
Como os maiores ladrões são os que têm por ofício livrar-nos de outros ladrões
Não pode haver maior desgraça, no mundo, que converter-se, a um doente, em veneno a teriaga que tomou para queimar a peçonha que o vai matando. Ferir-se e matar-se um homem, com a espada que cingiu ou arrancou para se defender de seu inimigo, e arrebentar-lhe nas mãos o mosquete e matá-lo, quando fazia tiro para se livrar da morte – é fortuna muito má de sofrer. E tal é que acontece em muitas Repúblicas do mundo, e até nos reinos mais bem governados, os quais, para se livrarem dos ladrões – que é a pior peste que os atrasa –, fizeram varas que chamam de justiça, isto é, meirinhos, almotacés, alcaides; puseram guardas, rendeiros e jurados; e fortaleceram a todos com provisões, privilégios e armas. Mas eles, virando tudo de carnaz para fora, tomam o rasto às avessas e, em vez de nos guardarem as fazendas, são os que maior estrago nos fazem nelas, de sorte que não se distinguem dos ladrões que lhes mandam vigiar em mais senão que os ladrões furtam nas charnecas e eles no povoado; aqueles com carapuças de rebuço e eles com as caras descobertas; aqueles com seu risco e estes com provisão e cartas de seguro. Declaro-me: manda a lei aos senhores almotacés que vigiem as padeiras, regateiras, estalagens e tabernas, etc., se vendem as coisas por seu justo preço. Antecipam-se todas as pessoas sobreditas, mandam a casa as primícias e meias natas de seus interesses e ficam logo licenciadas para maquinarem tudo como quiserem.
Têm obrigação os meirinhos e alcaides de tomarem as armas defesas, prenderem os que acharem de noite e darem cumprimento aos mandados de prisões e execuções, que se lhes encarregam. Dissimulam e passam por tudo, pelo dobrão e pela pataca que lhes metem na bolsa, e seguem-se daí mortes, roubos e perdas intoleráveis. Corre por conta dos guardas e rendeiros a defensão dos pastos, vinhas, olivais, coutadas, que não as destruam os gados alheios. Quem os tem avença-se com eles, por pouco mais de nada, que vem a ser muito, porque concorrem os poucos de muitas partes; ficam livres para poderem lograr as fazendas alheias, como se foram próprias, sem incorrerem nas coimas. E eis aqui como os que têm por ofício livrar-nos de ladrões vêm a ser os maiores ladrões que nos destroem. Não falo de varas grandes, porque as residências as fazem andar direitas, nem das garnachas, que ,esperam maiores postos e não quer, em perder o muito pelo pouco. Livre-nos Deus a todos de oferecimentos secretos, que correm sua fortuna sem testemunhas; aceitos, torcem logo as meadas, até quebrar o fiado pelo mais fraco, e a poder de nós cegos o fazem parecer inteiro. Até nas residências, onde se dão em se fazerem as barbas uns aos outros, fíca tudo sem remédio e com a maior parte da presa, em um momento, quem nos ia restaurar dos danos de um triénio.
Milhares de exemplos há que explicam bem esta espécie de furtos, e melhor que todos o que poderemos pôr nos físicos; mas manda a Sagrada Escritura que os honremos propter sanitatem, e assim é bem que lhes guardemos aqui respeitos, ainda que a verdade sempre tem lugar. Digamo-lo, ao menos, dos boticários. Têm estes um livrinho – não é maior que uma cartilha – e nada tem de sua doutrina, porque se devia de compor no limbo. Certo é que o não imprimiu Galeno, que houvera de ser muito bom cristão se não fora gentio, porque tinha bom entendimento. A este livro chamam eles: Qui pro quo, quer dizer «uma coisa por outra»; e o título basta para se entender que contém mais mentiras que verdades. Antes, só uma verdade contém e é que, em tudo, ensina a vender gato por lebre, como agora. Se lhe faltar na botica a água de escorcioneira, que receita o médico para o cordial, que lhe podem botar água de cevada cozida; e se não tiverem pedra de bazar, que pevides de cidra tanto montam; se não houver óleo de amêndoas, que lhe ponham o da candeia. E assim vai baralhando tudo, de maneira que não pode haver boticário que deixe de ter quanto lhe pedem. E daí poder ser que veio o provérbio, com que declaramos a abundância de uma casa rica, que tudo se acha nela como em botica.
E já lhes eu perdoara tudo, se tudo tivera os mesmos efeitos; e se eles não nos levaram tanto pelos ingredientes supostos, que nada valem, como haviam de levar pelos verdadeiros, que valem muito. Donde parece que nasceu a murmuração de quem disse que as mãos dos boticários são como as de Midas, que, quanto tocam, convertem em oiro, porque não há arte química que os vença em fazer de maravalhas metais preciosos; nem pode haver maior destreza que a de um destes mestres ou discípulos de Esculápio que, mandando pelo seu moço buscar um molho de malvas ao monturo, com duas fervuras que lhe dão no tacho, ou com as pisar no almofariz, as transformam, de maneira que não lhes saem das mãos sem lhes deixarem nelas três ou quatro cruzados, não valendo elas, em si, um ceitil; e o mesmo corre em outras mil e trezentas coisas. Têm os físicos-mores obrigação de vigiarem tudo isto, e assim o fazem correndo o reino e visitando todas as boticas dele algumas vezes. Chamam a isto dar varejo e dizem bem, porque assim como nós varejamos uma oliveira, para lhe apanhar a azeitona, assim eles varejam as boticas, para recolher dinheiro. e muito para ver a a diligência com que os boticários se acodem uns aos outros nestas ocasiões, emprestando-se vidros e medicamentos, para que os visita dores os achem providos de tudo. E poderá suceder – por mais que tenham tudo bem apurado e a ponto –, se não andarem mais diligentes em peitar que em se prover, que lhes quebrem todos os vidros, por dá cá aquela palha. Por isso, outros fazem bem, que visitam, antes de serem visitados, e com isso escusam o trabalho de se proverem e apurarem; e escapam os seus frascos, como vaso mau que nunca quebra.
Bem se vê como responde tudo isto ao título. deste capítulo; só uma coisa há aqui que a não entendo nem haverá quem a declare: que morra enforcado o homicida, que matou, à espingarda ou às estocadas, um homem, e que matem boticários e médicos, cada dia, milhares deles, sem vermos por isso nenhum na forca, antes são privilegiados, que, depois de vos darem com as costas no adro e com vosso pai na cova, demandam vossos herdeiros que lhes paguem a peçonha com que vos tiraram a vida e o trabalho que tiveram em vos apressarem a morte, com sangrias piores que estocadas, por serem sem necessidade ou fora de tempo.
Um ferrador, vizinho do cardeal Palloto, desapareceu de Roma; e indo depois o cardeal a Nápoles, com certa diligência do sumo pontífice, teve um achaque, sobre que se fez junta de médicos, e entre eles veio o ferrador por mais afamado. Conheceu-o o cardeal, tomou-o à parte e perguntou-lhe quem o fizera médico. Respondeu que só mudara de fortuna e não de ofício, porque, do mesmo modo que curava, em Roma, as bestas, curava, em Nápoles, os homens; e que lhe sucedia tudo melhor, porque além de acertar nas curas tão bem e melhor que os demais médicos, se acertava, por erro, de dar com algum doente na outra vida, que ninguém o demandava por isso como sua eminência, que lhe fez pagar uma mula do seu coche, por lhe morrer andando em cura. O que mais sucedeu no caso não serve ao intento; mas do dito se colhe que anda o mundo errado na matéria de médicos e boticários, que hão mister grandíssima reforma, porque, tendo por ofício assegurar as vidas, não só no-las tiram, mas sobre isso nos pedem as bolsas. Não fazia outro tanto o «Sol-Posto» aos castelhanos, nas charnecas; e, no cabo, foi esquartejado por isso. E estes senhores ficar-se-ão rindo e aguçando a ferramenta, para irem por diante na matança de que fazem oficio.
Em França, há lei que nenhum médico do paço vença salário enquanto alguma pessoa real estiver doente, porque assim se apressem em tratar da sua saúde. E os portugueses somos tais que, quando estamos doentes, fazemos mais mimos e damos maiores pagas aos médicos, sem advertirmos que, por isso mesmo nos dilatarão a saúde e farão grave o mal que é leve. Como o outro que curava de um espinho certo cavalheiro e tinha-lhe metido em cabeça que era apostema. Ausentou-se um dia e deixou seu filho instruído que continuasse com os emplastros do espinho, a que chamavam apostema. Mas o filho, na primeira cura, para se mostrar mais destro, arrancou o espinho; cessaram as dores e sarou o doente, em menos de vinte e quatro horas. Veio o pai; pediu-lhe o filho alvíssaras que sarara o doente só com lhe tirar o espinho. Respondeu-lhe o pai: «Pois daí comerás para besta. Não vias tu, selvagem, que, enquanto se queixava das dores, continuavam as visitas e se acrescentavam as pagas? Secaste o leite à cabra que ordenhávamos.»
Bem se acudiria a isto se se pagassem melhor as curas breves que as dilatadas. E muito necessário era haver lei que nenhuma cura se pagasse do doente que morresse. Pudera-se, pelo menos, pôr remédio a tudo, com favorecerem os reis mais esta ciência, que anda muito arrastada, porque não ee aplica a ela senão quem não tem cabedal para cursar outros estudos. No Estado de Milão, todos os médicos têm foro de condes; nos Estados de Mântua, Modena, Parma e em toda a Lombardia, são tidos e havidos por fidalgos e gozam os seus privilégios. El-rei D. Sebastião começou a aplicar algum cuidado nesta parte, mandando à Universidade de Coimbra que escolhessem, de todos os gerais, os estudantes mais hábeis e nobres e que os aplicassem à medicina, com promessas de grandes acrescentamentos. Por mais fácil tivera mandar à China dois pares deles, com as mesmas promessas, para estudarem a medicina com que todo aquele vastíssimo império se cura, que, sem controvérsia, é a melhor do mundo, porque sabe qualquer médico, pelas regras da sua arte, em tomando o pulso a um doente, tudo o que teve e há-de ter por horas, sem lhe errar nenhum acidente. E logo levam consigo os medicamentos para a cura, se é que o mal tem alguma. E melhor fora irmos lá buscar essa ciência, para reparar a vida, que as porcelanas que logo quebram.
Desenhos: Eduardo Batarda
Arte de Furtar (capítulo IV) - (Edições Afrodite. Lisboa, 1970)
Monumento da prosa barroca, a Arte de Furtar, hoje dominantemente atribuída ao jesuíta Padre Manuel da Costa (1601-1667), é uma das obras literárias emblemáticas do período da Restauração e o ponto mais alto da literatura portuguesa de costumes dos séculos XVI a XVIII. A sua redacção ocorreu, como se depreende do texto, em 1652, ou seja, ainda em vida de D. João IV, ao qual foi oferecida pelo autor, embora só quase um século depois tenha sido impressa.