Tempos de Cólera

Álvaro de Campos

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(Nascido em dia de Santo António)


Ah a frescura na face de não cumprir um dever!


Ah a frescura na face de não cumprir um dever!


Faltar é positivamente estar no campo!


Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!


Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.


Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,


Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.


 


Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.


Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.


É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,


 


Deliberadamente à mesma hora...


Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.


É tão engraçada esta parte assistente da vida!


Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,


Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.


 


*


 


Cruz na porta da tabacaria!


 


Cruz na porta da tabacaria!


Quem morreu? O próprio Alves? Dou


Ao diabo o bem-estar que trazia.


Desde ontem a cidade mudou.


 


Quem era? Ora, era quem eu via.


Todos os dias o via. Estou


Agora sem essa monotonia.


Desde ontem a cidade mudou.


 


Ele era o dono da tabacaria.


Um ponto de referência de quem sou


Eu passava ali de noite e de dia.


Desde ontem a cidade mudou.


 


Meu coração tem pouca alegria,


E isto diz que é morte aquilo onde estou.


Horror fechado da tabacaria!


Desde ontem a cidade mudou.


 


Mas ao menos a ele alguém o via,


Ele era fixo, eu, o que vou,


Se morrer, não falto, e ninguém diria.


Desde ontem a cidade mudou.


 


*


 


O tumulto concentrado da minha imaginação intelectual...


 


Fazer filhos à razão prática, como os crentes enérgicos...


 


Minha juventude perpétua


De viver as coisas pelo lado das sensações e não das responsabilidades.


 


(Álvaro de Campos, nascido no Algarve, educado por um tio-avô,


padre, que lhe instilou um certo amor às coisas clássicas). (Veio


para Lisboa muito novo...)


 


A capacidade de pensar o que sinto que me distingue do homem vulgar


 


Mais do que ele se distingue do macaco.


(Sim, amanhã o homem vulgar talvez me leia e compreenda a substância do meu ser.


 


Sim, admito-o,


Mas o macaco já hoje sabe ler o homem vulgar e lhe compreende a substância do ser).


 


Se alguma coisa foi porque é que não é?


Ser não é ser?


 


As flores do campo da minha infância, não as terei eternamente,


Em outra maneira de ser?


Perderei para sempre os afectos que tive, e até os afectos que pensei ter?


 


Há algum que tenha a chave da porta do ser, que não tem porta,


E me possa abrir com razões a inteligência do mundo?


 


Poesias de Álvaro de Campos, Fernando Pessoa. Lisboa, Edições Ática.


 

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