Tempos de Cólera

Augusto Abelaira, o escritor esquecido

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“Sem Tecto, entre Ruínas” de Augusto Abelaira. Romance iniciado em Maio de 68, e segundo palavras do autor, «após trabalho irregular, sem continuidade, com desistências várias e tentativas de outros romances entretanto naufragados», ficou pronto em Fevereiro de 1974. As preocupações, as interrogações e as considerações, e sentimentos, manifestados pelas personagens são as do escritor, algumas delas vieram a ser confirmadas no futuro, pós 25 de Abril: muitos opositores do salazarismo aspiravam somente a uma exploração mais inteligente dos trabalhadores, e para isso contaram com a colaboração de partidos falsamente de esquerda.


*


«O Vital das Neves tinha entrado no meu gabinete para uma troca de ideias, havia mais de um mês, estivera no estrangeiro, que não conversávamos, resolvêramos fazer o balanço dos acontecimentos de Maio-Junho.


– Então o PC e a CGT, as cúpulas da CGT, boicotaram a revolução – digo a desafiá-lo e não muito seguro (com alguma segurança, em todo o caso).


Irónico:


– Se confundes agitação, mesmo agitação política, com situação revolucionária, se confundes aventureirismo com...


– Conversa! O PC está ultrapassado, tenta sempre cortar as asas aos movimentos que não domina, é sempre a mesma coisa em toda a parte. Se não houve em França situação revolucionária, quando a teremos? Como é que o partido sabe, explicas-me? – O Vital das Neves, dois anos antes, esteve preso seis meses, sentiu depois algumas dificuldades em regressar à empresa, valeu-lhe por sorte um dos administradores, velho republicano conservador, mas liberal. Sofrera a estátua, vira as paredes azuis e ondulantes, ouvira a mulher a gritar por socorro como se lhe estivessem a bater, mas fora uma alucinação. E a PIDE não conseguira arrancar dele uma só palavra. Este pormenor sei-o não porque mo tenha contado, é extremamente modesto. Além do mais, a própria coragem não o leva a condenar quem o denunciou.


– A longa experiência, anos e anos de provocações. – Não usa gravata, deve-se-lhe no escritório o início do movimento contra a gravata, originando assim uma pequena guerra com a direcção. E a vitória foi tão completa que um dos administradores, pelo menos nos dias quentes, também já não usa gravata. – E sabe de há muito distinguir os verdadeiros revolucionários dos pequenos burgueses insatisfeitos com certo tipo de capitalismo.


– Que combatem o capitalismo.


– Insatisfeitos traduz melhor a realidade. É que não aderem lá do fundo às massas e aos movimentos políticos que se identificam com elas. Atribuem-se a sabedoria.


A sabedoria. Mas deixou de ouvir o Vital das Neves, ouve o Miguel, nessa manhã: «Já se viu um partido comunista subir ao poder por via eleitoral?» E continuara, perante o silêncio da Maria da Graça e do Eurico: «Quando o De Gaulle ameaçou que só haveria eleições se os Franceses tivessem juízo, isto é, que não as haveria se o não tivessem, desempenhava o seu papel. Liberdade para o PC diz a democracia burguesa, se o PC se mantiver quietinho, se se contentar com existir...Porque mesmo que ganhasse as eleições não teria autorização para governar, os blindados do Massu cercavam Paris...» – «Que queria que o PC fizesse? A revolução?», dissera João Gilberto, desejoso de que o Miguel e o Eurico se fossem embora, desejoso de ficar sozinho com a Maria da Graça. Mas acrescentara: «Porque se têm força para fazer a revolução então é grave que não a façam. Mas se a não têm? Se a França viveu uma pura ilusão revolucionária? De tal modo que se o PC desencadeasse a revolução a sério ela se saldaria por uma terrível derrota, o avanço da direita?» E o Miguel: «Seria preferível. Pelo menos acabavam-se as ilusões, o problema da conquista do poder pela esquerda teria de ser posto noutro pé.»


Um pouco cansado porque acabamos sempre por dizer as mesmas coisas, interrompo o Vital das Neves:


– Tens visto o Barroso?


– A força dos acontecimentos em França resultou da adesão das massas, sem elas os estudantes seriam somente algumas centenas de agitadores. ...Mas se o que se passou em França demonstra a crise do capitalismo, as desinteligências da burguesia, o protesto das novas gerações, isso não significa que o momento estivesse maduro para a revolução que fatalmente redundaria num banho de sangue e na decapitação da classe operária por muitos anos. E a prova tiveste-a no domingo passado, a vitória do De Gaulle, apesar da aliança entre o PC e os socialistas do Miterrand.


O Miguel continuara: «Estou a pensar em Portugal. A queda imediata do Salazar só teria uma vantagem, mostrar que a maior parte dos que se dizem de esquerda não o são. Assim, com o Salazar mistura-se tudo, todos se lhe opõem, mas porque o Salazar não os deixa participar na exploração. Com a democracia burguesa... Então é que os queria ver se defendiam o socialismo na prática...Porque no fundo todos esses oposicionistas não são contra a opressão, contra toda ela. São partidários de uma opressão mais inteligente que dê aos homens a ilusão de que são livres, de que escolhem os governantes, de que escolhem o tipo de sociedade em que querem viver. E esses oposicionistas que pretendem? O assalto à máquina do Estado, servir-se da máquina do Estado...» Agressivo, visando João Gilberto? Visando-me a mim – porque o


João Gilberto não é esse indivíduo que tantas vezes vejo como uma terceira pessoa que nada tem a ver comigo, uma terceira pessoa vista de fora, um ele que ocupa um espaço diferente. O João Gilberto sou eu.


Mas que importava? O Miguel e o Eurico tiveram de se ir embora, fico sozinho com a Maria da Graça.»


(“Sem Tecto, entre Ruínas”, Editora Sá da Costa, 1978)


Augusto José de Freitas Abelaira nasceu em Ançã (Cantanhede) em 18 de Março de 1926 e deixou-nos fisicamente em 4 de julho de 2003. Um espírito incomodativo que se caracterizou pela verticalidade. Agora, um esquecido pelo sistema.

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