Tempos de Cólera

ARTE POÉTICA

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Entre sombra e espaço, guarnições e donzelas,
com um coração singular e fatídicos sonhos,
precipitadamente pálido, envelhecida a fronte
e com um luto de viúvo furioso por cada dia de vida,
para cada água invisível que sonolento bebo,
e de todo o ruído que recebo a tremel;
tenho a mesma sede ausente e a mesma febre fria,
um ouvido que nasce, uma angústia indirecta,
como se chegassem fantasmas ou ladrões,
e numa casca de extensão fixa e profunda,
como um servo humilhado, como um sino roufenho,
como um espelho velho, como um odor de casa solitária
onde os hóspedes entram de noite perdidamente bêbedos,
e há um odor de roupa atirada ao chão e uma ausência de flores
-possivelmente de outro modo ainda menos melancólico,
mas, na verdade, de súbito, o vento que me açoita o peito,
as noites de substância infinita caídas no meu quarto,
o rumor de um dia que arde com sacrifício,
pedem-me o profético que há em mim, com melancolia
e um golpe de objectos, que chamam sem ter resposta
há, e um movimento sem tréguas, e um nome confuso.
(1935)


*


PAZ, MAS NÃO A SUA


Paz no Vietname! Olha o que deixaste
dentro dessa paz de sepultura
cheia de mortos por ti calcinados !

Com um raio de eterna queimadura
perguntarão por ti os enterrados.
Nixon, encontrar-te-ão essas mãos duras

da revolução por sobre aterra
para humilhar tua pálida figura:

será o Vietname que te ganhou a guerra.

Nixon, não creio em tua imposta paz!
Tua invasão foi dizimada, foi vencida
quando já não podias perder mais.

E quando teus bombardeiros homicidas
caíam como moscas abatidas
pelo disparar da liberdade!

Esta não foi tua paz, Nixon sangrento!
Nixon, sanguinolento Presidente:
é tua medalha de remordimento !

É a paz dos povos inocentes
que tu entregaste ao fogo e ao tormento!
E do Vietname a paz desfigurada

pelos teus papéis e embaixadores.
É a paz de uma terra dessangrada
e que encheu o mundo com seus louros

que brotaram do sangue derramado!

É a vitória do Ho Chi Minh ausente
A que obrigou teu punho ensanguentado
A confirmar a paz desses valentes.
(1973)


Pablo Neruda


(“Antologia”. Relógio d'Água. 1998)


Nasceu a 12 de Julho de 1904 em Parral, no sul do Chile, com o nome de baptismo de Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, tendo adoptado em 1920 como pseudónimo o nome do grande escritor checo Neruda. Pablo Neruda morre em 23 de Setembro de 1973 em Santiago. Matilde Urrutia, em entrevista concedida, disse que a causa da sua morte não foi o cancro de que sofria, mas o tremendo abalo que lhe causou o golpe perpetrado sobre o Governo de Unidade Popular e o povo do Chile.


 «A minha poesia e a minha vida decorreram como um rio americano, como uma torrente de águas do Chile, nascidas na profundidade secreta das montanhas austrais, dirigindo sem cessar o movimento das suas correntes para uma saída marinha. A minha poesia não repeliu nada do que pôde trazer no seu caudal; aceitou a paixão, explicou o mistério, e abriu passagem entre os corações do povo. Coube-me sofrer e lutar, amar e cantar; couberam-me, na partilha do mundo, o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e o do sangue. Que mais quer um poeta?»


«Confieso que he vivido»

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