Tempos de Cólera

CONVERSA DE TRÊS

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Luiz Pacheco: 


Poizos meus também não chegaram a criar bolor - disse a Carminda.


- E quantozanos tinha? - disse a Outra.


- Inda não tinha feito os dzasseis. Foi um tio meu, apanhou-me em casa sozinha... depois daquilo, fiquei como bêbada.


- E nã dá gôzo nenhum, a primeira vez - rematou a Suzana, indo abrir a porta, um andar preguiçoso a bater com os chinelos no encerado fosco do corredor.


Quando a Outra entrara na cozinha estava na telefonia um fado que dizia sabias queu era ómem/ /não te chegasses pra mim. A Suzana teve um arremesso de mau-génio:


- Desculpas. Tudo desculpas dos homens. Põem-nos za cabeça maluca depoizinda nos atiram à cara... Cambada!


- É - disse a Outra.


- Agente vai na conversa deles, fazuqueles querem...


- É - disse a Outra.


- E a menina tão nova i já com dois filhos... nuncòviu dizer quem boa cama fizer nela se deitará?


- Amim nem foi na cama - disse a Outra. - Foi em pé, atrás duma porta.


- Eu cá foi na cama -, disse a Suzana.


-Quê! pode lá ser... - disse a Outra.


Ora, a menina nã me diga quinda sacreditava queu, com estidade quinda tinha os três. Até tinha desgosto!


- Tá a brincar!


- Já le disse - disse a Suzana, mexendo a panela. - Foi em Abril, no dia dos meuzanos. Quando fiz os dezóito.


- Ah, eu foi com menos - disse a Outra.


- Poizusmeus também num chegaram a criar bolor... - disse a Carminda.


-E quantozanos tinha? - disse a Outra.


- Inda num tinha feito os dzasseis. Foi um tio meu, pouco mais velho era do queu, andaria nos dezóito. Ou dzanove. Inda num tinha ido às sortes. Apanhou-me em casa sozinha. Eu é que tive a culpa, tá visto. Já o tinha percebido, num me largava as saias, semprá arrodear-me, sempre com graçolas. E queu num lhavia descapar. Cando a mnha mãe foi à vila por causa da herdança do meu pai havera de ter ido com ela. O meu tio não se tirava lá de casa desque o meu pai morreu, lá a gente na terra dizia quera cufito na cunhada, mazeu é que sabia pròquera. Entrou-me portas adentro com falinhas mansas, eu estava na corte a deitar feno aos bois, atirou-me pra cima duma meda de palha e foi mesmo ali. Depois daquilo fiquei como bêbada.


- Tamém fostes logo cair com um tio, rap'riga - disse a Suzana, meio-a-rir.


- Quèque tem? é um ome com'outro. ..


- E depois? - disse a Outra.


- Depoizêle cando a mnha mãe recebeu a herdança quinda não era tampouco comisso, começou a canvincê-la a dar-lhe dinheiro pra sestablecer cuma casa de vicecletas, tanta-enredou quela foi nisso... a mnha mãe depois pôsma servir no Porto, pra ficar mais à larga, já ele andàvàmigado com ela, comia lá em casa, lá dormia cando-lhapetecia...


- E tu, nicles! - disse a Suzana, mei-o-a-rir.


- Eu andavaparvalhada caquilo tudo, não sabia savia de dezer à mnha mãe, senão... era muinto nova tinha vergonha. Pia Còresma, até aldrabei o padre que me começou a fazer prèguntas... esse também era, um bregeirão, sabiaa toda... tinha uma fama danada lá na terra. Tàvamigado ca professora, ela vivia em casa dele e na catequese não nos tirava as mãos de cima. Era doido por rapariguinhas! dàvagente amêndoas e santinhos mazera tudo cufito na malandrice. Sempre que podia, achegava-se... a mim deumum dia um beijo na sacrestia e deitou-mas zunhas às mamas! Dessa vez, deu-me cinco crôas!


- Era fresco, o padreca! - disse a Suzana. - Se fosse na minha terra, tavaviado.


- Querem ver que na sua terra são mais sérias...- disse a Carminda.


- Nem mais nem menos, porquê? Lá os padres não se governam. Aqui há anos, em Almodôvre quélá perto, um padre desonrou uma moça candava na catequese, teve de fugir cumatavam. Foram os homens atrás dele, com foices e forquilhas, suapanham cortavam-no às postas... Pois!


- Na minha terra num se repara nessas coisas, eles fazem o quequerem - disse a Carminda.


- Então a menina Carminda nunca mais soube nada do seu tio? - disse a Outra.


- Agora não é meu tio! é meu pai, meu paizinho... - disse a Carminda. - Casou ca mnha mãe, que samanhem. Nunca mais lá torno! ...lembrar-me doquele me fez.


- E nã dá gôzo nenhum, a primeira vez - rematou a Suzana, e foi abrir a porta da rua. Era o casalinho dos sábados, levou-os para o quarto do costume, o Nove.


A Outra disse na cozinha, enquanto passava a ferro as fraldas da menina:


- Amim não deu gôzo nenhum nem à primeira nem à segunda... foi só ó fim dalguns dias...


-Credo! só sera uma gaita muintatrombuda, muintagrossa - e ria-se, a Carminda.


- Eu cá não sei. Nunca conhecei outra.


-Pòizolhequeu ...


Deixara de rir, virou a cara e foi deitar os restos de comida dum prato ao caixote do lixo, raspando-o com um garfo.


- É o casalinho dos sábados -, disse a Suzana, mal-entrou na cozinha. - Vai haver festa.


- E logôjequeuvou sair - disse a Carminda.


- Vai sair?!... Vai sair, como? hoje não é o dia da sua saída - disse a Suzana.


- Não é mas saio à mesma. Já pedi ao patrão.


- Acho graçàisto - disse a Suzana. - Indaontem saiu e hoje outra vez. E eu que me lixe...


- Hoje não é o dia da sua vela? - disse a Carminda.


- É, sim senhora. E depois? fico cá sozinha, sozinha a um sábado, com todo serviço dos quartos e da porta?


- Ouèquetem? não era a primeira vez. Veja lá sacomem, com èssidade...


- Não é a primeira vez nem tenho medo que me comam. A mim, nenhum tio me pôzas calças em cima, não abro as pernas ao primeiro caparece, fui só dum, fique você sabendo! Não é isso que me mete medo. Mas não gosto, não gosto, pronto! de cá ficar sozinha... podacontecer alguma coisa, como já houve… e depois? ... quem é que se responsabiliza?


- É quem está ,de serviço, e quem está de serviço, hoje, é você! - disse a Carminda, e abalou da cozinha.


-A menina tá a veristo? a madama saiu ontem, sai hoje, sai àmanhã, é cando lhapetece... um regabofe! Eu bem sei quem tem a culpa distotudo... mazamim nã menganas tu, aqui anda arranjinho, ó sanda!


A Carminda voltou logo à cozinha para aparar qualquer dito da conversa mais hostil. A Suzana calou-se, virou-se, foi mexer a panela, deu com a tampa ,de alumínio com toda a força em cima da pedra da chaminé.


- É raio! - disse a Carminda e olhou para a Outra, piscou um olho e riu-se.


A Outra vincou a última fralda e foi para o quarto. As crianças já dormiam, no colchão ao lado da cama, a menina para a cabeceira, o rapazito para os pés, com uma beiça amuada; Ele estava a ler, enroscado debaixo dos cobertores, todo torcido para aproveitar melhor a fraca luz do candeeirrnho que dava às páginas do livro um tom amarelado, pardacento. Era uma posição incómoda, virou-se ao senti-la entrar no quarto, olhou-a, suspirou, espreguiçou-se, esticou as pernas até onde os lençóis estavam frios, pareciam molhados (teve um arrepio, encolheu-se) da humidade. Disse:


- Não te vens deitar?


- Vou pagar o quarto. Elas estão as duas lá dentro a zaragatear.


- Há-de ser bonito...


- A Suzana tem razão, a outra é uma galdéria, só pensa é na borga...


- … são raparigas - disse Ele. E voltou ao livro.


- Menina Suzana, aqui tem o dinheiro do quarto – disse a Outra, entrando na cozinha.


- Pouzeaí, faça favor. Obrigadinha! - e nem voltou a cara, porque a Carminda estava ao telefone a falar com um tipo a combinar irem ao baile.


- Bom baile é ele -, disse a Suzana, vindo guardar o dinheiro, logo que a Carminda saiu da cozinha.


- É o rapaz dela, não? -, disse a Outra.


- É este e outro e mais outro... e cá em casa indá maizum!


- Quem é? quem é? - disse a Outra.


- Ora quem há-de ser!...é quem lhe faz todas as vontadinhas.


- O senhor Altívio?


- Cala-te boca!... é uma boa peça. Quer criadas pró serviço e conchego prà cama, tem a mania das provar todas, não escapauma... até a Mulher-a-Dias, essa desgraçada canda praí... até essa! E sa muher não fôssinda minha parenta tamém senfeitava comigo... mas tem medo queu lhe faça a vida negra lá em casa... E fazia-o, ai fazia-o!


Batia no peito espalmado com a mão aberta. Bisou o gesto.


- Coiros! é só pró que servem! são p…. e inda por cima sarmam em patroas, em donas disto, e o serviço que se f…. Senão fosse cá por coisas... eu lesdezia!


- Bem, menina Suzana, vou indo boa-noite - disse a Outra.


- Boa-noite, menina... e desculpe este desabafo.... mas senão falo parece carrebento.


- Não faz mal...


- … Olhe, hoje tem muinto couvir...lá ao seu lado. O casalinho dos sábados ‘stá no Nove.


- O casalinho dos sábados?


- Sim, são uns noivos, eles dizem que são noivos... que vêm cá dormir todos os sábados. Ela é muito novinha, foi cá desonrada, erumassangueira no lençol que só visto... ele é um perfeito rapaz, tànatropa, mais dias menos dia diz quembarca pàguerra. Coitados, aproveitam encantètempo...


- E porque não casam? - disse a Outra.


- Não o deixam, parece. Ou é a família dela que não quer, é assim uma coisa.


- Issassim inda dá mau resultado... - disse a Outra.


- Kéqueles hão-de fazer? aproveitar encantètempo... Eu cá tenho pena dela. Tenho e não tenho: farta-se de gozar. Ele é um garinéu não lhe dá descanso toda a noite: é coda e mais coda. Deixaestarcaquelaficabem consolada, não deveter comichões no grêlotôdássemana. A menina vai ver a barulheira quelesfazem!


A Carminda veio à porta da cozinha, aperaltada. Teve um risinho trocista:


- Atão até àmnhã e adevirtam-se. Não sesqueçam de contar asqueles dão, pràmenhã me ,dezerem. Já oiço ranger a cama...


- Vai, filha, vai - disse a Suzana, meio-maternal, meio-escarninha, sorriu mostrando duas faltas de dentes à frente - e não bailes muinto, não andes muinto à roda, podes zentontecer, podes perder a cabeça, não taconteça o mesmo da outra vez... cuteutio.


A Carminda ta dar-lhe uma resposta torta, avançou dois passos levantou a venta. Mas o telefone tocou, a Suzana foi atender, disse ‘stá? é sim , e a Carminda amochou, deu de ombros, desandou porta fora.


Quando entrou no quarto, a Outra ficou de súbito muito espantada: Ele estava a espreitar à porta que dava para o Nove em cuecas e camisola, havia ali uma frincha quase um buraco da grossura dum dedo no sítio onde a porta roçava a ombreira mesmo junto à dobradiça do meio. Do outro lado, no Nove, a porta estava tapada por um reposteiro verde, com manchas amareladas - do tempo? do pó? da humidade? ou colorido ou desenho primitivo? a cama no Nove era à esquerda, mas pela frincha rasgada via-se o espelho grande inclinado do tualete onde se reflectia a cama. Era para ali que Ele olhava.


Via pela primeira vez uma coisa nunca vista, uma coisa muito bela: dois corpos nus em liberdade abraçados beijando-se furiosamente. Nada que se comparasse ao que presenciara várias vezes em bacanais, com homens e mulheres astutos, só devassos, jogo lascivo que tinha sempre para Ele um quê de paródia fraudulenta e ansiada, exibição gorilesca de gentinha solitária afinal, apesar da promiscuidade e ou decerto por isso. Ali, agora, era tudo íntimo e brutal, sincero a valer: o ritual do par no corajoso corpo-a-corpo suicida, sexos em luta, a posse mútua vampiresca em transe de fusão para o Único. Aqueles dois ali eram jovens e amavam-se, não tinham ronha nenhuma.


Deitado na cama, a ler com certa amargura, mas inquieto, as atribulações do Jean Rabe de Le Quai des Brumes , onde cabia alguma coisa de si, achava-se parecido (lia: Il avait cherhé du travail. Rien dans sa mise et dans son atitude ne pouvait encourager ceux qui auraient pu devenir ses patrons. Tous ces hommes sentaient parfaitemente que Rabe n'était pas de leur jeu et ils lui refusaient les cartes), ouvira gente no quarto ao lado, tinham-no sobressaltado o barulho de beijos, ruflar inconfundível! através da porta os primeiros risos, palavras abafadas. Atirou o livro para os pés da cama e ali o esqueceu, coisa inerte, inútil; pulou da cama, foi espreitar pela frincha que já conhecia: os do Nove ainda nem se tinham despido e era já pelo quarto uma restolhada de folia amorosa, caíam um sobre o outro na cama, rebolavam enlaçados sobre a colcha como num tapete de relva ou chão de caruma, abraçados aos beijos.


Como todos os namorados era pelas bocas que se prendiam casavam primeiro. Ah! beijavam-se apressadamente e muito, incessantemente, demoradamente, como criminosos que escondem o rosto para que não se lhes veja a tristeza e o medo ou a vergonha súbita, dois cúmplices que abraçados choram o mesmo terrível castigo, assim se escondiam estes no calor um do outro, choravam à sua maneira, fugiam como podiam do pavor de estarem vivos, ali sozinhos no quarto, gente insegura atarantada só sabendo beijar-se como sua única força e defesa, trémulos, inquietos, a suar de medo.


Num momento, ela estava de barriga para cima, o rapaz lançou uma garra voraz arrepanhou a saia sobre o côncavo do sexo, despegou os beiços da húmida boca aflita, fitou-a bem nos olhos com um desafio dominador, arrepanhou mais a saia, calcou fez peso com os dedos a mão o corpo todo na carne ali e depois, muito rápido, fugiu com a mão para a meter entre as pernas dela levantando as roupas, descobrindo a alvura rosada e quente das coxas até ao triângulo negro das calcitas. De joelhos na cama, com a outra mão desabotoou-se, meteu os dedos apressados na berguilha, exibiu o sexo tenso, inchado. A rapariga olhou aquela serpente rija como chifre perfurante e sem que ninguém lhe pedisse nada despiu-se num ápice. A saia, corrido um fecho lateral, fugiu-lhe aos pés; a combinação, as calças o sutiã voaram para todos os lados pelo quarto como pássaros de alegria, aves folgazãs que subiam ao ar anunciando o resplendor dum corpo nu, e jovem, e adestrado no amor. O espelho trazia ora as costas dele com as mãos aflitas cravadas da rapariga apertando a nuca do macho e os cabelos dela em volta, ora um seio pequenino e branco com o bico escuro eriçado irritado e logo depois surgia uma mão a espremê-lo como esponja macia, ora as pernas de ambos enroscadas, peludas as do rapaz, frágeis e pálidas e gracilmente modeladas na rapariga.


De repente, deitaram-se ao través na cama e em todo o rectângulo do espelho o rosto da rapariga, visto por detrás e por cima, os cabelos soltos, a áspera fronte, as pupilas reviradas em branco, a linha fremente do perfil e logo a boca entreaberta num riso desatinado, diríamos casto, porque tão belo de ver e tão natural; depois apareceu a crista do macho, esteve assim uns segundos a olhar para ela e depois mergulhou a sua boca naquela boca, segurou a pobre cabeça perdida com as mãos espalmadas nas faces, demoradamente beijou-a, serena quase fraternalmente em silêncio. Que intimidade agora entre os dois... que bruta sinceridade! Que força! que coisa bela!


O rapaz puxou-a para o meio da cama, estendeu-a ao comprido, agarrou numa almofada, meteu-lha debaixo do c. e alargando-lhe os joelhos para os lados, atirou-lhe o sexo para o fundo da barriga, ela ganiu aiii! e empinou-se, fez a ponte sobre o lençol e logo se deixou cair toda lassa, vencida pela força do golpe ficou enclavinhada encrustada como que quase embutida no corpo do macho, os pés no ar, o interior das coxas batendo nos rins do rapaz, amarrando-o a ela.


- Questás a fazer? - disse a Outra, espantada.


- Chiu! isto é só pra homens...


- Disparate! vê lá se desconfiam...


Foi arrumar as fraldas engomadas na gaveta do guarda-fato, tapou uma pernita da menina que saía fora da roupa com o bojudo pé roxo de frio e começou a despir-se sem pressas; meteu-se na cama, chegando o corpo aonde Ele estivera antes e as roupas conservavam algum calor; de costas para aquela bisbilhotice que a molestava, sem perceber porquê.


- Apagaram a luz! - disse Ele. E aborrecido veio num pulo para a cama, com um súbito arrepio. Disse:


- Estão com uma tusa!


- São noivos disse a Outra, sem mesmo se voltar para Ele.


- Noivos?!... e vinham passar a lua-de-mel nesta espelunca?


- Sei cá disso... foi a Suzana que disse. Não se podem casar... a família dela não deixa... ou é porque o rapaz está na tropa... é uma coisa assim...


- Ah, coma-me dessas... mas não percebo... aí há história... A Suzana também me saiu uma fiteirona!


- Não me chateies, quero lá saber... bem me basta a minha vida.


Apagou o candeeiro. Ficaram calados na escuridão, um frio súbito a envolvê-los, talvez uma censura mútua em silêncio propositado. Enquanto ao lado, no Nove, a cama rangia compassadamente. Aquilo não durou muito. Ouviram depois um salto, passadas secas, passos talvez de pés nus pelo quarto, o barulho da água do jarro correndo; chapadas lentas de água. Depois risadas. Palavras correndo de boca a boca.


- Isto faz t... - disse Ele, e procurou no escuro o corpo da companheira, longamente caída junto a Ele; apanhou-a de costas, a carne morna silenciosa e calma, contraída, quis penetrá-la assim mesmo. Mas a Outra encolheu-se, apertou-se barrando a passagem; e já Ele lembrado dos beijos sôfregos dos outros dois lhe torcia o rosto teimoso, o virava lento para a sua boca e o beijocava, nos olhos dóceis, depois na boca e pelo pescoço e nas orelhas e atrás, na covinha do ladrão, lambuzando-a muito...........................................


 … até ela se perder de todo, descontraída agora e quieta, meio desfalecida. Tapou-a. Beijou-lhe a boca. Ela não dizia nada, concentrada, desfalecida. Dormia?


No quarto Nove a cama recomeçou a ranger. E minutos depois a rapariga saltou do leito, disse qualquer coisa, o rapaz tossicou um pigarro seco e a água correu do jarro para o bidé e a rapariga devia estar a lavar-se às chapadas lentas, pacientes e cautelosas, friorenta, como quem se munge.


As crianças dormiam sempre. Ele acendeu um cigarro e ficou-se por momentos a ver a Outra dormir. Tinha acendido a luz e segurava, aberto ao acaso, Le Quai des Brumes. Lia, distraidamente, frases soltas que sublinhara antes a encarnado sem perceber agora a finalidade daquilo, coisa parada perante tanta vida fremente que o envolviam na noite: Toute la vie intellectuelle de Jeain Rabe, depuis sa sortie d'u Lycée, semblait consacrée au perfectionnement des désirs de choses qui se mangent. Il était devenu d'une habileté surprenante dans l'art d'imaginer des nourritures... Le confort, cependant misérable, d'une chambre de bas hôtel le pénétrait profondément... Exquise torpeur surtout engendrée par la porte fermée, qui le mettait provisoirement en marge du monde et de l'existence qui le balayait, comme le vent une feuille sèche, de-ci, de-là, souvent avec des soubresauts comiques... Jean Rabe méditait alors des projets d'avenir. Que tinha a Outra, dormindo cerrada com uma cara fechada e paciente ou talvez quase hostil, uma expressão de menina sabidona no rosto marcado, onde queixo e boca se desenhavam firmes em contraste com a sépia inerte das pálpebras, abandonadas e mortas, os tipos do Nove, as moças da pensão em briga constante, enresinadas uma com a outra e seu dia-a-dia, e sem perceberem nada de nada, que Destino os mandava a todos? e Ele, que sabia? julgava-se mais habilitado, mais espertinho? porque tivera uns estudos, lera uns livros, tentara resistir, lutar? Qual a vantagem? Iam todos na mesma galera rumo à guilhotina, apupados e troçados por uns quantos a quem nem viam as caras, nem sabiam ao certo quem eram. Mas os empurravam com dureza, a toque-de-caixa.


Espevitou a orelha: no quarto Nove reinava a paz. Ele pensou: vão dormir o sono dos deuses. E esteve a matutar naquilo enquanto a cinza ia crescendo na ponta do cigarro o sono dos deuses que ironia insensata, atroz: que queria dizer aquilo, ali, num quarto reles de pensão, um buraco escuro onde eles nem sozinhos estavam já que os espreitara à vontade, violara como espia impune a sua intimidade, aquele seu fogo? tão jovens eram e tão portanto inconscientes na sua alegria! como ignoravam ou sentiam-na sabiam-na mas disfarçando a abjecção onde estavam, entre o calor febril da posse e a água decerto gelada do bidé, a lavagem precipitada e o medo da rapariga (talvez de ambos, medo a dois inda mais triste vergonhoso) de emprenhar daquele soldadito que a família dela rejeitava e ia-se embora algures. Achou-os estúpidos. Logo a seguir riu-se de si, com amargura. Ele tinha-se safado por causa da idade, mas o puto? dormia agora tranquilo e para quê? estava a criá-lo agora numa labuta árdua, nas concessões e nos compromissos vis e na maior desesperança, para quê?


... e também Ele podia dormir o sono dos deuses? Depois da cópula apressada, o seu entusiasmo não partilhado mas só consentido e espiado a frio, quase recebido com hostilidade na expectativa tensa da Outra. E o medo em todos, a reserva, a desconfiança, o ódio qualquer dia breve, um futuro para todos incerto ingrato. Custou-lhe a adormecer.


De manhã, mal a luz entrou no quarto, apurou o ouvido; nada. Teriam saído de noite? ou estariam dormindo? Acordou a Outra. O rapazito já se levantara, viera buscar o penico à mesinha de cabeceira, mijava com ar atento, aplicadamente olhando o fio líquido e quente que lhe saía dos dois deditos puxando com força a pele da pila na ponta. Sacudiu, salpicou o chão como de costume. A menina rompera debaixo das roupas e surgia sentada como cogumelo apetecível no meio da folhagem de fetos e avencas, floresta de trapos. Espreitava com os olhos piscos, que os punhos fechados esfregavam para baixo e para cima, a cama dos pais. Tinha fominha.


- Vai dar o leite aos pequenos - disse Ele. - E compra o jornal.


Era domingo. Não havia que ter pressas. Podiam descansar. No Nove houve barulho. Alguém mijava de alto, parecia uma fonte clara a brotar duns rochedos, entre limos esverdinhados um repuxo cristalino ou saburroso.


- Inda cá estão - disse Ele.


Arrastar do bidé; água a correr. Gargalhadinhas da rapariga no Nove.


- Olhacomela está satisfeita...


- Daqui a nada vou ali à porta e bato praqueles tenham juízo.


- És maluca... era o que faltava. Deixa-os lá. – Tirou uma fumaça e com um sorriso embevecido: - Deve ser muito novinha a rapariga. Não tem mais de quinze… ou dezasseis...


- Disparate! nem elas consentem cá menores... tem vinte, ou mais.


- Agora! ouve aquele riso, aquela voz de gaiata. Uma mulher não ri assim...


- Percebes muito disso!


- Ah, isso percebo.


- Se digo que tem vinte anos ou mais é porque sei... elas não deixam entrar cá menores...


- És tonta! vão ver-lhes a idade, não? entram e entram mesmo.


- Pergunta-lhes.


- Podes contar com isso. Elas iam lá dizer-me... sou parvo, não?


A Carminda contava na varanda o bailho foi até às seis. O Quim tava lá, parcia maluco o dianho do moço e veio maizeu veio trazer-me aqui à porta.


- Temos casamento! - disse a Mulher-a-Dias, que lavava roupa no tanque.


- Não se sabe nada disse a Carminda num tom intrigativo alegre. - Estou com uma soneira que nem posso...


- Aquela também apanhou a sua conta, esta noite... - disse Ele.


- Tamém é só nisso que pensas...- disse a Outra, saindo da cama numa grande preguiça e começando vagarosamente a desdobrar as meias, a pô-las do direito, com uma atenção meticulosa, sentada na cama de costas para Ele.


- Emquéqueu havia de pensar, é o que se leva desta vida... e a Carminda é mesmo um amor. Que rica mulher!


Ela virou a cara, enfiou com ele o olhar irado:


- Tamém a queres?! vê lá... Marcha, vai com ela, põe-tàndar! Por mim não te pego, é só dezeres!


- Vai à merda! - disse Ele.


A Outra saiu do quarto daí a nada.


- Estepôr! - atirou-lhe Ele pelas costas; e riscou rápido um fósforo.


Bom estar sozinho com um cigarro e deixar andar... ler encafuado no quente da cama... uma solidão resignada aceitável... uma tranquilidade repleta de alibis... e tudo parado em volta . Olhou os dois garotos que brincavam tagarelando sobre o colchão, puxou uma fumaça nervosa e sentiu uma névoa súbita nos olhos. Como era possível? Cobarde solução... se estava tudo a andar... e cada vez mais depressa... connosco... sem nós... contra mim, é o mais certo. Apurou o ouvido, agora era um débil choro no Nove, parecia uma criança mimalha que chorava, entaramelando escandindo palavras soltas, rápidas. Foi espreitar à frincha. O quarto tinha a janela meio-cerrada, mas no espelho distinguiam-se das coisas na penumbra e sumidas dois rostos, a rapariga chorava, um jeito infantil torcia-lhe a boca, medrosa e feia agora. O rapaz fumava, uma dureza talvez fingida no olhar, desprendido, respondia-lhe com secura. A princípio, Ele não percebeu nada. Chegavam-lhe frases curtas, quem falava mais era a rapariga entre soluços abafados enquanto o rapaz fumando rígido, coçando por vezes distraidamente o tufo de cabelos no peito nu sacudia a cabeça sim não, mantinha longas pausas parecia alheio a tudo, enquanto deitava o fumo com força pelas narinas, olhava a direito no espelho, encolhia os ombros como de quem atura por condescendência mas enfadado uma criança a dizer coisas disparatadas, a querer o que não se lhe pode dar. Mais ou menos isto (falas da rapariga):


- … gostava tanto dir contigo... não vás!... dissestes uma vez dissestes que podia ir outro por ti... E que faço eu depois?


Não gostou de os ver assim. Voltou para a cama. A Outra entrou, foi direita aos dois garotos começou a vesti-los aos safanões de impaciência, eles olhavam para a mãe, não percebiam, guinchavam e era tabefe logo de seguida. Iam depois sair.


- Vais ao leite? Compra-me O Século - disse Ele.


- Vai à merda - disse a Outra. E pegou na menina ao colo e sacou o rapaz pela mão, virou-lhe costas.


Pouco depois o rapazito entrou com o rostinho alegre do fresco da rua. Trazia O Século . Eram as aldrabices do costume.


Quando a Outra foi à cozinha ferver o leite, a Suzana estava pior que uma fera:


- A menina já viu uma ,destas? A madama foi ao baile, veio à hora que quis e lhapeteceu e inda por cima está de trombas, não me fala! Ora vamos lá ver se desta vez é queu arrebento e o senhor Altívio sabe tudo que se passa. Eu é que sou uma parva, mazisto... canto mais mole sentem mais carregam. Ná!


A Outra ficou calada. A Suzana, logo depois, mudou de conversa e de cara:


- Então esta noite? ouviu ouviu??


- O quê?


- No Nove, o casalinho?


- Ah!, ouvi, sim, aquilo foi toda a noite...


- E inda lá estão, aquilo équé gozar. Eu por causa disso, tive um sonho muìntengraçado...


- Um sonho?! conte lá, menina Suzana...


- Maluquêras. Do que mavia dalembrar... estava aqui na cozinha a ouvi-los lá no servicinho e depois, a dormir, vejo um homem todo nu, muinta peludo, i jasus! parcia um macaco, mesmo ao pé de mim com aquilo assim, muito teso... vai eu, dou um grande grito! Então o homem pega numa grande faca, nesta, e corta aquilo rente e caiu no chão. O homem fugiu. Então eu, pego naquilo, era oca, mas estava muinta direita... e depois, metia-a, ... sim, tá a perceber?... metia-a em mim e passei a noite a sonhar questava, veja lá... tamém, caquilo cá dentro... a entrar e sair... toda a noite naquilo...


- Essàgora!


- Acredite, menina. E estou moída como se fosse verdade.


Olharam-se as duas, meio a sério-meio a rir. A Suzana mexia a panela em gestos lentos, indolentes, circulares, preguiçosos.


- Estou moída hoje - rematou.


(in “Exercícios de Estilo” de Luiz Pacheco. Editorial Estampa, 1973)

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