Tempos de Cólera

Alexandre O´Neill

 AO.jpg


Poema de Desamor


Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato


 


Beija embainha grunhe geme


Não se pode morar nos olhos de um gato


 


Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato


 


Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato


 


Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato


 


Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato


 


Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato


 


Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato


______


«Ninguém Se Mexa! Mãos ao Ar!»


 


«Ninguém se mexa! Mãos ao ar!» disse o histérico
e frívolo homenzinho com mais medo
da arma que empunhava que de nós.
«Mãos ao ar!», repetiu para convencer-se.


 


Mas ninguém se mexeu, como ele queria…
Deu-lhe então a maldade. Quase à toa,
escaqueirou o espelho biselado
que tinha as Boas-Festas da gerência


 


escritas a sabão. Todos baixámos,
medrosos, a cabeça. Se era um louco,
melhor deixá-lo. (O barman escondera-se
por detrás do balcão.) Ali estivemos


 


um ror de medo, até que o rabioso
virou a arma à boca e disparou.


______


O Poema Pouco Original do Medo


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis


Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos


O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
‘     (assim assim)
escriturários
‘     (muitos)
intelectuais
‘     (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles


Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados


Ah o medo vai ter tudo
tudo


(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)


 


O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos


Sim
a ratos


______


Uma Vida de Cão


Não
não é a poesia caixa de música
ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias
ou qualquer outra
que podem dissolver a tua alma
tão problemática
no vinho da beatitude


Ah
o «mistério» da poesia a poesia
técnica da confusão
a capelista poética e os primeiros fregueses
ainda a medo ainda receosos
de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas
logo ali à mão


E quando dizes «Poesia» eu tenho nojo
aquele nojo violento que me dá
o olhar furtivo a atenção desatenta
dos que se demoram nos lavabos nas salas dos cinemas
de mãos distraídas procurando
a solução da noite


Instalaram-se em ti
a mesma contracção suspeita
a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto
a mesma curva obscena
que o olhar descreve
goza
e disfarça


Quando dizes «Poesia» dizes medo
dizes família tradição classe
e a vida de cão que te esperava
e que é hoje a tua vida a tua «transcendente»
vida de cão


 


Ensinaram-te palavras que pareciam
prontas a derrotar quem as ouvisse
ensinaram-te gestos para elas
e a tal ponto te humilharam
que te puseram de pé
limpo
inteligente
e aprumado


Pronto a seguir
seguiste
e agora estás aqui
estás aqui pois claro
angustiado e iludido
mas deliciado


 


Até aos últimos arcanos
cafés e leitarias
seguiste André Breton
ou a sombra dele
e a aventura mental que procurava
um sinal exterior
um estilhaço vivo do acaso
a Nadja lisboeta que salvasse
ou a noite ou a vida
acabou em «bons» poemas «maus» poemas
em palavras e palavras


E coberto de palavras enterrado
numa terra de murmúrios de gemidos
teu coração já nada faz mover
senão moinhos de palavras
e «a dor é grande» dizes tu
«mas sublime»


 


Mas não sou eu que te lamento
Os teus mitos esperam-te
já impacientes


Agora põe-te a andar
agora passa por cá daqui a uns anos


Talvez me encontres
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
‘          oferecer-te uma sílaba
‘          um conselho
‘          um cigarro


Alexandre O´Neill, “Tomai lá do O’Neill” (Uma Antologia). Círculo de leitores, 1986

0