Tempos de Cólera

Entre Mudejares e Mouriscos

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Persistências Islâmicas na Beira (Alta, Baixa e Litoral), e para além dela em Trás-os-Montes, Douro e Ribatejo


Resumo
Este estudo procura analisar a permanência e adaptação de práticas culturais, materiais e simbólicas de origem islâmica nas regiões da Beira (Alta, Baixa e Litoral), estendendo-se também a Trás-os-Montes, Douro e Ribatejo. Através da análise de toponímia, arquitetura, indumentária, música, dança, práticas religiosas e tradições alimentares, procura-se compreender como a presença de mudejares e mouriscos, tanto de origem local quanto fugidos da Espanha, se manteve e se transformou ao longo dos séculos.



  1. Coimbra islâmica (Qulumriyya): continuidade urbana e simbólica


A cidade de Coimbra (Coimbra, Região Centro), conhecida no período islâmico como Qulumriyya, constitui um exemplo notável da presença muçulmana no território português. A zona da Almedina, núcleo da antiga medina, preserva elementos da organização urbana muçulmana, com ruas estreitas e traçado irregular que refletia a lógica urbana islâmica. Além disso, a Sé Velha de Coimbra apresenta vestígios epigráficos que sugerem inscrições árabes, indicando a reutilização de materiais e simbolismos da antiga comunidade islâmica.


O nome “Almedina” deriva do árabe al-madīna (cidade), mostrando a influência direta da língua árabe na toponímia urbana. Estes elementos revelam que a presença muçulmana não se restringia às áreas rurais, mas deixava marcas profundas nos centros urbanos, evidenciando uma continuidade cultural que perdurou mesmo após a Reconquista cristã.



  1. Enquadramento histórico: mudejares e mouriscos no ocidente peninsular


Após a Reconquista, as populações muçulmanas que permaneceram no território português passaram a ser conhecidas como mudejares, mantendo em grande medida suas práticas culturais e religiosas. Com a pressão crescente e a conversão forçada no século XV e XVI, muitos tornaram-se mouriscos, tentando preservar discretamente seus hábitos religiosos e culturais.


A expulsão dos mouriscos espanhóis entre 1609 e 1614 levou ao movimento de populações para regiões fronteiriças e mais periféricas, incluindo a Beira, Trás-os-Montes e Douro. Nestes territórios, a influência de comunidades mouriscas espanholas próximas, especialmente em Extremadura e Castela e Leão, pode ter reforçado a continuidade de práticas culturais e religiosas de origem andalusina, mesmo em contextos rurais isolados.



  1. Toponímia, arquitetura e memória islâmica


A toponímia constitui um dos vestígios mais duradouros da presença islâmica, refletindo tanto ocupações históricas como memórias coletivas de comunidades muçulmanas e mouriscas. Para além de designações urbanas como “Rua da Mesquita” e “Casa Árabe”, ou naturais como “Vale Mourisco” (Sortelha, Guarda), encontramos um conjunto disperso de topónimos em todo o território português.


Na Beira Interior (Região Centro e Guarda), destacam-se Mata Mourisca (Fundão), Bismula (Guarda), Fatela (Guarda) e Mourisco (perto de Seixo e Sertã, Castelo Branco). Em áreas mais alargadas, encontram-se Mourisca do Vouga (Águeda, Aveiro), Moura Morta (Vila Nova de Foz Côa, Guarda), Mouriz (Guarda), Mafomedes (Portalegre), São Mamede de Mouros (Vila Nova de Gaia, Porto), Porto Mourisco (Guarda), Mouriscas (próximo de Tomar, Santarém, Ribatejo), Mafamude (Vila Nova de Gaia, Porto) e Vila de Ala (Guarda).


O edifício conhecido como “Casa Árabe”, datado do século XIV, orientado para a qibla, sugere a possível reutilização ou preservação de um espaço de culto islâmico. Estes topónimos e edifícios demonstram a persistência de memória cultural islâmica, transmitida ao longo de gerações, mesmo após a conversão forçada e a assimilação cristã.



  1. Práticas religiosas e cripto-islamismo


Em aldeias da Beira Baixa (Região Centro) como Alpedrinha (Fundão), Atalaia (Belmonte) e Orça (Covilhã), relatos orais indicam que indivíduos oravam discretamente, cinco vezes por dia, voltados para o nascente, muitas vezes escondidos entre rochas. Estas práticas são interpretadas como formas de cripto-islamismo, evidenciando a preservação de crenças mouriscas mesmo em contextos de pressão religiosa intensa.


A documentação da Inquisição em regiões como Sabugal (Guarda) mostra dezenas de processos envolvendo suspeitos de manter práticas islâmicas, reforçando a plausibilidade de que tais costumes não eram exceções, mas parte de uma rede cultural clandestina persistente.



  1. Cultura material e etnografia comparada


5.1 Adufeiras e tradições musicais


As adufeiras da Beira Baixa (Fundão, Covilhã, Castelo Branco), semelhantes às do Rif (Marrocos) e da Cabília (Argélia), e à tradição de Peñaparda (Castela e Leão, Espanha), demonstram continuidade de práticas musicais e coreográficas de matriz islâmica. O próprio nome adufeira deriva do árabe ad-duff, significando pandeiro, refletindo a persistência lexical e cultural.


5.2 Indumentária: manaias, gabão e capa de honra


As manaias, calças largas de corte solto, comparáveis aos zaragüelles de Valência e Múrcia, são documentadas em localidades do litoral centro-norte como ÍlhavoOvarAveiroPardilhó e Murtosa. A etimologia do termo sugere derivação do árabe malāya, indicando uma adaptação local do conceito de pano largo e envolvente, aplicado a uma peça de vestuário inferior.


gabão português, semelhante à jellaba marroquina, ocorre nas mesmas regiões (Mira, Ovar, Ílhavo), reforçando a continuidade de tradições vestimentares mouriscas e a conexão com práticas andalusinas e magrebinas.


Além disso, a Capa de Honra de Miranda do Douro (Bragança, Trás-os-Montes) apresenta fortes analogias com o selham, o burnous ou o akhennif do Magrebe, especialmente Marrocos. Esta capa tradicional, usada em ocasiões cerimoniais, é feita de tecido amplo e pesado, com capuz ou gola envolvente, refletindo a lógica de vestuário de prestígio e proteção típica do mundo islâmico e berbere. A semelhança formal e funcional sugere uma continuidade ou influência direta da indumentária mourisca, adaptada ao contexto ibérico e aos materiais disponíveis localmente.


Esses elementos de vestuário demonstram a persistência de formas materiais islâmicas e a capacidade de adaptação cultural, criando uma ponte simbólica entre Portugal e o Magrebe, ao mesmo tempo que reforçam a identidade cultural da região.


5.3 Danças e práticas comunitárias


A dança dos pauliteiros de Miranda do Douro (Bragança, Trás-os-Montes) e outras manifestações festivas refletem memórias mouriscas e a hibridação cultural. A Mouriscada e a Bugiada, particularmente em Sobrado (Valongo, Porto), preservam coreografias, música e narrativa simbólica de confrontos entre cristãos e mouros.


Comparativamente, a dança dos pauliteiros apresenta semelhanças com a Morris Dance da Inglaterra, tradicionalmente associada a práticas de origem mourisca, bem como com a dança Takska, praticada pelos povos amazigh da Líbia. Estes paralelos reforçam a hipótese de uma herança mourisca transregional, indicando que certos gestos, ritmos e figurinos têm raízes comuns na tradição islâmica ou berbere, adaptadas ao contexto ibérico.


Estas tradições conectam a Beira, Trás-os-Montes e o Douro, mostrando a persistência de elementos culturais de origem islâmica em contextos festivos e comunitários.


5.4 Alimentação: cuscuz


cuscuz em Trás-os-Montes (Bragança, Vila Real) constitui outro exemplo de sobrevivência cultural, inserido na tradição rural e possivelmente herdado do período andalusino, demonstrando a circulação de hábitos alimentares entre o Magrebe e a Península Ibérica.



  1. Redes transfronteiriças e continuidade cultural


A proximidade da Beira, Trás-os-Montes, Douro e das regiões mouriscas de Extremadura e Castela e Leão favoreceu a circulação de práticas culturais e saberes, explicando a persistência de elementos islâmicos no mundo rural português. A combinação de tradições materiais, musicais, festivas e toponímicas revela a complexidade da hibridação cultural e a capacidade de adaptação das comunidades mouriscas.



  1. Considerações finais


A Beira (Alta, Baixa e Litoral), Trás-os-Montes, Douro e Ribatejo apresentam um mosaico cultural que evidencia a continuidade de influências mouriscas e islâmicas através de séculos. To­ponímia, práticas religiosas, música, dança, indumentária e alimentação formam um conjunto coerente de elementos que atestam a resiliência cultural, oferecendo uma visão mais rica da história do território e das suas interações com o mundo islâmico e magrebino.


Referências (seleção indicativa)



  • Harvey, L. P. Muslims in Spain, 1500–1614. University of Chicago Press, 2005.

  • Epalza, Mikel de. Los moriscos antes y después de la expulsión. Editorial Mapfre, 1992.

  • Oliveira Marques, A. H. de. História de Portugal. Palas Editores, 1986.

  • Mattoso, José (dir.). História de Portugal. Círculo de Leitores, 1993.

  • Barros, Maria Filomena Lopes de. Tempos e Espaços de Mouros: A Minoria Muçulmana no Reino Português (séculos XII–XV). Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.

  • Dias, Jorge. Estudos de Antropologia Cultural Portuguesa. INCM, 1990.

  • Vasconcelos, José Leite de. Etnografia Portuguesa. Imprensa Nacional, várias edições.


Fonte

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