Tempos de Cólera

Florbela Espanca

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SER POETA


Ser poeta é ser mais alto


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!


É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!


É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!


E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


Vulcões


Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.


No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!


No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…


Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!


04/05/1916


*


A MULHER


Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


*


VOLÚPIA


No divino impudor da mocidade,


Nesse êxtase pagão que vence a sorte,


Num frêmito vibrante de ansiedade,


Dou-te o meu corpo prometido à morte!


A sombra entre a mentira e a verdade...


A nuvem que arrastou o vento norte...


- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:


Meus beijos de volúpia e de maldade!


Trago dálias vermelhas no regaço...


São os dedos do sol quando te abraço,


Cravados no teu peito como lanças!


E do meu corpo os leves arabescos


Vão-te envolvendo em círculos dantescos


Felinamente, em voluptuosas danças...


Florbela Espanca, em "Charneca em Flor"


"Charneca em Flor"


 


Florbela Espanca


Nascimento: 8 de dezembro de 1894, Vila Viçosa


Falecimento: 8 de dezembro de 1930, Matosinhos


Poetisa portuguesa. A sua vida, de apenas 36 anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos, que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização, feminilidade e panteísmo. Há uma biblioteca com o seu nome em Matosinhos.


https://notaterapia.com.br/2021/12/08/os-10-melhores-poemas-de-florbela-espanca/


 

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