
Fala do Homem Nascido
Venho da terra assombrada
Do ventre da minha mãe.
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui.
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.
Trago boca pra comer
E olhos pra desejar.
Tenho pressa de viver
Que a vida é água a correr.
Tenho pressa de viver
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo
Não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao Norte.
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham.
Nem forças que me molestem
Correntes que me detenham.
Quero eu e a natureza
Que a natureza sou eu.
E as forças da natureza
Nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença
Mesmo morto hei-de passar.
Não há poder que me vença
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.
Venho da terra assombrada
Do ventre da minha mãe.
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui.
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.
*
Capa Negra Rosa Negra
Capa negra rosa negra
Rosa negra sem roseira.
Capa negra rosa negra
Rosa negra sem roseira.
Abre-te bem nos meus ombros
Como o vento uma bandeira,
Como o vento uma bandeira.
Abre-te bem nos meus ombros
Vira costas à saudade.
Abre-te bem nos meus ombros
Vira costas à saudade.
Capa negra rosa negra
Bandeira de liberdade,
Bandeira de liberdade.
Eu sou livre como as aves
E passo a vida a cantar.
Eu sou livre como as aves
E passo a vida a cantar.
Coração que nasceu livre
Não se pode acorrentar,
Não se pode acorrentar.
*
Cantar de Emigração (este Parte, Aquele Parte)
Composição: Rosalia de Castro
Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
que possam cortar teu pão
Tens em troca
órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai
Coração
que tens e sofre
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará
*
Porque
Composição: Sofia de Melo Breyner
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
*
Morte que mataste Lira
Composição: Indisponível
Morte que mataste Lira,
Morte que mataste Lira,
Morte que mataste Lira,
Mata-me a mim, que sou teu!
Morte que mataste lira
Mata-me a mim que sou teu
Mata-me com os mesmos ferros
Com que a lira morreu
A lira por ser ingrata
Tiranicamente morreu
A morte a mim não me mata
Firme e constante sou eu
Veio um pastor lá da serra
À minha porta bateu
Veio me dar por notícia
Que a minha lira morreu
Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira nasceu em Avintes em 9 de Abril de 1942, no seio de uma família tradicionalista católica. Tornou-se militante do PCP em 1962. Em 1975 lançou "Que Nunca Mais", com direcção musical de Fausto e textos de Manuel da Fonseca. Este vinil levou a revista inglesa Music Week a elegê-lo como "Artista do Ano". Fundou a Cooperativa Cantabril e publicou o seu último álbum, "Cantigas Portuguesas", em 1980. No ano seguinte, numa altura em que a sua saúde já se encontrava degradada rompeu com a direcção da Cantabril e do partido, ingressando na Cooperativa Era Nova. Em 1982, com quarenta anos, a 16 de Outubro, morreu em Avintes, nos braços da mãe. Foi, juntamente com José Afonso, o percursor do que se entende por canção de intervenção (política) que caracterizou o período que antecedeu o 25 de Abril, incluindo a década de sessenta, e os anos que se seguiram à dita “revolução dos cravos”.
(Poemas in http://letras.terra.com.br/adriano-correia-de-oliveira/486851/)