pai e a minha madrasta que tinha vindo de Portugal e que fez questão que os filhos do meu pai fossem viver com eles. Ora, apesar disso, aqueles elos subsistiram».
Foi autodidacta: «Eu e o meu irmão andávamos na escola primária; mas depois houve uma separação porque o meu pai morre, e os estudos do meu irmão, do liceu, eram suportados pelo Montepio, eram uma concessão para o filho varão, o primogénito, de um pensionista, não dava para dois. Então eu já não tive a mesma oportunidade de entrar no liceu. Então só fiz praticamente a quarta classe (...) então o meu irmão é que me dava explicações em casa.».
Iniciou a sua actividade jornalística no “Brado Africano”. Mais tarde trabalhou no jornal “Notícias” (onde durante muitos anos mantém uma coluna semanal "Contacto"), “Notícias da Beira” (onde volta a assinar uma coluna semanal - "Recontacto"), “Tribuna”, “Cooperador de Moçambique” e “Tempo”.
A sua obra poética é unanimemente reconhecida como uma das mas originais no espaço da língua portuguesa, tendo, por isso, recebido o prémio Camões, em 1990.
«Comecei a escrever poesia muito cedo. Versos, devo-lhe confessar, comecei a escrevê-los aos 11 anos de idade. Na escola eu já fazia versos às meninas... e depois da escola, a minha primeira fase de tentativa poética é em sonetos. Já conhecia a poesia de Rui de Noronha mas era mais a poesia portuguesa (...) e eu estava convencido que era de que era a melhor forma, a forma mais relevante de fazer poesia era sonetos».
«Depois disso, não escrevo poesia, começo a escrever contos. Já tinha feito alguns, mas simplesmente para tapar buracos n'O Brado Africano – era preciso cobrir um determinado espaço e inventava um contozinho para pôr ali... – então eu retomo, já para escrever contos. E tenho um caderno de contos que também fico sem ele. Em 1949 a PIDE vai lá a casa passar uma rusga e levou o caderno».
Como dirigente associativo, desempenhou um papel de relevo na vida da associação Africana de Lourenço Marques, desde a década 50, tendo chegado a desempenhar a função de presidente de direcção daquela colectividade. Durante a década de 40 juntamente com a Noémia de Sousa, Ricardo Rangel, Dolores Lopes, redigiram uma carta exigindo a independência de Moçambique.
A sua actividade política, a favor da causa da independência, levou à sua prisão entre 1965 e 1969, onde escreveu os poemas do livro “Cela 1” (”O meu preço”):
Eu cidadão anónimo / do país que mais amo sem dizer o nome / se é para me dar de corpo e alma / dou-me todo como daquela vez em Chaimite. / Dou-me em troca de mil crianças felizes / (...) / e ao vento da minha terra uma grande bandeira sem quinas. // Se é para me dar / dou-me de graça por conta disso. // Mas se é para me vender / vendo-me mas vendo-me muito caro. // Ao preço incondicional / de quanto me pode custar este poema.
«A poesia para mim é uma coisa que nunca se confundiu com versos. Era para mim uma ferramenta de reivindicação, uma ferramenta em que eu me ocultava para me projectar depois, já como outra coisa, através da poesia. Os meus poemas têm sempre um alcance social, socio-político. Mesmo quando agarro numa flor, é para dar a essa flor uma outra imagem… A poesia para mim é um instrumento e, muito, um refúgio para uma série de dramas interiores.».
Quando uma vez lhe disseram em Lisboa: “Essa coisa da poesia não se vende! Hoje, queres ganhar dinheiro, tem de ser prosa”, Craveirinha respondeu: «é verdade, se puseres dessa maneira, é verdade que os poetas vendem-se menos que os prosadores. Porque eles, quando transfiguram a realidade, estão a ser mais fiéis que os prosadores. E é por isso que se vendem menos. Porque as pessoas não querem ter o trabalho de ir ao encontro do poeta – porque o poeta vai sempre mais longe, vai para além do que as palavras dizem...»
Morre a 5 de Fevereiro de 2003, com 80 anos, malquisto com o governo da Frelimo a quem fez severas críticas e profundamente desgostoso com a situação política e social do seu tão amado Moçambique. É considerado o maior poeta africano de língua portuguesa de todos os tempos.
(Adaptado de José Craveirinha – Biografia . www.maderazinco.tropical.co.mz/ . Os poemas são retirados do livro “Obra Poética I” da Editorial Caminho, 2002)