Tempos de Cólera

Fátima: a glória da nossa terra ou a nossa vergonha?

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Padre Mário de Oliveira:


Fátima, com a sua cruz alta, a convidar simbolicamente o povo ao sofrimento e à sua aceitação resignada; com o seu espaçoso recinto, por onde continuamente rastejam penitentes-pagadores de promessas; com as suas bocas de mealheiro-cofre, disfarçadas de caixas de esmolas, por onde entram rios de dinheiro oferecido por milhares de peregrinos, cultural e teologicamente, subdesenvolvidos; com o seu grandioso e esmagador santuário, servido, no exterior, por uma soberba escadaria e um enorme altar, onde, todos os dias 13, de Maio a Outubro, pontifica a hierarquia eclesiástica católica, constituída exclusivamente por homens celibatários; com a sua capelinha das aparições, ferozmente anticomunista, antiprotestante e antifestiva; e, sobretudo, com a sua Senhora toda branca, sempre de mãos postas, vestida até ao chão, e que não ouve, não fala, não come, não ri, não chora, não se comove, não caminha, não acena a ninguém, não tem coração nem entranhas de misericórdia, e que até para sair da capela exige que alguns seres humanos se metam por debaixo do seu andor e a carreguem aos ombros, numa postura que, simbolicamente, tem tudo de iI1dignidade e de escravidão – é um local de Graça, ou pedra de tropeço? É epifania de Deus, ou uma bem concebida e bem montada multinacional de religião que, habilmente, sabe tirar partido, sobretudo, financeiro, da situação de pessoas e populações carregadas de aflições e problemas sem solução à vista? É ocasião de encontro com Deus e com os outros ou ocasião de alienação individual e colectiva? É centro de espiritualidade libertadora e geradora de fraternidade solidária ou uma espécie de grande superfície de comércio religioso e de espiritualismo desencarnado, feito de devoções, de terços recitados em diferentes línguas, de missas em série e sem eucaristia, de assustadas confissões individuais sem consequente conversão ao Evangelho de Jesus, de cânticos sem poesia e sem mensagem, numa palavra, um espiritualismo sem Espírito Santo? É uma experiência que ajuda a despertar a Fé cristã, e, consequentemente, promove a libertação, o desenvolvimento e a dignificação das pessoas e das populações ou é um sítio onde a Fé cristã é devorada pela religião e pela idolatria? É a glória da nossa terra ou a nossa vergonha?


O Jornal FRATERNIZAR tem consciência do melindre das questões, mas não pode deixar de as formular. Fá-lo animado de um grande amor à Igreja e à verdade do Evangelho de Jesus Cristo. Não com a leviandade de quem ridiculariza, mas com a seriedade de quem procura viver, permanentemente, à escuta dos sinais dos tempos e do que o Espírito está a dizer às Igrejas.


Causa da nossa vergonha


Desde os tempos do cardeal Cerejeira e do seu amigo Salazar, tem-se dito e repetido que foi Fátima que se impôs à Igreja (a Igreja Católica Romana, já se vê, uma vez que as outras Igrejas cristãs, como tais, não têm lá entrada!) e não a Igreja que impôs Fátima. A afirmação, se calhar, até é verdadeira, pelo menos, em parte.


Mas, ao dizer e repetir isso, não nos damos conta de que é precisamente esse facto a principal causa da nossa vergonha. Porque a Igreja deveria ter sido capaz de resistir a Fátima e à sua matriarcal Senhora ou Grande Deusa. Deveria, em nome da Fé cristã e do Evangelho, por cujo anúncio é institucionalmente responsável, ter recusado liminarmente as chamadas aparições aos pastorinhos, bem como a mensagem de terror e manifestamente anti-evangélica que lhes é atribuída.


Em lugar de consentir que Fátima se lhe impusesse e, agora, até se orgulhar desse facto, deveria ter-lhe resistido com todas as forças, mesmo que, por via disso, Portugal deixasse de ser, como é, um país maioritariamente católico.


Porque não o fez (pelo contrário, acabou, em 1930 – quatro anos depois da implantação do famigerado Estado Novo de Salazar – por aceitar/fomentar Fátima e reconhecer como autênticas as suas aparições), continuamos, hoje, a ser um país maioritariamente católico, sim senhor, mas muito pouco cristão; por isso, um país subdesenvolvido, uma espécie de Portugal de pequeninos, sempre de mão estendida aos santos e à "senhora" Europa, à espera de milagres e de subsídios, muito devotos da Senhora de Fátima, mas confrangedoramente despojados de conhecimento bíblico-teológico, campeões em romarias religiosas, onde não faltam foguetes, fogo de artifício, música pimba, comes e bebes, mas manifestamente incapazes de saciarmos alguma das verdadeiras fomes que nos devoram por dentro, nomeadamente, as fomes de afecto, de ternura, de companhia, de beleza, de cultura, de liberdade, de participação e de autêntica festa.


Fátima, a tentação


Infelizmente, só há bem pouco tempo é que a maior parte da população portuguesa começou a ouvir dizer -as catequeses paroquiais sempre lho silenciaram! – que se pode ser cristã/cristão católico romano e não acreditar nas chamadas aparições de Fátima. Aliás, o Jornal FRATERNIZAR tem sido, neste particular, um dos portadores desta Boa Notícia.


Mas, agora, é preciso, imperioso e urgentemente, dar um passo mais, e passar a proclamar, com audácia, que Fátima e a sua Senhora não só não fazem parte da Fé cristã, como até constituem uma tentação e são, porventura, o maior perigo e o maior obstáculo ao despertar e ao desenvolvimento da genuína Fé cristã no nosso país e no mundo.


É verdade que muita gente, quase em desespero de causa, contra-argumenta: Mas: e o milagre do sol? não prova nada? Não foi a confirmação da verdade das aparições de Fátima?


Para o Jornal FRATERNIZAR, o milagre do sol é uma narrativa em tudo idêntica às narrativas de milagres que os fanáticos dos cultos em honra das deusas das religiões agrárias e pré-cristãs do Paganismo não se cansavam de proclamar aos quatro ventos, na esperança de, assim, conseguirem novos adeptos.


Felizmente, não é por aí que vai a Fé cristã. Nos milagres, a Fé cristã vê manifestação de poder demoníaco, que oprime e aliena as pessoas, desperta e alimenta medos, tolhe movimentos libertadores e reivindicativos, fomenta submissão e gera passividade.


Basta ver o que, a propósito, escreve o livro do Apocalipse, no capítulo 13, sobre os milagres que a "fera", controlada pelo "dragão" – uma espécie de anti-Deus –realiza no Império Romano, para mais facilmente subjugar as populações.


Ora, o Deus que se nos revelou em Jesus Cristo e em Maria, sua mãe, recusa a via dos milagres, o que, só por si, explica por que as populações não evangelizadas estão sempre prontas a correr para as deusas e os deuses do Paganismo, estilo Senhora de Fátima, mais do que a acolher Deus e o Seu Espírito, no mais dentro da sua consciência.


Mas Deus, ao contrário dos deuses e das deusas, recusa os milagres, pela simples razão de que a sua glória não consiste na subjugação/humilhação do ser humano, mas na sua integral libertação/exaltação e plena autogestão. Por sinal, duas coisas que a Senhora branca de Fátima jamais conseguiu fomentar nas multidões subdesenvolvidas e tolhidas por medos ancestrais que, infantilmente, se lhe dirigem.


Por isso, tem de se concluir que, por maiores e numerosos que possam ser os milagres atribuídos à Senhora de Fátima, ela não tem a inconfundível marca de Deus – e que, historicamente, não é outra senão a libertação da alienação para a liberdade fraternal e solidária (cf. Mt 12, 28 e Gálatas 5,1) –, pelo menos, do Deus de Jesus e de Maria. Tem, isso sim, tudo a ver com a "fera" manipulada pelo "Dragão" (ou anti-Deus), de que fala o Apocalipse, capítulo 13.


FÁTIMA NUNCA MAIS, Padre Mário de Oliveira. Campo das Letras, 1999.

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