
Na capital, a posição de Junot deteriorava-se. As comunicações com a Espanha tinham sido cortadas por levantamentos populares, deixando-o encalhado na costa Atlântica sem perspectiva de auxílio da França. Portugal, como a Espanha, estava em revolta aberta. O Porto, que tivera uma guarnição espanhola, fora libertado e mesmo em Lisboa, a desobediência civil estava a ficar fora do controlo de Junot. Nesse ano, a procissão do Corpo de Deus degenerou em motim. "Quando a procissão passava, levantou-se grande tumulto", escreveu a testemunha presencial Harriot Slessor. "Pernas e braços partidos. Pobres senhoras... com roupa meio arrancada pelas costas pediam socorro; outras desmaiavam." Junot pôs mesmo a questão de retirar, mas decidiu em vez disso concentrar as suas forças dentro e em redor de Lisboa. Os regimentos franceses estacionados na província retiraram, saqueando e matando à medida que abriam caminho até à capital.
Duas escaramuças ligeiras deram início àquilo que acabaria por ser a campanha de cinco anos de Wellesley na península, quando as tropas inglesas se encontraram com posições avançadas dos franceses no trajecto, pela costa portuguesa, em direcção a Lisboa. Os exércitos confrontaram-se primeiro em Roliça, mas foi. no Vimeiro, uma pequena vila a três dias de viagem de Lisboa, que o encontro decisivo teve lugar. Aí, Wellesley notabilizou-se, suplantando Junot e conseguindo a primeira vitória inglesa significativa no continente, em mais de meio século. Os franceses retiraram destroçados e Wellesley reagrupou os seus homens para marchar sobre Lisboa, agora um alvo acessível, mas nesse preciso momento viu-se arredado do comando das tropas. O recém-chegado, Sir Hew Dalrymple, e o seu ajudante de campo, Sir Harry Burrand, optaram pela prudência. Junot, vendo uma escapatória, decidiu reduzir as baixas e rendeu-se a 22 de Agosto de 1808. Os erros tácticos do lado britânico agravaram-se com a assinatura da Convenção de Sintra – um armistício que permitiu ao estropiado exército de Junot partir intacto com o seu equipamento e artilharia para França, a bordo de barcos ingleses.
Houve indignação quando as notícias do acordo chegaram a Londres. O Convénio, escrevia o Observer de Londres, só era "honroso para o inimigo". A "ruína total de uma grande causa", era a conclusão da Edinburgh Review, enquanto que William Wordsworth ficou tão furioso que escreveu um apaixonado tratado sobre o cinismo do acordo. Wellesley também era atacado na imprensa – "toda a Inglaterra se enganou na sua opinião acerca de Sir Arthur Wellesley", declara o Times – embora tenha saído relativamente incólume quando respondeu mais tarde a um inquérito em Londres.
Os lisboetas foram obrigados a assistir às forças francesas derrotadas a carregarem barcos ingleses com bens que tinham roubado durante a estadia – uma repetição ridícula da precipitada partida da corte portuguesa menos de um ano antes. Uma vez mais as docas se encheram de pilhas de caixotes; uma vez mais peças escolhidas da rica herança cultural da cidade eram enfiadas à socapa em porões de navios que partiam para o estrangeiro. Na própria cidade, as tropas de Junot tinham deixado a sua marca. As bandeiras francesas podiam ser arrancadas, mas as fachadas dos edifícios estavam desfiguradas – frontões com as armas reais picadas, insígnias oficiais tiradas dos portões dos palácios, estátuas vandalizadas.
Também havia consternação no Rio. Os ingleses não tinham esperado pela autorização da corte no Brasil, onde D. João e os seus conselheiros tomaram conhecimento da campanha e do seu resultado através de notícias dos jornais e de correspondência privada, semanas depois do acontecimento. Estavam nervosos com as intenções do governo britânico e queixavam-se do número exagerado de tropas estrangeiras em solo português, mas pouco podiam fazer além de apresentar queixas oficiais e esperar por mais relatórios da frente de batalha com um mês de atraso.
Com a libertação de Portugal, chegaram mais tropas britânicas e a Guerra Peninsular começou a sério. Houve uma sucessão de compromissos complexos e muitas vezes inconclusivos – acordos caóticos que tiveram um preço elevado para todos os envolvidos. Ao longo dos anos os franceses empregaram enormes recursos bélicos na península, para se atolarem num conflito que não podiam ganhar. Foram confrontados com um desorientador leque de forças: tropas espanholas mal treinadas e por vezes erráticas, forças portuguesas mais profissionais, preparadas pelos ingleses, o próprio exército britânico e a furtiva mas constante acção de guerrilha, protagonizada por civis revoltados. Para fazer piorar as coisas, os franceses dividiam-se muitas vezes em disputas mesquinhas entre marechais que eram deixados demasiado à vontade pelo poder de Paris.
O que tinha sido previamente visto como uma campanha rápida, começou a arrastar-se. Uma vez e outra, os invasores apercebiam-se que conquistavam território, mas não tinham meios de o conservar. Pilhavam as zonas rurais mas, ao contrário do que se passava no resto da Europa, não obtiam comida suficiente para alimentar os exércitos. As baixas fora de combate aumentavam; a fome e a doença matavam aos milhares. Vagueando por um país regionalizado, as tropas deNapoleão viam-se enredadas em disputas locais, emboscadas por chefes militares que defendiam avidamente os seus feudos contra todos os invasores. Tinham-se preparado para batalhas travadas em campo aberto, mas eram arrastados para uma campanha de guerrilha gerida por combatentes camponeses com um conhecimento muito superior do terreno.
A guerra tornou-se suja, mesmo para os padrões da época, com as atrocidades levadas a cabo pelas forças francesas esfomeadas, mais do que vingadas pelas guerrilhas portuguesa e espanhola. Os franceses tentaram espalhar o medo entre a população rural com execuções exemplares, assassínios e violações, mas, em troca, acabaram eles mesmos aterrorizados por algumas práticas mais imaginativas, para não dizer medievais. Histórias bem fundadas de crucificações, garroteamentos e incinerações no poste estavam permanentemente presentes no espírito dos homens de Napoleão à medida que avançavam por território desconhecido. Aí, encontravam combatentes camponeses armados de forquilhas, armas de caça, até mesmo utensílios de cozinha. Foi um modelo para muitas futuras guerras deste tipo, uma tragédia, uma lição da história a que não se prestou a devida atenção.
A invasão de Junot foi apenas o primeiro de três assaltos que Portugal sofreria às mãos dos franceses. O segundo chegou no fim de Março de 1809, na sequência da evacuação da Corunha das tropas comandadas por Sir John Moore que, com quarenta e oito anos, tinha tomado o comando das forças britânicas em Portugal das mãos de Dalrymple. Em Outubro de 1808 foi-lhe ordenado que levasse para Espanha um exército de 23 mil homens. Chegou a Salamanca e, com as notícias que conseguiu obter de atrasos na chegada de reforços, aliadas a uma grande contra-ofensiva francesa, bateu rapidamente em retirada para o porto galego da Corunha. Foi perseguido, durante algum tempo, pelo próprio Napoleão na sua primeira e única aparição nas campanhas peninsulares, mas mal percebeu que o exército de Moore não podia ser impedido de chegar ao porto, entregou o comando da perseguição ao marechal Soult..
Na noite de 11 de Janeiro de 1809, os ingleses chegaram esgotados e andrajosos à Corunha. "Tínhamos a barba comprida e desgrenhada," recorda o atirador Hibbert Harris. "Quase todos estávamos descalços; muitos tinham a roupa e equipamento em farrapos e a cabeça envolvida em trapos velhos." O embarque desenvolveu-se ao som dos canhões franceses que ecoava pelas ruas da cidade. A retaguarda britânica manteve-os afastados o tempo suficiente para os barcos largarem, mas só um quinto das forças de Moore conseguiu sair de Espanha. Num dos últimos confrontos, Sir John Moore foi abatido por uma bala de canhão e sangrou até à morte no campo de batalha. Os restos do exército desembarcaram exangues em Portsmouth, chocando um público recentemente entusiasmado com a recaptura de Portugal.
As forças do marechal Soult avançaram para sul e dirigiram-se ao Porto. A cidade foi atacada em finais de Março de 1809, as defesas de emergência esboroaram-se e os que fugiam das tropas invasoras caíram numa chuva de metralha quando tentavam atravessar o rio Douro. As tropas de Soult, cansadas de guerra, reagruparam-se na cidade, mas a sua conquista seria de curta duração. Wellesley voltou a Lisboa, a 22 de Abril de 1809, com ordens para recapturar o norte e depois de um impressionante ataque de surpresa bem sucedido, o exército de Soult foi expulso do Porto em Maio.
A segunda invasão francesa fora breve, mas destrutiva. Um oficial inglês, regressando à casa de um nobre português onde estivera hospedado em 1808, descreveu assim o que encontrou:
«as belas balaustradas [estavam] partidas; os lustres e espelhos em pedaços... os quadros de grande qualidade, estavam desfigurados e as paredes mais pareciam de um quartel francês que da casa de um fidalgo português, dadas as pinturas obscenas que as cobriam. O lindíssimo jardim fora totalmente vandalizado; os encantadores caminhos e os caramanchões aromáticos destruídos e demolidos; as fontes partidas aos bocados.»
Na província estava patente a prova macabra das mortes por vingança que ocorreram durante a retirada francesa: soldados pregados às portas dos celeiros, cadáveres com os órgãos genitais amputados. Um ano e meio apenas depois do início da guerra, os portugueses tinham já sido brutalizados pela violência que lhes batera à porta.
(“Império à Deriva – A Corte portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821” de Patrick Wilcken. Livraria Civilização Editora. Porto, 2005)
Imagem: Gravura representando um soldado francês a agredir um camponês aquando da invasão napoleónica da Península Ibérica.