Tempos de Cólera

António Jacinto – Outro poeta maldito

 


transferir (2).jpg


Bailarina Negra


A noite


(Uma trompete, uma trompete)


fica no jazz


A noite


Sempre a noite


Sempre a indissolúvel noite


Sempre a trompete


Sempre a trépida trompete


Sempre o jazz


Sempre o xinguilante jazz


Um perfume de vida


esvoaça


adjaz


Serpente cabriolante


na ave-gesto da tua negra mão


Amor,


Vênus de quantas áfricas há,


vibrante e tonto, o ritmo no longe


preênsil endoudece


Amor


ritmo negro


no teu corpo negro


e os teus olhos


negros também


nos meus


são tantãs de fogo


amor.


*


Monangamba


Naquela roça que não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;


Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.


O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado!


Negro da cor do contratado!


Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:


Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem trás pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de déndén?
Quem capina e em paga recebe desdém
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinqüenta angolares
porrada se refilares?


Quem?


Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
— Quem?


Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?


Quem faz o branco prosperar,
ter a barriga grande — ter dinheiro?
— Quem?


E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
— Monangambéée...


Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
— Monangambéée...


*


Poema da Alienação


Não é este ainda o meu poema
o poema da minha alma e do meu sangue
não
Eu ainda não sei nem posso escrever o meu poema
o grande poema que sinto já circular em mim


O meu poema anda por aí vadio
no mato ou na cidade
na voz do vento
no marulhar do mar
no Gesto e no Ser


O meu poema anda por aí fora
envolto em panos garridos
vendendo-se
vendendo


“ma limonje ma limonjééé”


O meu poema corre nas ruas
com um quibalo podre à cabeça
oferecendo-se
oferecendo


“carapau sardinha matona
ji ferrera ji ferrerééé…”


O meu poema calcorreia ruas
“olha a probíncia” “diááário”
e nenhum jornal traz ainda
o meu poema


O meu poema entra nos cafés
“amanhã anda a roda amanhã anda a roda”
e a roda do meu poema
gira que gira
volta que volta
nunca muda


“amanhã anda a roda
amanhã anda a roda”


O meu poema vem do Musseque
ao sábado traz a roupa
à segunda leva a roupa
ao sábado entrega a roupa e entrega-se
à segunda entrega-se e leva a roupa


O meu poema está na aflição
da filha da lavadeira
esquiva
no quarto fechado
do patrão nuinho a passear
a fazer apetite a querer violar


O meu poema é quitata
no Musseque à porta caída duma cubata


“remexe remexe
paga dinheiro
vem dormir comigo”


O meu poema joga a bola despreocupado
no grupo onde todo o mundo é criado
e grita


“obeçaite golo golo”


O meu poema é contratado
anda nos cafezais a trabalhar
o contrato é um fardo
que custa a carregar


“monangambééé”


O meu poema anda descalço na rua


O meu poema carrega sacos no porto
enche porões
esvazia porões
e arranja força cantando


“tué tué tué trr
arrimbuim puim puim”


O meu poema vai nas corda
encontrou sipaio
tinha imposto, o patrão
esqueceu assinar o cartão
vai na estrada
cabelo cortado


“cabeça rapada
galinha assada
ó Zé”


picareta que pesa
chicote que canta


O meu poema anda na praça trabalha na cozinha
vai à oficina
enche a taberna e a cadeia
é pobre roto e sujo
vive na noite da ignorância
o meu poema nada sabe de si
nem sabe pedi
O meu poema foi feito para se dar
para se entregar
sem nada exigir


Mas o meu poema não é fatalista
o meu poema é um poema que já quer
e já sabe
o meu poema sou eu-branco
montado em mim-preto
a cavalgar pela vida.


* António Jacinto (do Amaral Martins) (Luanda, 28/9/1924 – Lisboa, 23/6/1991): Poeta e contista. Jacinto ganhou conhecimento com sua poesia de protesto, e devido à sua militância política, foi exilado no Campo de Concentração de Tarrafal, em Cabo Verde, no período de 1960 a 1972.


https://www.escritas.org/pt/t/4526/monangamba

0