
Frederico Nietzsche
Eis-me chegando ao fim e eis a minha sentença. Condeno o cristianismo, lanço contra a igreja cristã a mais terrível acusação que jamais passou pelos lábios de um acusador. Para mim ela é a maior corrupção concebível, a sua vontade de corrupção tinha como fim a última das corrupções possíveis. Nada a igreja cristã poupou à sua corrupção, de cada valor fez um não-valor, de cada verdade uma mentira, de cada rectidão uma baixeza de alma. Que se atrevam a falar-me das duas benesses «humanitárias»! Suprimir qualquer angústia iria contra o seu mais profundo interesse: ela viveu de angústias, ela inventou angústias para se eternizar. O verme do pecado, por exemplo: foi necessária a Igreja para a humanidade se ver enriquecida com essa angústia! «A igualdade das almas perante Deus», essa aldrabice, esse pretexto para as rancunes* de todos os espíritos inferiores, essa ideia-explosivo, finalmente tornada revolução, ideia moderna e início de todos o declínio de toda e qualquer organização social – é o dinamite cristão… «Humanitárias» benesses do cristianismo! Adestrar a humanitas para a tornar uma auto-contradição, uma arte de se poluir, uma vontade de mentira a todo o custo, uma repulsa, um desprezo por todos os bons e rectos instintos! A isso chamaria eu as benesses do cristianismo! – O parasitismo, só e única prática da Igreja; com o seu ideal de anemia, o seu ideal de «santidade» bebendo, até esgotar, todo o sangue, todo o amor, toda a esperança da vida; o além como vontade de negação da realidade; a cruz como emblema para a mais subterrânea conjura que jamais existiu – contra a saúde, a beleza, a qualidade, a bravura, o espírito, a bondade de alma, contra a própria vida…
Esta eterna acusação contra o cristianismo, hei-de escrevê-la nas paredes, por todo o lado onde houver paredes – as minhas letras fazem ver até os cegos… Chamo ao cristianismo, a grande maldição, a grande corrupção interior, o grande instinto de vingança para o qual não há meio algum que seja demasiado venenoso, clandestino, subterrâneo, demasiado pequeno – chamo-lhe o enxovalho imortal da humanidade…
E o tempo conta-se a partir desse dies nefastus, com que se instaurou esta fatalidade – do primeiro dia do cristianismo! E porque não do seu último dia? – A contar de hoje? – Transvolarização de todos os valores!
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LEI CONTRA O CRISTIANISMO
Dada no dia da Salvação, primeiro dia do ano Um (- a 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário)
GUERRA DE MORTE: O VÍCIO
O VÍCIO É O CRISTIANISMO
Artigo Primeiro. – É vício qualquer tipo de anti-natureza. A mais viciosa espécie de homens é o padre. Ele ensina a anti-natureza. Contra o padre não temos razões, temos a casa de correcção.
Artigo Segundo. – Qualquer participação num ofício divino é atentado contra a moral pública. Seremos mais duros para com um protestante que para um católico, mais duros para com um protestante liberal que para com um puritano. Quanto mais próximo se está da ciência, maior é o crime de ser cristão. Por consequência, o criminoso dos criminosos é o filósofo.
Artigo Terceiro. – O lugar de maldição onde o cristianismo chocou os ovos de basilisco, será completamente arrasado, e sendo sobre a terra o local sacrílego, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Aí serão criadas serpentes venenosas.
Artigo Quarto. – A pregação da castidade é uma pública excitação para o anti-natural. Desprezar a vida sexual, enxovalhá-la com a noção de «impuro», eis o verdadeiro pecado contra o espírito santo da vida.
Artigo Quinto. – Comer a Uma mesa com um padre, expulsa; fazendo-o, excomungamo-nos da sociedade proba. O padre é a nossa Tchandala, - será metido na prisão, privado de alimentos, expulso para uma espécie de deserto.
Artigo Sexto. – Dar-se-á à história «santa» o nome que merce, pois é a história maldita; utilizar-se-ão as palavras «Deus», «Salvador», «Redentor», «Santo», para injuriar, para com elas marcar os criminosos.
Artigo sétimo. – O resto nasce daqui.
Nietzsche – Anticristo
O Anticristo
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O MARTELO FALA
ZARATUSTRA 3,90
Tu, ó meu Querer, milagre para toda a angústia, tu minha necessidade. Livra-me da pequena vitória!
Tu, caminho da minha alma, a que chamo destino! Tu em mim! Guarda-me e reserva-me para Um grande destino!
E a tua última grandeza, meu Querer, reserva-a para ser a derradeira, - possas tu ser inexorável na vitória. Ah! Quem não sucumbiu na vitória!
Ah! Quem há cujo olhar se não tenha enevoado neste crepúsculo ébrio! Ah! Quem, cujo pé não tenha tropeçado; quem, que não tenha desaprendido no momento da vitória – a estar de pé!
– Que um dia eu esteja pronto e amadurecido no grande Meio-dia, pronto e amadurecido ao bronze ardente, à nuvem prenhe de raios, à teta regorgitante de leite:
– pronto e amadurecido para mim próprio e para o meu Querer mais secreto, um arco no ardor da sua flecha, uma flecha no ardor do seu astro:
– um astro pronto e amadurecido no seu Meio-dia, incandescente, trespassado, na delícia das flechas aniquiladoras do sol: – ele próprio sol e inexorável vontade-sol, pronta para«, triunfante, aniquilar!
Ó Querer, desvio de toda a angústia, tu, minha necessidade! Preserva-me uma grande vitória!
(O Anti-Cristo, Frederico Nietzsche. Editorial Presença, 1973)