Tempos de Cólera

Al-Mu'tamid: o rei-poeta

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A VIDEIRA
ao passar junto da vide
ela arrebatou-me o manto,
e logo lhe perguntei:
porque me detestas tanto?
eis que ela me respondeu:
porque é que passas, ó rei,
sem me dares a saudação?
não basta beberes-me o sangue
que te aquece o coração?


*


Poeta mouro, nascido em Beja, em Dezembro de 1040, célebre como rei, literato e homem. Começa por ser um notável poeta de amor, como documentam os nomes das concubinas a quem dedicou versos; a rainha ‘Itimad, porém, será sempre alguém muito especial que o acompanhará em todos transes da atribulada existência, até ao fim dos seus dias, no exílio.


O reinado de al-Mu'tamid é vivido num precário equilíbrio, dada a ameaça de Afonso VI de Castela, a quem se vê obrigado a pagar tributo. O alargamento que consegue das suas fronteiras é feito para sul e leste à custa do território de outros reinos de Taifas, chegando a englobar, além do Algarve e grande parte do Alentejo, cidades tão importantes como Córdova, Sevilha, Ronda, Huelva, Carmona, Algeciras, Niébla, Jaén, e Múrcia.


A desagregação do califado, provocada por diversos partidarismos, vence o cimento do Islão que se torna insuficiente para contrariar a degradação política e as tendências de secessão. Os pesados impostos não canónicos lançados sobre povo tornam-se impopulares e desmobilizam a defesa do território. Ameaçado pelos avanços do rei cirstão, al-Mu'tamid recorre por três vezes ao apoio de do rei almorávida, Ibn Tashfîn. Um apoio que se revelou fatal para al-Mu'tamid, o soberano berbere, apercebendo-se das riquezas do Alandalus, viu também as suas fraquezas, resolveu proceder à sua conquista. Al-Mu'tamid, depois de feroz resistência, é derrotado e feito prisioneiro.


Morre no exílio, em 14 de Outubro de 1095, em Aghmât, perto de Marraquexe. Fica na história como o “poeta do destino” e um dos maiores da língua árabe de todos os tempos e o mais notável do Alandalus ibérico da segunda metade do século XI. Este rei-poeta, filho e neto de poetas, educado numa corte de literatos, viveu numa época de grande agitação social e política, mas igualmente de tolerância e progresso artístico, filosófico e científico. Realidades que transparecem na poesia de al-Mu'tamid que “começa por ser o poeta dos prazeres da vida, das tertúlias báquicas, do amor e da sua fruição erótica e acaba cantando o sofrimento, enquanto instrumento do Destino para fazer brilhar a pedra oculta da grandeza humana”, segundo as palavras do grande arabista português, Adalberto Alves.


(ver em “Al-Mu'tamid – Poeta do Destino” de Adalberto Alves, da Assírio & Alvim. 2004)
 


SAUDAÇÃO A SILVES


viva Abû Bakr!
saúda por mim, asinha,
os queridos lugares de Silves
e diz-me se a saudade deles
é tão grande quanto a minha.

saúda o Palácio dos Balcões,
da parte de quem não esqueceu
a morada de gazelas e leões,
salas e sombras onde eu
doce refúgio encontrava
entre ancas que lá achava
e bem estreitas cinturas.

moças níveas ou escuras
atravessavam-me a alma
como brancas espadas
ou lanças aceradas.
ai quantas noites fiquei,
lá no remanso do rio.
nos jogos d'amor m'embaracei
com a da pulseira curva,
igual aos meandros da água,
sem ver o tempo passar…

bebia vinho, sem mágoa:
o vinho do seu olhar,
às vezes o do seu copo,
e outras vezes o da boca.

tangia-me o alaúde:
minh' alma ficava louca
como se ouvisse crispados
tendões de colos cortados.

e se retirava as vestes
mostrando encantos de amor,
era um salgueiro prestes
a abrir o seu botão
para me mostrar a flor.


 *


PARTIDA PARA A BATALHA


reencontrámo-nos ao romper do dia
e já soara a hora do adeus.

aos pendões agitados na frente do palácio
juntámos nobres montadas de fino pêlo.
soaram os tambores da separação.
chorámos sangue dos olhos feridos
pelas lágrimas caídas em torrente.

três dias após - quem sabe? - voltaríamos.
mas quanto durariam esses dias
e quem suportaria a sua sucessão?


*


O CAVALEIRO CATIVO


fina-se na bainha aquela espada,
com saudade de ser erguida pela mão
e a lança sofre por não ser usada
porque meu braço a não sacia então.

também o corcel susta a bocada
se, nervoso, escondida espera,
O cavaleiro é como ávido leão:
pastando com apresa está a fera

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