Tempos de Cólera

Coitado do pobre senhor Silva!

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(Escrito em 2012 quando Cavaco Presidente da República se queixava que mal ganhava para comer)


As palavras do senhor Silva, também conhecido pelo Presidente da República Portuguesa eleito por 23% do eleitorado, sobre as suas parcas reformas de mal darem para pagar as despesas correntes da família de tão excelsa figura do estado, fizeram indignar algumas boas almas que costumam opinar na blogosfera e porventura outros ingénuos da política; por outro lado, tiveram o condão de fazer saltar a terreiro os habituais opinadores oficiais, onde se inclui o vidente Marcelo.


Mas, diga-se em abono da verdade, o homem não teve nenhum lapso e explicou-se muitíssimo bem; ou seja, no seu entender, também se considera um prejudicado pelas medidas de austeridade decretadas pelo governo para enfrentar a crise. Em sua forte e inabalável opinião (raramente tem dúvidas e nunca se engana), por ele são igualmente distribuídos os sacrifícios pedidos aos portugueses: a distribuição é equitativa.


Ou mais não foi que um desabafo de indivíduo arrogante, que acha que deveria ganhar ainda mais, já que foi mal habituado desde que entrou na política, e completamente alheio aos verdadeiros sacrifícios do povo que trabalha e sempre esteve em crise: o homem foi sincero.


Toda a gente sabe quanto o homem mete ao bolso na medida em que as suas declarações são do domínio público e deve-se reconhecer que é pessoa trabalhadora e poupadinha: trabalhou como professor durante 40 anos; esteve no Banco de Portugal, como quadro de nível 18, durante 30; ocupou o cargo de primeiro-ministro durante 10 anos; como Presidente da República vai em seis. É o que se pode dizer: um mouro de trabalho.


A sua fortuna pessoal só em depósitos bancários e acções de empresas deve ultrapassar bem à vontade um milhão de euros, e outro tanto deve valer o seu património imobiliário. E se gasta anualmente 16 milhões de euros, saídos directamente do Orçamento do Estado, é porque não pode fazer mais na poupança com os custos do árduo exercício de representante máximo do Estado Português, tendo já “prescindido” do vencimento como PR, no valor de 6.523 euros. O que querem mais?


É quase uma infâmia acusar o senhor Silva de, quando era primeiro-ministro, ter sido o “Destruidor do tecido produtivo português dos anos 80”, “Líder de anos e anos de repressão policial ” ou de “Pai do Monstro do Défice”, “Padrinho de uma trupe de vigaristas, ladrões e assassinos”, tendo-se transformado na “Maior Inutilidade” do dito “Portugal Democrático”.


O homem até se tem excedido em participar no enorme esforço desenvolvido por este governo, e também pelo anterior, na resolução da grave crise que o país atravessa, tendo dado aval aos PECs anteriores e promulgado a lei do OE-2012, achando que os portugueses devem empobrecer já e rapidamente para que, a prazo, embora não se sabendo bem quando, voltem a enriquecer.


O homem, tal como o das botas, é da província, conhece bem o Portugal Profundo, daí ter tentado atravessar o “Pulo do Lobo” – foi pena o não ter feito, a pé! O homem merece bem as benesses que irá receber quando terminar o mandato, à semelhança dos anteriores PR's, que ficam ao Estado em não sei quantos milhares de euros/mês cada um.


A petição que corre na net é prova de incompreensível ingratidão do povo, apesar de ir em perto das 40 mil assinaturas; claro que não é por esta petição que o homem irá ser destituído, mas não deixa de ser um sinal que desfeia a imagem de quem, de toda a classe política, durante mais tempo ocupou cargos públicos. É, provavelmente, quem, desde o 25 de Abril, mais mamou na teta do Estado; nem o papá da democracia, o inefável Mário Soares, lhe chega aos calcanhares. É quase uma injúria acusar o homem de representante e defensor por excelência do sector mais reaccionário e ultramontano da burguesia portuguesa.


Pena foi a mãezinha não ter feito uma interrupção voluntária da gravidez na altura devida, sobrou para nós. Se não fosse este, seria outro: frutos do 25 de Abril e da democracia burguesa instituída após o 25 de Abril de 1975.


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Transcreve-se o artigo de Manuel António Pina (outro mal agradecido): "Eu, eu, eu...e os outros"


Embora tenham suscitado justificada indignação geral, as queixas de Cavaco Silva sobre a(s) sua(s) reformas (mais de 10 000 euros mensais, que "não vão chegar para pagar as minhas despesas") não têm relevância senão como sintoma.


De facto, tais queixas foram feitas pouco tempo depois de o mesmo Cavaco Silva ter, sem pestanejar, promulgado um Orçamento que confisca os subsídios de férias e Natal a milhares de reformados com pensões de poucas centenas de euros. E só 48 horas após a assinatura de um Acordo de Concertação Social que subverte totalmente os direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores assegurados na Constituição, facilitando e embaratecendo os despedimentos e deixando-os ao arbítrio patronal, e reduzindo indemnizações, subsídios, férias, feriados e tempos de descanso, acordo em que Cavaco vê um "sinal de confiança" para todos os portugueses.


Parece que Cavaco irá receber os subsídios de férias e Natal a que tem direito como reformado do Banco de Portugal. Descontou para isso e tem todo o direito a recebê-los. O problema é que também os restantes portugueses, os reformados e os trabalhadores da Administração Pública no activo, têm idêntico direito e Cavaco subscreveu sem reservas, sequer de constitucionalidade, a lei que os espolia de tal direito.


O "provedor do povo" queixou-se ao povo de que 10 000 euros por mês não lhe chegam. Será o povo, por sua vez, o provedor do seu provedor?


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Petição: Pedido de Demissão do Presidente da República:


Nas suas recentes declarações enquanto Presidente da República Portuguesa o Sr. Aníbal Cavaco Silva afirma temer que as suas pensões num total acumulado 10.042€ (em 2011), sendo uma delas através do Banco de Portugal a qual não esteve sujeita aos cortes aplicados aos restantes cidadãos da Republica Portuguesa, não sejam suficientes para suportar as suas despesas, estas declarações estão a inundar de estupefacção e incredulidade uma população que viu o mesmo Presidente promulgar um Orçamento de Estado que elimina o 13.º e 14.º meses para os reformados com rendimento mensal de 600 euros".


Perante tão grande falta de senso e de respeito para com a População Portuguesa, entendem os abaixo-assinados cidadãos que Presidente da República Aníbal António Cavaco Silva, não reúne mais condições nem pode perante tais declarações continuar a representar a população Portuguesa.


Peso isto bem como o medíocre desempenho do Sr. Presidente da República face à sua diminuta intervenção nos assuntos fundamentais e fracturantes da Sociedade Portuguesa, os cidadãos abaixo assinados vêm por este modo transmitir que não se sentem representados, nem para tal reconhecem autoridade ao Sr. Aníbal António Cavaco Silva e pedem a sua imediata demissão do cargo de Presidente da República Portuguesa.


Os signatários (ingratos)


Imagem: in blog "O Guardião"


Em Os Bárbaros, 25 de Janeiro 2012

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