
A verdade histórica acerca de Fátima documentada com provas
por João Ilharco
Como se realizaram as aparições?
Para quem sabe relacionar os acontecimentos e tirar deles as consequentes ilações, não é difícil reconstituir com exactidão o que se passou em Fátima.
Eis a reconstituição dos factos, apoiada em provas que honestamente serão aduzidas.
Numa região onde o clero dispunha de grande preponderância sobre o povo ignorante e crendeiro e onde viviam alguns padres inteligentes e ousados, que alimentavam contra a República fortes ressentimentos, surge a ideia de se reeditarem as aparições de La Salette e de Lourdes com o tríplice objectivo de se forjar uma arma contra o regime, de reavivar a fé e de ser criada uma copiosa fonte de receita para a causa católica. A pequena Lúcia, de acentuadas tendências místicas e de fé inabalável no sobrenatural, desperta a atenção desses padres.
A pequena, quando contava apenas nove anos, frequentava com assiduidade a igreja, a catequese e a mesa comungatória. A acção dos padres exercia-se sobre ela com afinco dentro e fora do confessionário, o que os levou a considerá-la apta a desempenhar o papel de agente da acção directa das aparições. E como reunia todos os requisitos, na Primavera de 1916 os ocultos empresários do sobrenatural tentaram pôr em prática os seus planos. Num dia em que Lúcia pascentava as ovelhas numa terra chamada as Estrumeiras, foi realizada uma aparição (1).
A « mise-en-scene », porém, não foi bem montada. Lúcia avistou um vulto vestido de branco, o vulto de alguém que tentava entrar em contacto oral com a pastorita. A pequena, assustada, fugiu, e daquela aparição nada resultou de concreto. Num dos seus interrogatórios, o cónego Nunes Formigão perguntou a Lúcia:
– «Que viste acerca dum ano? Tua mãe disse-me que tu e as outras crianças viram um vulto embrulhado numa espécie de lençol, que não deixava ver o rosto. Porque me disseste o mês passado que não foi nada?»
Como o cónego lhe apontava uma mentira. Lúcia deu o calado por resposta. Mas o Dr. Formigão insistiu:
– «Dessa vez fugiste?»
Lúcia respondeu:
– «Cuido que fugi» (2).
Em face deste primeiro insucesso, os empresários do sobrenatural estudaram cuidadosamente os planos duma nova aparição. Convém, todavia, que se deixe passar algum tempo sobre a frustrada tentativa, a fim de que Lúcia, ainda alarmada, não dê outra vez em fugir. O povo da região guarda escrupulosamente o descanso dominical, e, por essa razão, escolhe-se um domingo para a execução do novo plano, visto que as propriedades estão completamente desertas, e aqueles que têm de manobrar os cordelinhos poderão agir à vontade, sem receio de serem descobertos. Para lugar da acção, a Cova da Iria, terra pertencente aos pais de Lúcia, possui todas as condições, «Sítio ermo e pedregoso», situado numa «pequena bacia sem horizontes», onde, «por mais que se aplique a vista, nem viv'alma» (3) .
A superstição popular considera os dias 13 propícios à eclosão de acontecimentos extraordinários. Ora dava-se a coincidência de o dia 13 de Maio de 1917 cair a um domingo, circunstância que foi aproveitada. Encaminhar Lúcia no dia 13 de Maio, com as suas ovelhas, para a Cova da Iria, por forma tão habilidosa que nem ela desse conta da sugestão, era tarefa fácil para o confessor ou para o catequista.
Entre as imagens da Virgem conhecidas pelos padres, que estão no segredo do plano, é escolhida a mais bela e a mais adequada para representar, aos olhos dos crédulos pastoritos, o papel de Virgem Maria. Entre os ramos que tinham vicejado no cepo duma azinheira, a imagem da Senhora é colocada convenientemente, e, no momento oportuno, um operador escondido perto da azinheira, por meio de rápidas manobras executadas com um espelho, chama a atenção dos pastores para o local onde está colocada a imagem, servindo-se do reflexo da luz solar.
Lúcia e Jacinta, que nesse momento devem estar mais perto da azinheira do que Francisco, vêem um clarão incidindo sobre elas e julgam-no um relâmpago. Volvendo os olhos na direcção do lugar de onde parte um segundo clarão, as rapariguitas descobrem a imagem da Senhora. Atemorizadas, no primeiro momento pensam em fugir, o que não chegam a fazer, porque uma voz as tranquiliza:
– «Não tenhais medo, que eu não vos faço mal, e, para o vosso bem, ouvi o que vos quero dizer».
Jacinta, com o seu feitio acanhado e esquivo, cala-se, mas Lúcia estabelece conversação com a Senhora. Francisco, que nesse momento se deve encontrar atarefado a fazer sair as ovelhas da terra do milho e dos chícharos (4) , que elas tinham invadido, regressa para junto da irmã e da prima a tempo ainda de ver a imagem, mas já quando o diálogo estava a chegar ao fim.
Aos olhos dos três videntes a primeira aparição foi real e verdadeira.
Apontemos as bases em que assenta a reconstituição do que em 13 de Maio se passou na Cova da Iria.
1ª
Os promotores da aparição sabiam que, na mente das três crianças, a ideia de Nossa Senhora correspondia à imagem de uma «Nossa Senhora» vista no altar da igreja. Colocar diante dos olhos dos pastoritos uma imagem da Virgem, seria o meio mais eficaz de criar no espírito dos videntes a certeza de que a Virgem lhes tinha aparecido em carne e osso.
Se nos lembrarmos de que Lúcia disse para o cónego Formigão que no dia 13 de Outubro tinham aparecido também duas senhoras, uma vestida como a Senhora do Carmo e outra vestida como a Senhora das Dores (5), não restam quaisquer dúvidas de que na primeira aparição o papel de Virgem foi desempenhado por uma imagem.
2ª
O emprego duma imagem oferecia incontestável vantagem sobre o emprego duma pessoa, porque duma imagem não há que temer inconfidências, sempre de recear.
3ª
«A Senhora era da altura da Virgínia» – declarou Lúcia para o Pe. Ferreira de Lacerda.
«A Virgínia – esclarece o sacerdote – é uma vizinha de 12 anos, que pode ter 1 metro e 10 de altura» (6).
Esta altura pode corresponder à de uma imagem, mas nunca da Mãe de Jesus.
4ª
Acerca da atitude da Senhora durante as aparições, Lúcia afirmou:
– «Nunca sorriu nem se mostrou triste, mas sempre séria» (7) .
E acrescentou que também nunca a tinha saudado nem comcabeça nem com as mãos (8) .
O mesmo inquiridor, cónego Formigão, perguntou ao Francisco:
– «Não a vias mexer os beiços?»
– «Não via» – respondeu o zagalete (9) .
Uma pessoa, quando fala, mexe os lábios, faz gestos, muda de expressão. Nada disso podia suceder com uma imagem.
5ª
Em O Século de 23 de Julho, um correspondente deste diário descreve o que lhe relataram acerca dos acontecimentos do dia 13 na Cova da Iria e aquilo que Lúcia declarava ter visto durante as três aparições até essa altura realizadas: 13 de Maio, 13 de Junho e 13 de Julho.
Diz o correspondente:
«A uma delas [das duas videntes], àquela que tinha o privilégio de ver e ouvir a santa, fizeram várias pessoas muitas perguntas, às quais respondia dizendo que via uma espécie de boneca muito bonita, que lhe falava. Tinha, dizia, um resplendor em torno da cabeça, e chamava por si numa voz muito fininha e melodiosa.»
Como Lúcia, na realidade, só presenciara a primeira aparição, as suas declarações era a essa que se referiam, e das suas palavras se extraem três provas de que o papel da Virgem foi desempenhado por uma imagem.
Primeira: Lúcia viu uma espécie de boneca . Era muito provável que, nessa altura, ela ainda desconhecesse o termo imagem, razão por que falou de uma espécie de boneca, forma de dizer bastante adequada para exprimir o que tinha visto.
Segunda: A Senhora tinha um resplendor na cabeça. Efectivamente muitas imagens possuem, por adorno, um resplendor ou auréola.
Terceira: A voz muito fininha. Quando se realizou a primeira aparição, alguém que se conservava escondido próximo da imagem da Virgem falou por ela – e um homem, desde que não seja ventríloquo, ao pretender imitar uma fala feminina, usa uma voz muito fininha .
6ª
Nas crónicas que publicou em O Mensageiro , o Pe. Ferreira de Lacerda por mais duma vez faz alusão à imagem avistada por Lúcia, em vez de empregar os termos visão ou aparição. Assim, em O Mensageiro nº 162 escreveu: «Nada mais natural que Lúcia ter confundido a imagem que ela afirma ter visto», etc.
E no nº 164 insiste:
«Veriam elas na realidade uma imagem ?»
Desde que a notícia das aparições se propagou, Lúcia começou a ter aturada convivência com padres e senhoras da sociedade e deve ter aprendido o significado da palavra imagem. Não a teria ela empregado para o Pe. Ferreira de Lacerda e não se teria ele limitado a reproduzi-la? Tudo nos leva a crer que assim fosse, pois, de contrário, ele haveria empregado os termos visão ou aparição e não imagem.
7ª
Ainda para o Pe. Ferreira de Lacerda. Lúcia, ao descrever a primeira aparição, declarou:
– «Deu outro relâmpago, olhei para a carrasqueira e vi uma uma Senhora em cima dela», etc.
Em vez de olhar para o céu, a fim de ver se descobria nuvens de trovoada, porque olhou Lúcia para a carrasqueira, quando brilhou pela segunda vez aquilo que lhe pareceu um relâmpago? Porque o clarão provinha dum espelho manobrado por alguém que se ocultava junto dessa árvore, e ela, por reacção natural, olhou para o sítio de onde partia o clarão.
8ª
Lúcia afirmou que a Senhora trazia nas orelhas umas argolas pequenas (10) .
No céu, por certo, não há joalheiros e as entidades divinas não se ornamentam com jóias. Mas algumas imagens, mercê da oferta de devotos, ostentam argolas, brincos, cordões de ouro ou outras jóias.
9ª
Jacinta foi interrogada pelo Pe. Ferreira de Lacerda no dia 19 de Outubro de 1917, seis meses e seis dias depois da primeira aparição. Era de esperar, portanto, que a pequenita estivesse mais lembrada dos episódios das aparições mais recentes que daqueles que diziam respeito à primeira. Pois deu-se exactamente o contrário: relativamente à primeira aparição, ainda forneceu algumas informações; acerca das outras, Jacinta ou não respondia às perguntas do padre, ou esquivava-se, dizendo:
– «A Lúcia é que sabe».
A conclusão atirar desse facto é esta: da primeira aparição, que a seus olhos tivera aparência de real, a pequenita conservava algumas recordações. Das outras, cujos pormenores lhe foram descritos por
Lúcia, os inconscientes sete anos de Jacinta nada retinham.
10ª
A respeito do interrogatório que fez ao Francisco, o Pe. Ferreira de Lacerda escreveu em O Mensageiro de 29 de Novembro de 1917:
«Tem nove anos. Não ouviu falar a Senhora, mas viu-a vestida de branco. Que quando a Senhora falava, as ovelhas, embora andassem dentro do milho e chícharos, não causavam prejuízos, não o tombavam, nem o comiam. Ao resto das perguntas que lhe fazíamos não sabia responder.»
O episódio do Francisco ter ido desviar as ovelhas do milho (aquele “ o” do Pe. Lacerda queria referir-se ao milho, evidentemente) passou-se durante a primeira aparição. Desta, que aos seus olhos foi real, conservava duas recordações no seu cérebro de atrasado mental: a imagem vestida de branco e a incursão das ovelhas na terra do milho e dos chícharos.
Com o Francisco verificou-se o mesmo fenómeno constatado com Jacinta: na sua memória conservou-se alguma coisa do que existira de concreto. Quando as aparições passaram a constar, unicamente, das descrições que o Pe. Faustino fazia a Lúcia, a insuficiência mental de Francisco e a completa inconsciência de Jacinta obstaram a que eles compreendessem o prosseguimento da história.
O capítulo seguinte fará luz completa no espírito do leitor a respeito das aparições.
O segredo da velha história (11)
Se em La Salette e em Lourdes a Virgem tinha confiado um segredo aos videntes, tornava-se indispensável que em Fátima tivesse acontecido a mesma coisa.
Qual era o segredo de Fátima? O que foi comunicado ao público em 1942? É isso que vamos saber.
Os empresários do sobrenatural de Fátima, que haviam tirado preciosos ensinamentos de La Salette e de Lourdes, chegaram à conclusão de que, se realizassem uma só aparição, como em La Salette, a crença na visita da Virgem à Cova da Iria dificilmente criaria foros de verdadeira. Em Lourdes, mercê das muitas pessoas que começaram a afluir junto das rochas de Massabielle, a crença na realidade das aparições radicou-se no povo com maior facilidade, razão por que os encenadores da peça representada na Cova da Iria optaram pela modalidade das aparições múltiplas, que causariam grande impressão na gente crendeira que ali se iria juntando. A época – Maio a Outubro – foi escolhida criteriosamente, visto tratar-se da quadra do bom tempo.
A primeira aparição, em virtude de ter por únicos espectadores os três pequenos serranos, foi realizada por forma a deixá-los convencidos de que haviam presenciado uma aparição real.
Mas como proceder nos outros dias 13, visto que o povo começaria a concorrer à Cova da Iria, impedindo, dessa maneira, que fosse repetida a mistificação a que recorreram em 13 de Maio?
Essa dificuldade foi vencida por forma bastante engenhosa. A pessoa que em 13 de Maio se conservava oculta próximo da imagem da Virgem e que por ela falou às pastoritas, a certa altura disse-lhes:
– «Eu voltarei aqui mais cinco vezes, nos dias 13 de cada mês, mas vós não me tornareis a ver. Tudo o que eu vos quiser dizer, ser-vos-á transmitido pelo sr. Pe. Faustino, que é um santo. Isto que me estais a ouvir constitui um segredo, que a ninguém pode ser revelado. Se o dissésseis a alguém, ou se deixásseis de obedecer em tudo sr. Pe. Faustino, viria imediatamente o diabo para vos levar vivas para as chamas do inferno».
O segredo, segundo a opinião do Dr. Galamba de Oliveira – e desta vez estamos de acordo com ele –, «tinha por fim levar os videntes a tomar a consciência da gravidade do momento que estavam a viver» (12) .
Eles, que acreditavam que a Virgem é que lhes tinha falado, viviam no temor permanente de poderem incorrer no castigo por ela prometido. A pessoa que lhes falou no dia 13 de Maio teria anunciado, para breve, a restauração da monarquia, como se propalou? É bem possível que isso tivesse acontecido. Mas o que importa não esquecer é que, a partir do dia da primeira aparição, o Pe. Faustino José Jacinto Ferreira, vigário do Olival, nas cercanias de Fátima, passou a dispor de poder e autoridade absolutos e ilimitados sobre os três rudes guardadores de ovelhas de Aljustrel. Dali para o futuro o Pe. Faustino é que ensinará a Lúcia tudo quanto deve relatar como tendo sido visto e ouvido nos dias das outras aparições, incumbindo-a, ao mesmo tempo, de transmitir aos primos a lição.
Temos razões para supor que Lúcia era a única das videntes que recebia as instruções do Pe. Faustino.
A primeira versão que correu acerca da diversidade das graças, que a Virgem concedia a cada um dos pequenos pastores, deve ter sido a de que unicamente Lúcia via e ouvia a Senhora. Encontramos essa versão no folheto «A Minha Peregrinação a Fátima», da autoria de D. Maria Augusta Saraiva Vieira de Campos, que, segundo se vê no mesmo folheto, já o havia escrito em 19 de Outubro de 1917. Nele (pág. 7) encontramos este passo:
«Esta promessa não fora feita às três crianças, mas só à privilegiada Lúcia, a mais velhita, a única que recebia a graça de ouvir e falar a Nossa Senhora.»
A mesma versão aparece em O Século de 23 de Julho de 1917, por intermédio do correspondente deste diário em Meia Via (Torres Novas), que diz:
«A uma delas, àquela que tinha o privilégio de ver e ouvir a santa»...
Na verdade, se exceptuarmos a primeira aparição, que Jacinta e Francisco também devem ter presenciado, nas outras somente Lúcia via e ouvia a Senhora na pessoa do Pe. Faustino José Jacinto Ferreira.
O que depois se disse e propalou quanto à repartição das graças divinas:
que Lúcia via e ouvia a Virgem e que falava com ela;
que Jacinta só avia e ouvia;
e que Francisco só avia;
isso já foi um arranjo de teólogos, posterior às aparições.
Com cem por cento de probabilidades de acertar, podemos admitir que somente Lúcia recebia as instruções do padre Faustino. Como podia e sabia, ela tentava transmiti-las aos primos, mas sem grande êxito. A respeito da história de Fátima, Jacinta pouco aprendeu. Do Francisco podemos afirmar que a ignorou por completo.
Que o Pe. Faustino, vigário do Olival, desempenhou papel de grande relevo nos acontecimentos de Fátima, não oferece qualquer dúvida. O hino que em seu louvor entoa a Voz de Fátima (nº 112, pág. 4) só poderia ser dirigido a alguém que tivesse prestado à causa serviços excepcionais. Mas algumas revelações que o Dr. Galamba nos faz em “Jacinta”, esclarecem-nos bem mais que o artigo laudatório do órgão do santuário.
«Pois quem havia de dizer – escreve o Dr. Galamba – que, entre esse venerando e venerado sacerdote e os videntes, existia uma união tão íntima e que a sua acção pastoral se estendera até essas almas humildes, que apenas pertenciam à sua vigararia?» (pág. 161).
«Quem havia de dizer?» – pergunta o Dr. Galamba de Oliveira. É que o Pe. Faustino soube exercer a sua acção tão recatadamente, que ninguém deu por isso. A íntima união existente entre o Pe. Faustino e os pastoritos devia ser, de facto, muito forte, visto que o autor de “Jacinta” – pondo as palavras na boca de Lúcia – acrescenta:
«Sua Rev.ª não perdeu mais de vista a minha alma.»
« Foi ele quem nos ensinou a guardar o segredo » (pág. 162).
Os padres., em La Salette, empregaram todos os esforços para arrancar os segredos a Maximino e a Melanie, e os padres portugueses, que interrogaram os pastoritos de Aljustrel, seguiram as pisadas dos colegas de além-Pirinéus. Ao contrário dos outros sacerdotes, o Pe. Faustino ensinou os videntes aguardar o segredo. Porquê?
Porque ele sabia muito bem que, da rigorosa conservação do segredo, dependia todo o futuro de Fátima. Não nos admiremos, pois, de que o cónego Galamba de Oliveira solte esta exclamação de louvor em honra do Pe. Faustino:
«Como via longe a alma do Senhor Vigário!»
Ele viu longe, efectivamente. A obra, de que foi um dos principais arquitectos, tornou-se muito maior do que tudo o que poderia ter sonhado.
O Pe. Faustino José Jacinto Ferreira, vigário do Olival, gozava de grande prestígio na região.
«Todos confiavam plenamente nele – afirma o cónego Galamba de Oliveira –; determinação que tomasse, bastava ser sua para ser acatada, e a sua opinião era seguida sempre com respeito e amor. A virtude excedia, no Pe. Faustino, os dons da natureza. A notável piedade, a devoção a Nossa Senhora e às almas do purgatório, o zelo pela casa de Deus e pelo esplendor do culto divino fizeram dele a honra da sua terra e o ídolo do seu povo.
«Que a sua figura se destacava entre o clero paroquial, prova-o o facto de ter sido escolhido para o primeiro grupo de cultores diocesanos» (13) .
Para o Pe. belga H. Jongen, Lúcia declarou a respeito do Pe. Faustino:
«Este era pessoa de toda a minha confiança» (14) .
Esta frase filha do seu egocentrismo, para ser exacta devia ter sido dita desta maneira:
«Eu era pessoa de toda a confiança do Pe. Faustino».
E o livro “Jacinta” acaba por aclarar o papel desempenhado pelo Pe. Faustino junto dos videntes, quando atribui a Lúcia a seguinte afirmação dita para a primita:
«Nosso Senhor quer que a gente faça o que o sr. Vigário nos mandar» (15) .
Aqui está a chave de toda a história de Fátima e do seu segredo. A pessoa que falou em 13 de Maio em nome da Virgem, teria invocado diante das rapariguinhas o nome de Nosso Senhor, para conceder ainda maior autoridade às recomendações que na Cova da Iria foram feitas às pastoritas? É bem possível. Mas fosse como fosse: aos ouvidos de Lúcia e de Jacinta, a ordem para obedecerem cegamente ao Pe.Faustino dimanava do céu, e desgraçadas delas se transgredissem qualquer das suas determinações! O pavor que delas se apossara era de tal ordem que, na Cova da Iria, à hora das aparições, rompiam em choro convulso, conforme se lê em O Século de 23 de Julho de 1917.
0 Pe. Faustino, como acabámos de ver, consagrava notável devoção a Nossa Senhora – naturalmente à Senhora do Rosário, muito venerada na região – e às almas do purgatório. Ora em Fátima a Virgem denomina-se a si própria “Senhora do Rosário” e ensinou aos videntes esta oração:
«Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno e aliviai as almas do purgatório, especialmente as mais abandonadas.»
Aqui temos a assinatura do Pe. Faustino a subscrever o sobrenatural de Fátima.
O Papa Bento XV, por bula de 17 de Janeiro de 1918, restaurou a diocese de Leiria, da qual Fátima fazia parte, e, em 15 de Maio de 1920, provia nela como bispo D. José Alves Correia da Silva, professor de teologia no Seminário do Porto, e para quem Lourdes era um autêntico paraíso, pois, antes de ser bispo, por dez vezes tinha visitado esse santuário (16) . É de crer que já na mente do futuro bispo de Leiria existisse o plano de criar em Portugal uma segunda Lourdes, e estas visitas constituíam uma espécie de estágio para o lugar que veio a desempenhar em Fátima.
O Pe. Faustino, logo que o bispo tomou conta da diocese, foi entender-se com ele, e «levou-o a crer nas aparições de Fátima», diz o autor fatimista alemão Dr. Luís Fischer (17) .
Pois quem havia de ir entender-se com o bispo sobre o futuro de Fátima senão o Pe. Faustino?
O que é duvidoso é que o Pe. Faustino tivesse levado o bispo a acreditar nas aparições. Tudo leva a crer que D. José Alves Correia da Silva tivesse sido um dos co-autores do milagre, e crente já ele era há muito tempo.
O futuro de Fátima ficou entregue em boas mãos. Como devia ser grata para D. José a ideia de fazer de Fátima a Lourdes portuguesa! A essa tarefa dedicou a sua vida, e, tendo conseguido a cooperação da Companhia de Jesus e do «Papa de Fátima», Pio XII, teve a glória de ver a «Lourdes portuguesa» alçapremada à categoria do primeiro centro de peregrinações no mundo católico.
O que Lúcia declarou acerca do segredo na época das aparições, confirma as conclusões a que chegámos neste capítulo.
Perguntou-lhe o cónego Nunes Formigão:
– «É certo que a Senhora te revelou um segredo, proibindo que o descobrisses a quem quer que fosse?»
– «É certo» – confirmou a rapariga.
– «Diz respeito só a li ou também aos teus companheiros?» – inquiriu ainda o cónego.
– «A todos três» – respondeu Lúcia prontamente (18) .
No decurso do interrogatório, o cónego Formigão voltou a falar do segredo:
– «Se o povo soubesse o segredo, que Nossa Senhora te revelou, ficava triste?»
Lúcia afirmou:
– «Creio que ficava como está, quase à mesma» (19) .
Duas coisas se tornam evidentes em face das declarações de Lúcia:
1ª – Que o segredo dizia respeito somente a Lúcia e aos primos.
2ª – Que a Senhora proibira terminantemente os videntes de o revelarem a quem quer que fosse.
Depois de terem passado cerca de vinte anos sobre as aparições, Antero de Figueiredo foi autorizado a entrevistar Lúcia – já então freira professa – num convento de irmãs Doroteias em Pontevedra, Espanha.
Entre o escritor católico e a sua entrevistada travou-se, no começo do encontro, este diálogo:
– «Só fala, por conseguinte, quando é perguntada?
– «Só».
– «E responde a tudo?»
– «Autorizada, ao que julgo conveniente; mandada – a tudo».
– «Mas não responderia, se, ainda que compelida, a interrogassem acerca de certo Segredo Divino?»
Pronta e serena, Lúcia ripostou com segurança:
– «Ninguém na terra tem poder para me mandar falar sobre tal assunto. Se é um segredo, e de mais a mais divino! Esse só no Céu o revelarei» (20) .
O grande propagandista de Fátima, padre jesuíta Gonzaga da Fonseca, atesta que a Provincial das Doroteias, D. Eugénia de Sousa Holstein, lhe garantiu que as palavras registadas por Antero de Figueiredo no seu livro “Fátima” como tendo sido pronunciadas por Lúcia, são perfeitamente históricas (21) . Por conseguinte devemos ter como certo que, cerca de vinte anos depois das aparições de 1917, Lúcia declarou com a maior segurança que, nem compelida , fosse por quem fosse, REVELARIA O SEGREDO.
A afirmação de Lúcia tem lógica justificação: se ela revelasse o segredo, que lhe foi imposto no dia da primeira aparição, toda a mistificação ficaria desmascarada.
Quando foi deliberado trazer a público uma nova história de Fátima, totalmente irreconciliável com a que Lúcia havia contado e que é formada pelos mais fabulosos episódios, surgiu, também, a revelação de parte dos segredos, coisa que Lúcia nunca poderia fazer.
Cerca de vinte anos depois de 1917, Lúcia, bem senhora das declarações que fez para Antero de Figueiredo, afirmou-lhe que, nem compelida, desvendaria o segredo.
– «Ninguém na terra tem poder para me mandar falar sobre tal assunto», asseverou em tom categórico.
Ninguém na terra quer dizer: nem a Provincial da Ordem, nem o bispo de Leiria, nem o próprio Papa.
Em certo momento de 1942, que aos dirigentes de Fátima pareceu particularmente propício sob o ponto de vista político, foram anunciados dois segredos e divulgados publicamente. Um deles dizia respeito à conversão da Rússia, depois da sua derrota militar, como era óbvio.
E para que se não suspeitasse de que a história dos segredos tinha sido concebida muito tardiamente, os autores fatimistas alegaram que Lúcia já em 1927 os havia revelado ao seu confessor, ao bispo de Leiria e ao cónego Dr. Galamba de Oliveira.
Nem só as declarações feitas por Lúcia para Antero de Figueiredo provam que essa alegação é inconsistente, pois o bispo de Leiria, na sua «Carta Pastoral sobre o Culto de Nossa Senhora do Rosário», publicada em 13 de Outubro de 1930, desmente que a revelação do segredo tenha sido feita, escrevendo textualmente:
... «confiou-lhes um segredo que a ninguém poderão revelar».
Tudo o que veio afirmar-se na nova história de Fátima é desmentido por provas que não podem ser contraditadas.
“Fátima Desmascarada”, João Ilharco. Edição do autor, Coimbra, 1971